Tribuna do Leitor

DAS BRUMAS DO PASSADO


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No início do anos 60, o dr. Almir Pinto do Amaral (médico do Centro de Saúde de Bauru) teve sua vida permeada por um grande choque emomocional. A esposa, a quem ele muito amava, foi acometida de um violento câncer. O estado de saúde dela foi se agravando. Tentando salvá-la, ele seguiu junto com ela, dentro de uma ambulância da Delegacia de Saúde de Bauru, rumo a um hospital da Capital. Mas ela não resistiu e faleceu no meio do caminho, na via Marechal Rondon.

Ele era um homem introvertido, de pouca conversa, um intelectual, um bibliófilo. No entanto, sempre muito cortês no falar. Gostava de trajar, estivesse o tempo frio ou quente, um jaquetão (paletó trespassado na frente, com 6 botões). Acompanhado de uma gravata e camisa social branca, com mangas compridas. O Centro de Saúde de Bauru era hierarquicamente subordinado à Delegacia de Saúde de Bauru, que comandava vários Centros de Saúde de cidades vizinhas a Bauru.

Eu ocupava cargo efetivo na Delegacia de Saúde de Bauru. Era o encarregado do Setor de Transportes (veículos oficiais estaduais).

Sempre que o dr. Wilson Pedro Speridião (médico e delegado de Saúde) era obrigado, por dever de ofício, a se ausentar da repartição por um dia completo, um médico do Centro de Saúde de Bauru era designado por ele para responder naquele dia pelo expediente da Delegacia, assinando papéis e tomando decisões para o bom andamento da repartição. O dr. Almir fazia isto eventualmente.

Em 1967, um fato marcante ocorreu entre mim e o dr.Almir, que era o delegado de Saúde “ad hoc” naquele dia. Recebera eu uma máquina de escrever marca “Olivetti”, novinha em folha, para meu uso na repartição. Ela foi, no entanto, furtada por um ladrão noturno. Após diligências cabíveis, um investigador da polícia local comunicou-me que a máquina havia sido vendida pelo ladrão para um dono de cartório no Paraná, por um preço irrisório (crime de receptação).

Falei com o dr. Almir, que naquele dia era o eventual delegado, que gostaria de reaver pessoalmente a máquina, pois se tratava de um material permanente de propriedade do governo estadual. Ele autorizou-me e, munido de um ofício de apresentação assinado por ele, dirigido à autoridade policial competente no Paraná, fui buscar a máquina de escrever. Ela estava lá, sendo usada no cartório.

Estas recordações vieram à minha mente porque no dia 8/dez/2010 o dr. Almir Pinto do Amaral, filho do conceituado médico bauruense Odilon Pinto do Amaral, deixou este mundo, aos 83 anos de idade. “Requiescat in pace!”

Gilberto Sidney Vieira

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