Os navegadores europeus foram os primeiros a descobrir as vantagens de fazer negócios com a China quando, no século 16, passaram a comprar mercadorias a preços baixíssimos naquele país para vendê-las a peso de ouro em sua terra natal. Cunhado à época, o termo “negócio da China” perdura até hoje para expressar transações que rendem grande lucratividade.
Passados cinco séculos e diante de uma nova dinâmica de mercado, agora é a vez dos empresários bauruenses se prepararem para conhecer as vantagens de estabelecer um novo tipo de relação comercial com os chineses. Ontem, eles se reuniram no Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru com representantes da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico (CBCDE) - considerada a principal instituição de fomento de negócios entre os dois países - para discutir como aumentar a exportação de produtos bauruenses para a China, assim como começar a importar mais insumos do que produtos acabados para abastecer a indústria local.
Atualmente, a China é o país que mais remete mercadorias para Bauru, num total de importações que atingiu a marca de US$ 17,8 milhões no período entre janeiro e novembro deste ano. Em contrapartida, o país asiático não está nem entre as 30 principais nações para as quais Bauru exporta seus produtos.
Para o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Bauru, Andrey Valério, é hora de inverter esta lógica, já que a China vem registrando significativas taxas de crescimento econômico nas últimas décadas e possui um mercado consumidor potencial de mais de 400 milhões de habitantes, considerando apenas as classes média e alta do país.
“O problema que Bauru vive em relação à China é o problema grave que o Brasil vive em relação ao mundo. Nós ainda importamos muitas commodities e exportamos muitos produtos manufaturados. Sabemos que o dólar está barato e que o produto chinês vai continuar entrando no Brasil. Então a ideia é começar a importar mais insumos da China, a preços baixos, para serem utilizados na fabricação de produtos que serão exportados posteriormente. Nós temos mão de obra de qualidade e relativamente barata para fazer isso acontecer”, esclarece.
“Via de mão dupla”
De acordo com Domingos Malandrino, diretor do Ciesp Bauru, esta é a primeira vez que uma instituição com vínculos chineses procura a cidade com o interesse de consolidar “uma via de mão dupla” comercial.
“Fiquei feliz com a iniciativa e acredito que essa parceria possa dar certo. Os chineses sempre foram muito agressivos nos negócios, mas precisamos entender que, mais do que uma ameaça ao mercado brasileiro, eles podem ser uma boa oportunidade de negócio”, pontua, salientando a necessidade da classe industrial se renovar e se inserir em novos mercados para não perder competitividade.
A partir da reunião realizada ontem, a intenção é que uma comissão de empresários seja formada para ir até a China para participar de feiras de exposição e visitar algumas cidades estratégicas para a indústria. Da mesma forma, as delegações chinesas que costumam visitar o Brasil com frequência a convite da CBCDE serão apresentadas às oportunidades de negócios com as fábricas de Bauru.
“Queremos que o Ciesp seja um vetor de divulgação do que seus associados têm a oferecer, assim como a Câmara nos abrirá as portas para que possamos conhecer os produtos chineses”, pontua Malandrino. Como a cidade tem no setor alimentício um de seus carros-chefe, a gerente geral da CBCDE, Eliana Yang, convidou os empresários de Bauru a participarem de uma feira na China, que será realizada em maio para estimular os negócios internacionais neste segmento.
Ela lembra que aqueles que tiverem interesse em instalar filiais de suas indústrias no país encontrarão facilidades proporcionadas pelo governo chinês, como cessão de terrenos e isenção de alguns impostos. “Esses subsídios são oferecidos porque o mercado interno chinês é muito grande e ainda não totalmente explorado. Muitas indústrias chinesas simplesmente não precisam exportar seus produtos porque tudo é consumido dentro do país”, diz Eliana.
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Mudança de concepção
Na avaliação da coordenadora de Negócios no Brasil da CBCDE, Marina Schwartzman, o empreendedor brasileiro precisa se desvincular da concepção de que ingressar no mercado chinês é uma missão quase impossível. Embora as diferenças culturais sejam muitas, ela acredita que a indústria local pode exportar um volume maior de produtos com valor agregado se conseguir conhecer o mercado consumidor, adaptar seus produtos à realidade do país e detectar pontos apropriados para distribuição.
“É claro que a diferença cultural e geográfica é grande. Mas os chineses estão vindo para cá e precisamos começar a fazer esse movimento contrário também”, pontua, salientando que não apenas os grandes, mas também pequenos e médios empreendedores podem encontrar boas oportunidades de negócios na China.
Em sua avaliação, se bem explorado, o mercado consumidor chinês poderá absorver produtos brasileiros variados, que vão desde alimentos a confecções, com ênfase naqueles que trouxerem um diferencial caracterísitco do país. “A ideia é que o Brasil possa exportar produtos de qualidade, tipicamente brasileiros ou não, mas que agregem valor por seu diferencial”, considera, lembrando a experiência de sucesso de uma indústria paulista que encontrou na China um grande mercado consumidor para uma linha de produtos fabricados à base de mel e própolis.
Em relação às exportações, Marina cita que o Brasil já começou ou começará a comprar da China placas de energia solar, autopeças, eletroeletrônicos de todos os níveis de qualidade e lâmpadas de LED. “Futuramente, as lâmpadas incandescentes e brancas não serão mais usadas. E o Brasil, até o momento, só possui uma fábrica de LED. Já a China é a maior fabricante deste produto no mundo e conta, inclusive, com cursos universitários nesta área”, pontua.