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Enchente: tragédia anunciada

Adriana Nigro Cardia
| Tempo de leitura: 3 min

Na penúltima terça-feira, dia 30 de outubro, assistimos estarrecidos a mais uma tragédia anunciada, só que desta vez eu, por exemplo, de camarote, como disse um amigo. Acostumada a relatar pela Internet - twitter, Orkut, facebook, blog e outros - os grandes acontecimentos ocorridos durante o ano da sacada do meu apartamento, que tem como vista o belo parque Vitória Régia e a avenida Nações Unidas, um dos cartões postais mais importantes da cidade, senão diria o mais importante, relato naquela triste tarde uma tragédia já anunciadas há décadas.

No momento da formação da tempestade, deixei uma das escolas onde trabalhei durante o ano e decidi que iria ao shopping pagar uma conta, mas como ainda preservo os costumes paulistanos, decidi ir pela rodovia Marechal Rondon, via de acesso mais rápido, pois de lá teria ainda aulas em outra escola. Saí da escola sob uma temperatura extremamente elevada que suportamos a tarde toda, numa sensação de estarmos todos habitando numa estufa térmica; porém, sem nenhum sinal de chuvas. Todavia, ao me aproximar do posto Graal avistei densas nuvens e imediatamente o início de uma chuva muito forte. Pensei em não conseguir descer do carro, por isso não via sentido em prosseguir tal intento. Melhor seria ir me proteger em casa. Mas ao descer uma das vias que dá acesso à vicinal que margeia a Nações, na altura do antigo colégio Seta, me deparei com uma verdadeira piscina e decidi prosseguir. Naquele momento, percebi que o carro poderia ser levado pela enxurrada vias abaixo. Fiquei com muito medo, mas prossegui lentamente até a Antônio dos Reis, um trecho curtíssimo, mas onde minha imaginação foi a mil, e pressenti que poderia ser levada pelas águas, o carro tombar, enfim, o pior.

Chegando em casa, pude assistir, desolada, “de camarote”, aquela tragédia já anunciada. Entretanto, como residi a maior parte de minha vida na cidade de São Paulo, não poderia imaginar o que ocorria a poucos metros dali. Apenas liguei para a redação deste jornal e descrevi o triste cenário que assistia: carros sendo levados pela enorme enxurrada onde aquele lindo cartão postal se transformara num verdadeiro braço de mar. Não se via mais nada além de carros com pisca alerta sendo levados pelas águas e um deles tombado a poucos metros dali. Pedi na redação deste jornal que avisassem as autoridades para que os passageiros daqueles carros fossem socorridos. Aflita, pensei em todos, nos meus familiares em especial, mas aflita, muito aflita, até hoje.

Mas o pior de tudo estava por vir: a morte trágica daquele professor, o engavetamento de carros em frente ao teatro municipal, a destruição total do nosso cartão postal e ouvir do nosso prefeito em rede de TV local o depoimento que nos desolou mais ainda! De que aquela chuva é uma entre as muitas que virão, que a prefeitura procurará fazer galerias e que os bauruenses devessem se proteger em lugares altos da cidade, pois Bauru foi estabelecida num vale. Isso evidentemente é tudo o que a população não queria ouvir na-quela hora. Nosso querido prefeito não foi feliz em dar aquela resposta naquele momento. O que a população precisa e quer saber são quais são as providências imediatas que a Endurb e o poder público estão tomando para proteger o cidadão bauruense de não se sentir uma verdadeira formiguinha onde nossas vidas não valem nada. Belo Horizonte já se precaveu com um programa de monitoramente de tempestades. E Bauru? Até quando ficaremos vulneráveis às intempéries do clima e da vontade política que decide nossas vidas? Muitas mortes já ocorreram. Em 2001, este jornal relatou quatro mortes em consequência dessas fortes chuvas e alagamentos na cidade; no final dos anos 70, até uma nadadora profissional, sobrinha de uma diretora de escola conhecida nossa, foi vítima fatal dessas enchentes e do volume de água que assolou a avenida Nações Unidas. Quando teremos uma resposta clara, com objetivos e planos determinados que nos trarão mais tranqüilidade em vivermos na nossa cidade ou teremos que providenciar carros com salva-vidas e bóias em caso de alagamento?

A autora, Adriana Nigro Cardia, é professora universitária e jornalista. Adriananigro2002@yahoo.com.br.

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