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Pesquisa ‘enxerga’ microcrosmo nas plantas

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

O projeto que gerou a pesquisa está em desenvolvimento há dois anos e é focado no Croton glandulosus L. e no papel das secreções glandulares na dinâmica das espécies de insetos visitantes e as implicações deles na forma e intensidade de predação das sementes.

O estudo teve início porque existe um besourinho bicudinho parente do caruncho do feijão que coloca os seus ovos no fruto do croton. A larva desse besouro vai se alimentar da semente. “Nós verificamos, há muitos anos, que haviam um ataque de uma forma muito particular feito por esse besourinho. Ele escolhia os frutos que apareciam em menor quantidade com menor número de sementes em detrimento dos frutos que tinham maior número de sementes e produzidos em maior quantidade”, diz Lúcia Paleari.

Para responder a essa questão, iniciou-se a pesquisa. “Surgiu o estudo para descobrir o que será que está forçando esse besouro a procurar e deixar sua prole numa quantidade menor de recurso com relação a maior quantidade. A partir daí surgiram as pesquisas e experimentos.”

O trabalho científico ainda não chegou ao fim, mas já é possível afirmar que o besourinho não mudou de hábito, mas que ele tem um padrão especial de ataque a planta. “Como a visitação desses insetos é maior na região onde é produzido o maior número de frutos, inclusive dos inimigos naturais, ele é forçado a procurar a região onde tem menor quantidade de recurso mas que está mais protegido de inimigos naturais, tem a ver com a sobrevivência da espécie.”

Outros dados preliminares sobre aspectos morfofisiológicos e comportamento das espécies envolvidas nessa interação, planta-predadores-parasitóides, segundo a professora, indicam a existência de um sistema complexo e sofisticado. “Exigem estudos interdisciplinares para que possa ser compreendido.” Somada às investigações científicas há uma vontade imensa das docentes em divulgar o conhecimento além dos círculos acadêmicos de pesquisadores. “É de fundamental importância que a população brasileira fique sabendo, em especial alunos do ensino fundamental, médio e superior, o que está sendo estudado.” O primeiro passo para a divulgação além muro acadêmico já foi dado. Em setembro deste ano, no museu de arte contemporânea de Botucatu foi realizado uma exposição das fotos coletadas durante a pesquisa. “Começamos com a exposição que era a primeira etapa: ‘Mundos sob lentes macro’. Por essas imagens pudemos conversar com visitantes e estudantes em geral.” Durante o evento havia visita monitorada por uma artista plástica da cidade que trabalhou o lado artístico, a textura, a forma. “Vários aspectos das imagens foram estudados. O movimento dos insetos, alguns conceitos que são próprias do estudo de ciências e biologia e questões relativas a arte.”

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Livro está a caminho

As pesquisadoras pretendem produzir alguns livros dessas interações dos insetos/plantas. “Insetos com outros parasitóides. Mostrando quem são os predadores, como interagem entre si. O livro é focado no leitor que gosta de ciências. A gente quer fazer alguma coisa com imagens com texto fácil de ser compreendido, mas adequado cientificamente. Queremos divulgar as imagens mais estouradas, mais artísticas também.”

Para obter boas fotos, as pesquisadoras tiveram que trabalhar com equipamentos potentes que permitiram revelar detalhes que jamais poderiam ser vistos ao olhar desnudo. “São maravilhas retratadas com lentes macro acopladas à máquina fotográfica e observadas e fotografadas ao microscópio eletrônico de varredura. Além, de Croton glandulosus, reunimos algumas outras espécies de plantas ruderais e insetos a elas associados.”

Um dos objetivos da pesquisa, informa Lúcia Paleari, é usar todos esses dados, não só os mais específicos do projeto com o besourinho, para produzir material infanto-juvenil. A relação entre planta/inseto, animal/planta tem algumas coisas comuns, seja na floresta Atlântica, na Amazônica e na ruberais. Vamos estudar como essas espécies interagem.”

Plantas injustiçadas

A vegetação ruderal não apresenta atrativos. Não tem valor ornamental e é vista como competidoras por nutrientes com espécies cultivadas. Há ainda quem acredite que elas são nocivas, por atrapalharem a colheita. Mas nem sempre é assim. Diversos estudos mostram que área de culturas deixadas com esse tipo de vegetação não tiveram uma produção de alimento reduzida, quando comparada com a produção de áreas semelhantes, mas sem as mesmas plantas.

Existem algumas espécies de plantas que podem competir e trazer problemas mas tem muitas delas que não, adverte a pesquisadora. “A saída é estudar maneiras de manejo integrado. Manter essas plantas na cultura para poder suprir de alimento esses inimigos naturais que vão ajudar a manter um balanço das populações que são consideradas pragas. É uma vegetação muito importante por esse tipo de coisa.”

Segundo as pesquisadoras, apenas algumas espécies de plantas ruderais merecem atenção. O Croton glandulosus, que é a planta estudada reúne uma entomofauna (fauna de insetos) minúscula e bastante diversificada.

“Quanto mais estudamos essa planta e os insetos que usam seu néctar, pólen e folhas, mais nós nos surpreendemos. São formas, cores, estruturas inimagináveis, relações intrigantes. Em épocas de secas, muitas delas florescem e servem de recurso alimentar a espécies como as abelhinhas Jataí da família Melioninae. O mel dessa abelha é exportado para o Japão.”

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