Regional

Abelhas contaminadas por agrotóxico

Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 4 min

Iacanga –O resultado do exame realizado por laboratório particular de Piracicaba em abelhas mortas e pedaços de galhos, flores e folhas da plantação de laranja de uma propriedade rural de Iacanga (50 quilômetros de Bauru), suspeitos de estarem contaminados com agrotóxico conhecido como Regent, comprovou a presença do produto nas amostras. Para o advogado Alexandre Abdala, que defende três apicultores da região, não restam dúvidas de que a morte de abelhas em cerca de 250 colmeias tenha sido causada pelo uso indiscriminado do veneno na propriedade vizinha. Agora, os produtores pedem indenização pelos prejuízos.

Segundo o advogado, o laudo divulgado pelo laboratório apontou a presença do agrotóxico em abelhas encontradas mortas próximas às colmeias e em amostras da plantação de laranja de uma fazenda onde um dos funcionários teria confirmado o uso do Fipronil, conhecido como Regent, na florada da fruta.

A coleta dos materiais na propriedade suspeita foi feita por uma engenheira agrônoma da Casa da Agricultura de Iacanga no dia 18 de agosto, após autorização concedida pela Justiça de Ibitinga em ação cautelar ajuizada por Abdala. As amostras foram primeiramente encaminhadas para o laboratório da Unesp de Botucatu.

“Eles (técnicos da Unesp) tinham que encomendar um princípio ativo importado, ia demorar muito, e alegaram que não tinham condições de fazer”, diz. Com nova autorização da Justiça, as amostras coletadas foram enviadas a um laboratório de Piracicaba especializado em análises de resíduos de agrotóxicos, que identificou a presença do Regent.

O laudo já está nas mãos do delegado de Iacanga responsável por apurar a ocorrência de suposto crime ambiental. Agora, o advogado vai ingressar com pedido de indenização na Justiça pedindo ressarcimento pelas perdas e danos materiais que os apicultores tiveram.

“Houve o dano, morreram as abelhas, o mel foi todo perdido”, afirma. “A gente está apurando agora para ver a quantidade de mel que se perdeu”.

De acordo com Abdala, até o momento, foram contabilizadas as mortes de, pelo menos, 8 milhões de abelhas. Ele revela que, durante três anos, a extensão de aproximadamente oito quilômetros ao redor da propriedade contaminada deverá ser isolada para evitar novas contaminações.

“A abelha pode ter levado esse veneno para uma colmeia silvestre. E o veneno fica alojado na colmeia. Se ele (produtor) colocar no local uma outra colmeia hoje, mesmo não contaminada, essa abelha pode ir na colmeia silvestre, pegar esse veneno, trazer para a colmeia e matar de novo (as abelhas)”, ressalta.

Entenda o caso

Em agosto, o presidente da Associação Bauruense de Apicultores Meliponicultores e Ambientalistas (Abama), Guilherme Carlos de Oliveira Telles Nunes, procurou o Jornal da Cidade para denunciar as mortes de milhares de abelhas na região de Iacanga, que resultaram em prejuízos de cerca de R$ 50 mil. A suspeita era de que elas tivessem morrido em decorrência de contaminação por Fipronil, agrotóxico de uso controlado conhecido como Regent.

De acordo com Nunes, as denúncias partiram de cinco apicultores que, desde o dia 10 de agosto, identificaram a morte dos enxames. Após investigação conjunta, eles descobriram que uma plantação de laranja da cidade estava sendo pulverizada e obtiveram a confissão de um funcionário de que o produto utilizado tratava-se do Fipronil (Regent).

O produto, utilizado no controle de formigas, cupins, pulgas e baratas, só é autorizado para controle de pragas e tratamento de sementes em plantações de algodão, arroz, cevada, feijão, soja, trigo, cana-de-açúcar, batata e pastagens. De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a aplicação do Regent em citrus é considerada desvio de uso por parte do produtor e pode se configurar em crime ambiental.

O caso foi denunciado na delegacia de polícia de Iacanga, Polícia Ambiental e Casa da Agricultura do município. No dia 17, os produtores contrataram o advogado, que levou o caso à Promotoria de Justiça de Ibitinga. Munido de boletins de ocorrência, fotos e depoimentos, ele ingressou com pedido de ação cautelar na Justiça e conseguiu autorização para que fossem colhidas as amostras na fazenda, que foram submetidas às análises em laboratório junto com as abelhas mortas.

Procurado pelo Jornal da Cidade, o engenheiro agrônomo do órgão, Marcelo Agostini Zonta, informou que vai aguardar a comunicação oficial sobre o resultado do laudo para adotar as providências cabíveis em relação ao caso.

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