Bairros

Mulher negocia com ‘ladrão gentil’

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Quando se fala em assalto, o primeiro sentimento que vem à mente é o medo. Seja por ser intimidado, ou ameaçado por algum tipo de arma. Mas na noite de segunda-feira, por volta das 21h, uma educadora, que teve a identidade preservada, foi vítima de um “ladrão gentil”.

A mulher, de 44 anos, conta que o rapaz ainda deixou que ela ligasse para o seu marido antes de concluir o roubo. Nesta matéria, ela relata a situação que viveu e sobre a sua negociação com o assaltante.

Como faz todos os anos, a moradora do bairro Alto Paraíso, em Bauru, combinou uma comemoração de fim de ano com um grupo de amigas do salão de beleza que frequenta. Neste ano o local escolhido foi um bar localizado em frente à faculdade Anhanguera, na quadra 3 da avenida Moussa Tobias, Parque São Geraldo. Ela levou a filha de 12 anos, que estava doente e começou a ter febre.

“Minha filha foi comigo, mas estava com dor de garganta e começou a ter febre e a se sentir mal. Então ela pediu que eu ligasse para o meu marido para buscá-la. Foi aí que eu notei que havia esquecido o meu aparelho celular dentro do meu carro, que tinha ficado estacionado bem em frente ao bar. Então, fui até lá para buscá-lo”, relatou.

A educadora, que atua como diretora de uma escola municipal da cidade, saiu do estabelecimento e foi em direção ao carro, momento em que viu o assaltante pela primeira vez.

Ela conta que não suspeitou do rapaz, que aparentava cerca de 18 anos, porque além de estar bem vestido, parecia estar “guardando” os carros que estavam na rua como fazem outras pessoas em bares, boates e outros locais movimentados da cidade.

“Eu abri a porta do carro, peguei o celular e estava quase ligando para o meu marido quando um rapaz, que estava subindo a rua, voltou. Ele se virou para mim e disse assim: ‘Dona, que horas são?’. E eu, inocente, nunca imaginando que seria um assalto, olhei no celular e no momento em que eu fui responder, já estava na calçada ao lado dele. Ele disse: ‘A senhora não entendeu. ‘Tá’ na hora da senhora me passar o seu celular porque isso é um assalto e eu estou armado’”, contou, aos risos.

Última ligação

Sem acreditar no que estava acontecendo, talvez porque neste momento o medo faz com que a descarga de adrenalina no sangue seja tão brusca que falham os sentidos, ela concordou com o rapaz, que lhe encostou algo na altura do quadril. Ela se sentiu intimidada, entretanto, pediu que o assaltante deixasse-a ligar para o marido antes de levar o aparelho consigo.

“Eu falei para ele: ‘Você pode levar o meu celular, mas antes deixe-me ligar para o meu marido porque minha filha está passando mal’, e ele retrucou perguntando se eu estava brincando com ele. Eu expliquei de novo a situação e disse que não estava mentindo. Nesse momento ele encostou alguma coisa na minha cintura que eu não sei dizer se era uma arma ou a mão, porque eu não olhei”, acrescentou.

A vítima explicou ainda ao assaltante que iria fazer a ligação, lhe entregaria o celular e o deixaria ir embora, e ele concordou calmamente, segundo o relato da educadora. O rapaz acatou à negociação, esperou que ela ligasse para o marido, contasse sobre a situação da filha e desligasse.

“Eu desliguei e dei o celular para ele. Aí, ele ainda disse que eu poderia retirar o chip. Me tratou educadamente como ‘senhora’ o tempo todo”, conta a vítima.

____________________

Vivência

Por ser educadora há 22 anos e já ter sofrido um assalto no ano passado e ficado refém de ladrões, a vítima do “ladrão gentil” conta que enquanto desligava o celular e retirava o chip do aparelho, ela começou a reparar no olhar do rapaz.

“Eu nunca vou esquecer o rosto dele. Eu olhava para ele e não tinha a impressão de que era um ladrão mesmo, que pratica muitos crimes. Então eu perguntei para ele por que ele estava fazendo aquilo. E ele me disse que precisava do dinheiro para aquela noite (noite de segunda-feira) e que a sua vida estava em jogo”, contou.

____________________

Rapaz chegou a pedir desculpa

A mulher que foi vítima de assalto na última segunda-feira no Parque São Geraldo conta, ainda, que disse ao rapaz na ocasião que se tivesse o dinheiro, daria a ele para que não precisasse roubar. O rapaz respondeu a ela que nunca tinha assaltado ninguém e ainda pediu desculpas.

“Eu acredito que ele possa estar roubando outras pessoas, mas por ser usuário de drogas, ou por outra necessidade. Ele foi educado, não me passou medo, ao contrário, eu fiquei compadecida com a situação dele porque tenho dois filhos adolescentes, além da menina. E o que me tocou foi que quando ele me pediu desculpas, os olhos dele se encheram de lágrimas”, revela.

O rapaz ainda perguntou se a mulher iria chamar a polícia. Ela disse que sim, então ele pediu que esperasse até ele ir embora. Assim ela fez. A educadora afirmou, ainda, que acredita que o rapaz não estava mentindo sobre a sua situação. A Polícia Militar (PM) foi acionada, compareceu ao local e registou boletim de ocorrência. O rapaz não foi localizado.

Comentários

Comentários