Os números do Núcleo Habitacional Mary Dota, na zona leste de Bauru, impressionam. São mais de 3.600 casas, 18 mil moradores, centenas de estabelecimentos comerciais. E é por isso que quando um dos maiores conjuntos habitacionais da América Latina chega aos 20 anos, a festa precisa ser boa. A Associação Bauru pela Diversidade (ABD), Organização Não Governamental (ONG) Periferia Legal e Associação Comercial dos Empresários do Mary Dota (Acemad) oferecem a partir de hoje dez dias de festa com shows musicais, poesia, cavalgada, passeio ciclístico e apresentações para deixar a comemoração dos 20 anos do Mary Dota marcada na história do bairro. A Escola de Samba Tradição também participa do evento, que tem apoio do Jornal da Cidade. Hoje, o JC traz edição especial sobre o aniversário do bairro, com a programação completa da festa.
Vanderlei Antônio Pereira, do Periferia Legal, destaca que todos os anos, o aniversário do bairro, que foi entregue à população do dia 6 de dezembro de 1990, tem comemoração. “Mas essa festa será para engrandecer o bairro, Não só para comemorar os 20 anos, mas também para que o morador valorize ainda mais o Mary Dota”, destaca. Para ele, a participação da ABD foi fundamental para a viabilização da festa. “Eles abraçaram a ideia e se dedicaram muito. Posso falar que 90% de tudo o que foi feito para o evento saíram das mãos deles”, destaca.
Para Paulo Xavier da Silva, presidente da Acemad, a expectativa é atrair público não só do Mary Dota, mas de toda a cidade. “O palco da festa é o mesmo do show da Wanessa, que foi realizado na cidade, em agosto. Será uma festa muito grande. Foi um verdadeiro desafio”, observa. Ele ressalta que o evento será de portas abertas e, por isso, conta com a presença de muita gente.
Markinhos de Souza, da ABD, destaca que o principal objetivo da festa é aumentar a autoestima dos moradores do bairro. “A ONG trabalha com a diversidade como um todo e trabalha justamente para diminuir a discriminação e preconceito não só sexual, mas também o preconceito social. Ao levar uma festa dessas ao bairro, a ideia é valorizar o Mary Dota, para que os moradores saibam que o bairro tem potencial para receber um evento como esse”, diz. Rick Ferreira, da ABD, destaca que a realização da festa faz parte das ações desenvolvidas pela entidade. “A ONG sempre busca fazer suas ações sociais nos bairros da cidade. E isso acontece há três anos”, observa.
A ABD se encarregou de organizar todo o evento, junto da Acemad e da Periferia Legal. “Aceitamos o desafio e está valendo a pena. Temos muito carinho pelo bairro e temos uma expectativa muito grande para a festa”, destaca Markinhos.
A comemoração começa hoje com a leitura de um poema sobre o bairro. O primeiro morador do Mary Dota também será lembrado. Ao final, será entregue a homenagem “Amigo do Mary Dota”. O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), o vereador Fernando Mantovani (PSDB), a ABD, a família Mondelli e o diretor do Grupo Cidade e presidente da Associação Paulista de Jornais (APJ), Renato Zaiden, serão os homenageados neste ano.
De acordo com Rick, o Lar Escola Rafael Maurício vai participar da festa com uma banca para venda de comes e bebes. O objetivo é ajudar a entidade, que precisa aumentar seus recursos financeiros. Markinhos conta que a Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Bauru também participará da festa. A entidade aproveitará o evento para vender a rifa para o sorteio de um carro e uma motocicleta. O valor arrecadado com a venda dos bilhetes será destinado para custear as despesas de final de ano.
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Alerta
A ABD alerta empresários bauruenses que algumas pessoas têm se aproveitado da realização do evento para vender cotas de patrocínio sem autorização da organização. Para evitar problemas, a entidade pede que em caso de dúvidas, entrem em contato com a organização do evento.
A entidade também pede que vendedores ambulantes respeitem o trabalho social desenvolvido e trabalhem a uma distância de 100 metros da entrada do evento. Para a ABD, a medida é necessária para garantir receita às entidades, voluntários e patrocinadores que vão atuar na festa.
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As dificuldades do início do bairro
Quem passa hoje pelo Núcleo habitacional Mary Dota não imagina que há duas décadas as vias do bairro, de terra batida, ainda não eram tomada por tantos automóveis e vez ou outra eram invadidas por vacas. Isso sem contar que a falta de muros entre as residências e a semelhança entre elas provocavam algumas confusões. Quem viveu os primeiros anos do bairro, inaugurado em 6 de dezembro de 1990, conta como foi o início da vida do Mary Dota.
O primeiro morador do bairro, Heriberto Silva, o Beto, que chegou no Mary Dota com sua família seis meses antes de sua inauguração, lembra dos apuros que era viver sem água e energia elétrica. Ele conta que ficou 40 dias com a luz de um lampião. “A cada dois dias ia buscar água e enchia os tambores que eu carregava no carro. A gente deixava acumular roupa e ia lavar na casa de parentes, no Gasparini”, conta.
Paulo Roberto Ferreira, da associação de moradores do bairro, lembra que nos seus primeiros meses no Mary Dota passou por algumas situações engraçadas. “Teve uma noite que escutei um barulho do lado de fora da casa e resolvi investigar. Fui bem quietinho, com medo de ser algum ladrão e abri a janela. Nisso, dei de cara com uma vaca”, se diverte. Ele conta que alguns animais escapavam de pastos próximos e invadiam os quintais, que não eram cercados por muro ainda.
A semelhança das residências também provocou algumas confusões. Paulo lembra que alguns moradores ficavam até mais tarde nos bares próximos e, já meio embriagados, costumavam entrar nas casas alheias por engano. Mas garantiu que isso nunca aconteceu com ele.
Aldo da Silva, sobrinho de Beto, conta que ficou quatro anos morando com o tio no bairro e ajudando em sua empresa de materiais de construção. Ele conta que o pior era abastecer de água as construções nas casas, no inverno. “A gente ia até a lagoa da Quinta da Bela Olinda, onde carregávamos um caminhão com tambores de água. Em seguida, passava pelas obras e enchia os tambores de cada uma delas. No final, a gente ficava todo molhado, naquele frio. Uma vez teve geada e a gente continuava carregando o caminhão de água”, recorda Aldo, que depois se mudou para a Vila Dutra.
Para Regina Manzato, a grande dificuldade era manter a roupa no varal limpa. “Estendia um varal inteiro, mas como tinha muita área de terra, toda vez que ventava, as roupas ficavam vermelhas de tanta terra. Tinha que lavar tudo de novo”, recorda. Ela também lembra que até comprar o pãozinho pela manhã era difícil. “O padeiro passava às 5h buzinando, vendendo pão e leite. E a gente tinha que acordar, senão ficava sem”, conta.