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Construção civil faz Bauru registrar recorde de novos empregos gerados em 2010

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Osmar Venâncio de Souza, 45 anos, e Rafael Araújo Costa, 26 anos, atuam no ramo da construção civil e, há três meses, foram contratados por uma construtora da cidade para trabalhar em um prédio que está sendo erguido na Vila Universitária. Assim como eles, milhares de pessoas foram admitidas com carteira assinada em Bauru em 2010. E o ótimo momento vivido pela economia fez com que a criação de novas vagas de emprego formal registrasse o recorde da última década, impulsionado especialmente pelo setor onde Osmar e Rafael trabalham.

De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a diferença entre o número de contratações e demissões em 2010 foi a mais elevada dos últimos 11 anos, desde que o levantamento teve início. Os estudos apontam que, até novembro deste ano, foram geradas 13.049 novas vagas, praticamente o dobro do segundo maior saldo da série histórica do Caged, de 6.561 postos, registrado entre janeiro e novembro de 2007.

O número também é mais expressivo que o montante computado em todo o ano passado, quando o saldo foi de 2.190 novas vagas de emprego, com 48.284 contratações e 46.094 demissões. Até novembro deste ano, 60.772 trabalhadores haviam sido contratados e 47.723 demitidos. Já em todo o ano 2007, quando o emprego em Bauru havia obtido seu melhor desempenho, foram efetivadas 40.729 contratações e 35.023 demissões.

Do total de 13.049 postos de trabalho criados entre janeiro e novembro deste ano, mais da metade foi proporcionada pela construção civil, que gerou 6.144 novas vagas no período, com 14.362 contratações e 8.218 demissões. E foi exatamente por conta do aquecimento do mercado imobiliário de Bauru, que já vinha apresentando ótimos resultados nos últimos anos, que a cidade ficou entre os 40 municípios que mais geraram emprego em todo o País em novembro, ficando à frente de algumas capitais federais como Florianópolis (SC), João Pessoa (PB) e Manaus (AM).

Na avaliação do economista Adriano Fabri, o aumento tão acentuado está intimamente relacionado ao crédito facilitado e os incentivos oferecidos pelo governo federal através do programa “Minha Casa, Minha Vida”. Como pano de fundo, ele cita o bom desempenho da economia como um todo, que proporcionou maior geração de emprego e renda em todos os segmentos. “Esta condição acaba gerando uma certa euforia nas pessoas e as encorajam a se endividar mais”, pontua.

“Boom”

Embora revelem que a remuneração que recebem seja menor do que desejariam, o pedreiro Osmar e o servente de pedreiro Rafael afirmam que não têm do que reclamar: há pelo menos três anos, eles desconhecem o significado da palavra desemprego. Por conta desta segurança proporcionada pela alta demanda pela mão de obra nas quais são especializados, em 2010 eles conseguiram trocar de carro por um modelo mais novo e, ainda, reservar uma pequena parte do salário para investimentos futuros.

“Na construção civil, só fica sem trabalho quem quiser. Eu estou aproveitando esta época para trabalhar bastante. Acabo uma obra e vou para outra. Em todo lugar tem gente precisando de gente para trabalhar”, comenta Osmar, que possui 24 anos de experiência.

Rafael está no ramo há apenas três anos, quando o setor imobiliário assistiu ao seu primeiro “boom”, fenômeno que foi superado pelos resultados obtidos em 2010, apenas um ano depois da crise financeira que atingiu o mundo.

“Em 2007, eu trabalhava como auxiliar de limpeza e fiquei desempregado. Como estavam precisando de servente, eu comecei a trabalhar em uma obra, mesmo sem ter experiência. Aos poucos, fui aprendendo, mas nunca mais fiquei sem emprego”, comenta Rafael.

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Número poderia ser ainda maior

Segundo o economista Adriano Fabri, o recorde no número de novas contratações registrado em 2010 poderia poderia ter sido ainda maior, já que a construção civil - setor que representou mais da metade do número de novas vagas de emprego criadas - sofre com a falta de mão de obra especializada. Reclamação constante das empreiteiras e construtoras, a dificuldade em efetivar contratações é um fenômeno que vem sendo registrado sistematicamente nos últimos anos e que não deve ser solucionada no curto prazo.

“Com o aquecimento do setor, tivemos um fenômeno de deslocamento promocional. Muitos pedreiros viraram empreiteiros, serventes tiveram que ser promovidos a pedreiros, até forçosamente, e o mercado está tendo que se desdobrar para encontrar mais mão de obra”, observa.

A análise do economista é atestada pelo mestre de obras Juracy Sena de Oliveira. “A gente é obrigado a trabalhar com o que tem, até aparecer alguém que possa preencher a vaga. Mas nem sempre é fácil encontrar quem saiba realizar o serviço”, considera. Mesmo tendo de procurar muito, a construtora em que trabalha contratou seis novos funcionários apenas nos últimos dois meses em razão do aumento do volume de obras em andamento.

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Crescimento do mercado imobiliário deve se manter

Por conta do crédito facilitado e dos incentivos governamentais, estima-se que o setor da construção civil tenha registrado crescimento entre 20% e 30% apenas neste ano, tornando-se um dos principais responsáveis pelo desempenho positivo da economia como um todo em 2010.

Considerando o déficit habitacional de Bauru - estimado em cerca de 6,5 mil residências, segundo levantamento feito pelo Instituto Soma a pedido da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) - esta curva ascendente deverá permanecer em expansão por, pelo menos, mais um ano e meio, na avaliação do economista Adriano Fabri.

“Deve continuar aquecido ainda em 2011, mas esse déficit vai diminuindo e o crescimento irá desacelerar se a cidade mantiver o porte que tem hoje”, pontua. No entanto, ele lembra que Bauru está recebendo uma série de investimentos da iniciativa privada, o que poderá atrair maior número de pessoas para o município. “Com isso, esse déficit pode ir aumentando e acabar mantendo o mercado aquecido por mais tempo.”

Em recente visita a Bauru, o presidente do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi), João Crestana, afirmou que o mercado imobiliário deverá permanecer aquecido por até 15 anos em função do aumento da população e da renda dos brasileiros. Neste período, a expectativa é que sejam construídas 25 milhões de moradias, necessárias para suprir a demanda que será gerada futuramente, assim como o déficit habitacional já existente.

Segundo ele, o panorama positivo para o mercado imobiliário brasileiro também é reflexo das transformações apresentadas pela pirâmide etária do País. Segundo ele, o grande volume de cidadãos na faixa entre 18 e 35 anos aumenta a expectativa do setor para a construção de mais habitações, já que jovens adultos costumam deixar a casa dos pais para viverem em suas próprias residências.

“Entre 30% e 45% da população brasileira está entre essas faixas. O Brasil tem uma janela extremamente favorável para o mercado imobiliário nos próximos 15 ou 20 anos”, avaliou João Crestana.

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