Política

Eleição deixa resquícios na Câmara

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 5 min

A turbulência gerada na eleição da Mesa Diretora da Câmara, vencida por Roberval Sakai (PP), na última quarta-feira, ainda não passou de todo. Na sessão extraordinária realizada ontem, alguns discursos pregavam a continuidade do trabalho, outros traziam indiretas sobre a votação do último dia 15 e ainda houve aqueles que foram bastante diretos. Ao final, a reunião convocada para a votação de 18 projetos apreciou apenas metade deles: os que traziam convênios com as entidades e aqueles que estipulavam doação de áreas para empresas. Os nove restantes foram retirados da pauta e ficaram para o ano que vem. A Câmara está em recesso e os vereadores só retomam as sessões ordinárias na primeira segunda-feira de fevereiro. Até lá, a Casa atende em meio expediente, no período da manhã.

Três vereadores não compareceram à sessão de ontem. Amarildo de Oliveira (PPS), José Roberto Segalla (DEM) e o atual presidente, Pastor Luiz Barbosa (PTB), que justificou a ausência por conta de uma viagem.

Renato Purini (PMDB), candidato derrotado na eleição, voltou a criticar a postura de Sakai na última quarta-feira.

“Estamos aqui pela vontade do povo. Pelo compromisso que assumimos com o povo. Compromisso assumido, tem que ser cumprido. Isso é o que aprendi na minha vida”, pontuou. Ele justificou que no dia da sessão deixou o plenário no momento em que Sakai discursava: “Para demonstrar a insatisfação com algumas coisas que aconteceram na sessão, que todos aqui sabem exatamente o que aconteceu”, afirmou.

Renato também criticou o presidente eleito para o biênio 2011/2012 por uma entrevista dada na manhã de ontem na rádio 96 FM. Segundo o líder do prefeito na Casa, Sakai disse em entrevista que não tinha fechado acordo com ele na véspera da eleição. "Não sou mentiroso", reagiu. “Na terça-feira houve conversa sim”, garantiu. Renato também pregou a harmonia dentro do Legislativo. “Já estive em Câmara com problemas de relacionamento e não foi bom para a cidade”, recordou. “Desejo que a nova Mesa tenha sucesso e que nos próximos dois anos façamos o que foi desenvolvido nos anteriores”, finalizou.

Sakai discursou exatamente depois de Purini. Ele agradeceu o apoio que teve para a eleição, mas rebateu as informações do líder do prefeito. “Estão achando que o pastor Sakai não tem palavra e terá dificuldade para dar andamento nessa Casa”, disse. “Durante nossa conversa perguntei a ele se estava tudo certo, e ele afirmou que estava. Inclusive com o Pastor Luiz e ao Natalino. Mas na quarta-feira, quando cheguei à Câmara, vi que não estava tudo certo”, destacou. “Eu honrei com a minha palavra. Quem não honrou foram algumas pessoas, que tentaram viabilizar uma vice-presidência que já estava prometida à minha pessoa. Agora, vereador Sakai é homem de palavra sim. Mas vereador Sakai não é bobo de ninguém”, afirmou.

Antes de iniciar seu discurso, Roque Ferreira (PT) concedeu aparte a Purini, Carlão do Gás (PR), Fabiano Mariano (PDT) e Paulo Eduardo de Souza (PSB), que fizeram questão de informar quantas vezes testemunharam Sakai dar a sua palavra e garantir apoio a Purini. Marcelo Borges (PSDB) aproveitou os apartes para se manifestar. “Na eleição anterior foi a mesma coisa, só que do nosso lado. O Pastor Luiz ia votar na Chiara Ranieri (DEM) e foram buscá-lo para dar a presidência a ele. E eu parabenizei o pastor quando ele foi eleito. Quando o Pastor Luiz foi convidado, foi normal. Agora, se é do outro lado, vira um drama”, criticou. Quando finalmente pôde usar a tribuna, Roque afirmou que não se poderia separar a forma do conteúdo. “Se não, criamos frankensteins. E sabemos o fim que levam os frankensteins”, observou.

Discursos

O primeiro vereador a usar a tribuna foi Carlão do Gás. Um dos vereadores mais ativos nas negociações da eleição da presidência, citou Rui Barbosa e seu discurso no Senado em 1914 - “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto” - e citou até a música “O homem”, de Roberto Carlos.

Por sua vez, Marcelo Borges defendeu a escolha da Casa e ainda criticou a postura de vereadores do bloco de situação na sessão especial de eleição, que saíram do Plenário quando Sakai foi discursar. “Ganhar a eleição faz parte. Perder também. E a democracia é feita com respeito. Na primeira eleição, perdemos com a Chiara, mas ficamos aqui até o final dos discursos. Votamos os outros cargos. Ficamos aqui para ouvir o presidente eleito”, ressaltou.

Moisés Rossi (PPS) pregou a conciliação e a continuidade do trabalho desenvolvido. “Na quarta-feira, tivemos uma discussão difícil, mas que acabou na quarta-feira. Não há motivo para os ânimos continuarem exaltados”, afirmou. “Eu, a Chiara, o Natalino também perdemos a eleição. Houve discursos inflamados, que não concordo, mas passou. Temos que continuar trabalhando por Bauru”, defendeu.

Em seu discurso, Natalino Davi da Silva (PV) também pregou a ética na Câmara. “Até o último instante, vou fazer uma política diferenciada. Tem gente que não é político, mas faz política de qualidade. Mas quem está eleito tem que fazer política de qualidade e com ética. Jamais vou querer o poder pelo poder”, afirmou.

Paulo Eduardo de Souza (PSB) ressaltou que Sakai representa a soma das virtudes e defeitos de todos os vereadores da Casa. “O senhor é a síntese da política praticada nesta casa”, disse. Paulo Eduardo também rebateu Marcelo Borges. O tucano afirmou que a Casa servia como cartório ao prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), aprovando seus projetos sem dificuldades. Para o médico, muitas propostas do Executivo foram discutidas e algumas rejeitadas pelo Legislativo. O vereador também criticou a imprensa, que segundo ele tratou os parlamentares como “marionetes” de uma discussão já decidida. “Me recuso a aceitar a pecha de fantoche. Meu compromisso é o de superar a miséria, resgatar a saúde”, pontuou.

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