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O palhaço somos nós

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Imagine-se ganhando o equivalente a 588 salários mínimos por mês da pátria-mãe-gentil, sem fazer muita força. Rápido como quem surrupia a carteira do alheio, os parlamentares aprovaram aumento dos seus próprios subsídios em 64%, contra uma inflação de 20% no período.Os ganhos incluem benefícios como 13º. 14º. e 15º salários, auxílio-moradia, o “cotão” para gastos com escritórios políticos, despesas com combustíveis, porte de Correio, assinaturas de jornais e revistas, TV por assinatura, mais a gráfica do Congresso para imprimir até livros de poemas do deputado ou senador que se julgar com pendores literários. Para as lideranças dos partidos, a verba de gabinete dobra. Cada um dos 81 senadores da República passa a custar R$ 2 milhões por ano aos contribuintes. Deputado federal, um pouco menos: R$ 1,6 milhão. Sequer nos países ricos como os Estados Unidos, Japão, Inglaterra e Alemanha os parlamentares são tão bem aquinhoados. Arredondando, o deputado ganha R$ 720 por dia para comparecer às sessões de terça a quinta-feira. Se somarmos a isto o custo das passagens aéreas a que cada “representante do povo” tem direito, vai dar aquele montante de salários mínimos a que me referi. E quem não estiver satisfeito que vá morar na Venezuela. Eles fazem piadas com o nosso dinheiro. Pelo menos esta foi a primeira lição aprendida por Tiririca antes de receber o primeiro diploma da sua vida, o do Tribunal Regional Eleitoral. Aprovado com nota um milhão. Ele prometeu contar tudo o que um deputado faz na Câmara Federal. No primeiro discurso terá que explicar como se aumenta os próprios subsídios com a rapidez do raio. Ao fim do mandato, haverá de concluir que o palhaço somos nós, os eleitores.

A farra com o dinheiro público não termina em Brasília. Há o chamado “efeito cascata”. Pelo teto constitucional os deputados estaduais podem ganhar 75% dos subsídios dados aos federais. A Assembléia Legislativa de São Paulo já havia se antecipado e aprovado, antes mesmo do Congresso, a regulamentação para elevar os salários dos seus parlamentares, a partir da definição do gapa do “malandro federal”, como diz o samba de Chico Buarque. A mesma manobra vai beneficiar os vereadores. São 56.727 no Brasil, todos com direito a aumento de iguais 64%, ou R$ 20 mil, se o orçamento do município comportar o repasse às Câmaras. Sustentar toda essa gente custa bilhões de reais. Significa menos escolas, continuidade da precariedade sistêmica no atendimento à saúde, falta de saneamento básico

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A presidente da República eleita, os futuros ministros e o vice-presidente também foram aquinhoados com 149% de aumento. Parece justo que se considere “defasados” os ganhos de um presidente da República, pessoa com tamanhas responsabilidades, trabalho em período integral e com a obrigação de viajar o mundo. “E o Lulinha aqui, ó...” Lamentou Luiz Inácio. O coitado teve que aguentar as lambanças dos aloprados e os achaques da base aliada durante oito anos, ganhando míseros R$ 11 mil por mês. Por um lapso, o mais querido presidente da história esqueceu-se de computar os gastos com os cartões corporativos. Explico melhor: o presidente e seus auxiliares diretos têm verba de uma rubrica secreta do orçamento, que os autoriza a gastar sem ter que prestar contas. Cobre desde a compra de cuecas presidenciais e batom para dona Marisa, até picanha de boi japonês massageado em vida para a carne ficar molinha, caviar iraniano e o que mais der vontade de comer ou comprar. É só passar o “dinheiro de plástico” que a viúva paga. Nos oito anos de governo Lula gastou 350 milhões de reais com o cartão corporativo. Em 2010 chegou a R$ 71 milhões, ou seja, dez vezes mais do que no início do primeiro mandado. O crescente apetite de Lula no poder faria inveja a Pantagruel, o célebre personagem criado por Rabelais (1494-1433), que contou num clássico da literatura os seus “horríveis, espantosos feitos e proezas”.

E assim segue a glória da classe política, graças a uma interpretação heterodoxa da ética da conveniência, criada por Max Weber. A diferença é que “o pai da sociologia” admitia certo jogo perverso de bastidor, ações constrangedoras em política, mas em benefício do sujeito coletivo. Esta ética levava em consideração a responsabilidade dos governantes e fazedores de leis com os altos interesses do Estado-Nação. O que vemos no Brasil é uma ação deletéria da classe política em benefício do sujeito isolado em si mesmo. E a opinião pública que se lixe. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do Jornal da Cidade)

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