Mais uma tragédia colocou a Av. Nações Unidas no foco das notícias e dos comentários, inclusive este. Até quando a cidade vai conviver com esse problema? Dá medo ir à Estação Rodoviária ou ao Teatro Municipal quando ameaça chover e as perspectivas futuras são as piores possíveis. As mudanças climáticas estão provocando chuvas cada vez mais torrenciais, não só de Norte a Sul do Brasil como pelo mundo, destruindo pontes e estradas e até cidades inteiras. No caso de Bauru, a cidade vem crescendo sem uma infraestrutura com previsão de adaptações para as novas demandas do crescimento. Está certo que assim também cresceram as outras cidades, mas a partir do seu primeiro Plano Diretor, feito na segunda gestão do Dr. Nuno de Assis, 1964/68, que traz o traçado da Av. Nações Unidas, já era possível administrar com alguma previsão se suas diretrizes fossem seguidas, e o mesmo está acontecendo com o PD atual, transformado na Lei nº 5631, de 22/08/2008. O que acontece com a Av. Nações Unidas será multiplicado por novas avenidas de fundo de vale nas áreas de expansão que acompanham o Rio Bauru e os córregos da Forquilha, da Ressaca, da Grama e do Sobrado, devido à intensa urbanização, se o Plano Diretor não for seguido.
Voltando à Av. Nações Unidas, a prefeitura não sabe o que fazer? Sabe e está no plano de macrodrenagem, mas conforme o noticiário, não faz porque custaria cerca 25 milhões de reais, recurso que a prefeitura não tem, demoraria pelo menos 5 anos e traria muitos incômodos à população. Evidente que se trata de simples desculpa. Primeiro porque, o que a população prefere, não ter incômodo e continuar convivendo com essa ameaça ou ver-se livre dela? Segundo, quanto à falta de recurso, é verdade que Bauru tem uma receita muito aquém de suas necessidades e o seu prestígio político, principalmente em relação ao governo federal, se resume nos abraços que os candidatos vêm dar em seus cabos eleitorais durante a campanha. Conseguir uma ajuda do governo estadual, caso como o da extensão norte da avenida não é coisa que se repita com facilidade.
O que fazer então? Repetir o que se fez com a própria construção da avenida. Era uma obra imensa para Bauru, mas foi feita. Como? Foi feita em etapas. Começou com o Nicolinha (Prefeito Nicola Avallone Júnior, 1956/59), que canalizou o córrego das Flores e pavimentou o trecho que vai da Rua Marcondes Salgado até a Av. Rodrigues Alves, para melhorar o acesso do centro à Vila Cárdia. As empresas auxiliaram no transporte de terra para cobrir o buracão que servia de depósito de lixo. O primeiro nome foi de Avenida Marginal. Ao fazer o primeiro Plano Diretor, o arquiteto Jurandir Bueno Filho fez o traçado total da avenida com o teatro Vitória Régia e, por indicação do Rotary Club de Bauru, recebeu o nome de Av. Nações Unidas. O restante da avenida foi feito por Alcides Franciscato, Edmundo Coube, Osvaldo Sbeghen e Tuga Angerami, que fez o trecho da Rondon até o Zoológico.
Não é assim, também, que as pessoas de poucos recursos fazem as suas casas, por etapas? Compram o terreno e depois vão fazendo o alicerce, levantamento das paredes e cobertura, portas e janelas, redes hidráulica e elétrica, e não passam a morar nela até o acabamento, suportando as dificuldades? Então, se não dá para fazer tudo de uma vez, vamos fazer por etapas, mas vamos fazer. É só querer e dar continuidade administrativa, de um governo para outro, como já foi feito. Se a solução está na contenção das águas pluviais nos chamados piscinões, uma administração faz o que pode e a outra dá continuidade. As obras grandes devem ser planejadas para tantas gestões quanto for o tempo necessário, de acordo com a dimensão do projeto e os recursos necessários, próprios e conseguidos em ajuda governamental e em financiamentos. Basta querer.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras