Dois sentimentos, alegria e saudade, apoderaram-se de mim, ao ler, no JC do dia 3 de dezembro, que a Igreja Santa Terezinha, após uma interdição de um ano e três meses, motivada por um problema estrutural em suas fundações que provocou risco do prédio desmoronar, voltaria a ter missa e que os fiéis poderiam frequentar o interior da igreja. A reportagem ainda confirmava que, naquela semana, fora finalizada a primeira fase da reforma que instalou as fundações profundas e inserção de blocos apoiando as paredes, faltando apenas a reforma interna que incluía pintura e transformações arquitetônicas.
Como cristão católico, essa notícia encheu a minha de alma de alegria. A igreja Santa Terezinha é um referencial muito forte não só na minha vida como também na de muitos fiéis que nesta Casa de Deus receberam os vários sacramentos de fé (batismo, crisma, eucaristia, confissão, matrimônio).
Para Santo Agostinho, o filósofo, a memória é como um palácio com vários quartos. A medida que abrimos uma porta, outras existem para serem abertas e conhecidas. Aproveito, então, esta auspiciosa notícia do JC aos paroquianos da Santa Terezinha, para, aos poucos, arrancar do fundo do baú, em cada um dos quartos do palácio da minha memória as lembranças do tempo de infância, quando morador da Rua Gérson-França, a poucas quadras da Santa Terezinha. A proximidade me fazia um assíduo frequentador das escadarias da igreja e das frondosas árvores da Praça Rodrigues de Abreu, onde, criança, feliz, brincava sem tráfico e sem tráfego.
Confesso que não só os atrativos do lazer, mas também a vivência religiosa como coroinha foram despertando em mim a vocação de ser padre. Lembro-me com saudade e com respeito dos párocos holandeses, todos Missionários do Sagrado Coração : padre Graciano, padre Cornélio Van De Made e daquele que depois ficou bispo, Dom Pedro Paulo Koop, quem , realmente, deu o último e decisivo empurrãozinho para minha heroica e surpreendente ida a Escola Apostólica (Seminário) de Pirassununga.
Foi, é obvio, a minha intimidade com o altar, o ambiente sagrado, o clima das celebrações, as profundas impressões gravadas entre incensos e campainhas, tudo somado à figura da igreja Santa Terezinha foi alimentando em mim esta vocação. Divagando, hoje, vejo-me com saudade, vestido com aquela capinha vermelha e sobrepeliz de longas mangas, sapato bem engraxados, rodeando o altar como turiferário e acólito, respondendo ao celebrante naquele impecável (nem tanto) latim da época.
Estava decidido. Tudo conspirava favoravelmente... No dia 1º. de fevereiro de 1948, eu e meu pai partimos de trem para o seminário de Pirassununga, onde permaneci seis anos enclausurado. A despedida da casa e da família foi muito dolorosa para mim. Aquela madrugada ainda escura e ligeiramente fria estava entalada na garganta daquele coroinha da Santa Terezinha que saía pelos olhos em forma de lágrimas que haveriam de ter sequência. Após uma viagem sem transtornos, chegamos à Escola Apostólica. A porta de entrada ao enorme corredor transversal que dava acesso à parte interior do Seminário abriu-se decididamente.
Neste momento, lembrei-me da minha mãe, meus irmãos, amigos e lá ao longe veio à minha mente a imagem majestosa da igreja Santa Terezinha, onde tudo começou e me deu, hoje, o ensejo de escrever esta saudosa crônica libertando-me de sucumbir à tentação da terceira idade que costuma fechar as pessoas num rigorismo esterilizante, feito de pessimismo e amargor.
O autior, Gino Crês, é professor