Política

Mapeamento detalha vida na zona rural

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 6 min

Um estudo que demorou cerca de uma ano entre levantamento de dados, análises e pesquisas de campo, detalha a fauna, flora, solo e recursos hídricos de mais da metade do território bauruense. O diagnóstico da Área de Preservação Ambiental (APA) do Ribeirão Água Parada, realizado pela empresa paranaense Ecossistema Consultoria Ambiental, será entregue no início de 2011 para a Prefeitura de Bauru, mas já traz inúmeras informações sobre a área que cobre dois terços da zona rural da cidade. De acordo com o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), a análise também mostra o empobrecimento do solo mas, de outro lado, também confirma potencial hídrico para abastecimento da cidade com água de superfície.

O estudo foi feito com recursos vindos de contrapartida cobrada pela União da instalação de linhas de transmissão de energia elétrica na área de proteção que passa em Bauru. As pesquisas de campo foram realizadas em 2009 e ao longo deste ano.

A área total da APA, de 348 quilômetros quadrados, foi dividida em 10 setores de amostragem que cobrem propriedades particulares para as pequisas de campo. “É um estudo muito detalhado, que nos dará a oportunidade de conhecer melhor a nossa área rural, a localização das estradas, as produções agropecuárias, além de aspectos da fauna e da flora”, destaca o prefeito.

De acordo com Rodrigo, outro ponto importante do estudo foi o levantamento dos recursos hídricos da APA Água Parada, que também é alvo de outro estudo encomendado pelo Departamento de Água e Esgoto para verificar a possibilidade da bacia também passar a abastecer Bauru. “Com o estudo já apresentado, deu para perceber o potencial de abastecimento para o futuro. É possível verificar reservas de água para 100, 200 anos”, adianta o prefeito. Porém, o manancial precisa ser preservado, o que exige intervenção rápida do Poder Público.

O chefe do Executivo destaca que o diagnóstico levantou a vida animal e vegetal da área. “Eu já tinha participado de outros estudos sobre a APA Água Parada, mas esse chegou a um detalhamento muito grande. Foram listados alguns animais que não tinham registro na cidade, como roedores, morcegos, répteis. Além de várias espécies da flora. Esse estudo também poderá servir de base para pesquisas de universidades, que poderão ampliar o que já foi levantado”, aponta.

Pobreza do solo

Além da diversidade de vida e potencial de abastecimento, o estudo apontou um problema que a cidade já conhece e que terá de lidar: a pobreza do solo. “Ficou evidente a depauperação do solo da área. Principalmente pelo uso intensivo da área, que está bastante desgastada”, observa. “Teremos um bom potencial de abastecimento, por outro lado, teremos que recuperar esse solo”, pontua.

Para Valcirlei Gonçalves da Silva, titular da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), um dos dados mais importantes do levantamento é o das nascentes que fazem parte da bacia do Água Parada. “Com as identificações dessas nascentes, poderemos criar programas de orientação e preservação dessas fontes. O objetivo é buscar a preservação sem o estigma de fiscalização, para que todos possam usufruir disso”, destaca.

Valcirlei e Rodrigo adiantam que as duas outras áreas de preservação ambiental de Bauru, a do Campo Limpo e a parte municipal do rio Batalha, também serão objetos de levantamentos semelhantes. “Já temos a experiência para licitar a empresa e o grau de exigência que vamos pedir. Acredito que será mais fácil contratar as próximas empresas”, observa o secretário.

Com base nos dados, Valcirlei avalia que será possível traçar planos de atuação e projetos para a área rural. “O estudo também nos dará um plano de ação, alternativas e prioridades a serem seguidas. Será uma espécie de plano diretor para a zona rural, de como vamos manejar essa área”, destaca.

____________________

Estudo aponta cinco novos registros de mamíferos

Para pesquisar quais animais habitam ou transitam a Área de Preservação Ambiental (APA) Água Parada, os pesquisadores recorreram a armadilhas e dispositivos para registrar as pegadas dos bichos, além de entrevistas com os proprietários rurais.

O inventário verificou cinco novos registros para o município, entre as quais três roedores e dois marsupiais, aumentando a riqueza de pequenos mamíferos de 15 para 20 espécies. Foram encontradas quatro espécies ameaçadas de extinção: a cuiquinha, catita e o rato do mato.

Foi possível identificar na área, que é cerca de metade do território bauruense e dois terços da zona rural, 23 espécies de mamíferos. A ordem carnívora é a que apresenta mais espécies, nove no total. Nela, foram encontrados registros de quatis, cachorros do mato, raposas, lontras, jaguatiricas e onças pardas. Entre os roedores, foram verificados cinco espécies, como ouriços, cutias, capivaras, pacas e as invasoras ratão do banhado e lebre europeia. Entre as espécies encontradas, 11 estão ameaçadas de extinção em algum grau.

Entre os pequenos mamíferos foram identificadas três ordens, de três famílias, 10 gêneros e 11 espécies, sendo um tatu, cinco marsupiais e cinco roedores cricetídeos, representando 35,7% das espécies com ocorrência para a região de Bauru.

Outro ponto destacado pelo prefeito, foi a classificação dos morcegos existentes em Bauru. De acordo com o estudo, foram identificadas 10 espécies pertencentes, de três famílias diferentes. Mas nenhuma dessas se encontram em listas de espécies ameaçadas.

As aves correspondem a maior diversidade encontrada na APA. Foram verificadas a presença de 264 espécies, distribuídas em 55 famílias. Pelo levantamento, a quantidade de espécies relacionadas na área de proteção corresponde a aproximadamente 34% da fauna de aves do Estado. No local foram verificadas 11 espécies de aves ameaçadas de extinção, como o gavião do banhado, juriti roxa, papagaio verdadeiro e araponga.

Entre os répteis, os pesquisadores encontraram vestígios e exemplares de 20 espécies, de jacarés do papo-amarelo a jabutis e serpentes. Entre as sete espécies de serpentes verificadas, foi constatada uma rara, a cobra-cipó. Também foram classificadas 50 espécies de peixes e outras 22 espécies e anuros (anfíbios).

____________________

Erosão e condições do solo põem agricultura em alerta

A análise realizada pela Ecossistema Consultoria Ambiental sobre o solo da Área de Preservação Ambiental (APA) Água Parada apontou terreno excessivamente arenoso, bastante erosivo; sujeito à arenização e à formação de voçorocas. Além disso, apresenta fertilidade natural muito baixa, excessivamente permeável e baixa capacidade hídrica. Ou seja, perde água rápido assim que passam as chuvas e possui dificuldade em reter e fixar nutrientes e de assimilar matéria orgânica.

No âmbito dos aspectos ambientais, a APA Água Parada apresenta terrenos suscetíveis à erosão, devido à constituição dos sedimentos, que assoreiam os cursos de água da região. Além disso, estas voçorocas tiveram seus processos intensificados pelas obras inadequadas de drenagem das estradas da região, conforme aponta o estudo.

Segundo o levantamento, a grave situação das voçorocas diagnosticadas colocam o problema como a principal vulnerabilidade da área. De acordo com o estudo, essa recuperação deverá ser feita em conjunto com proprietários rurais. Na APA da Água Parada, as principais áreas são destinadas a pastagens e bovinocultura, cultivo de milho, laranja, cana-de-açúcar, abacate, café e cultura de eucalipto.

Mas, conforme mostra o levantamento, boa parte do que é produzido em Bauru é processado fora da cidade, deixando de gerar riquezas com o valor agregado para o município. O gado de corte vem sendo transferido, abatido e industrializado fora de Bauru. A produção de leite, centrada na bacia leiteira de Tibiriçá, é encaminhada para industrialização em Boraceia e Lins, isso por não existir unidade de processamento de leite em Bauru.

A cultura da cana-de-açúcar é processada em usinas de Macatuba e Presidente Alves. Já as plantações de eucaliptos, para a produção de celulose e aglomerados, também destinam-se às unidades em outros municípios. Apenas a produção de hortifrutigranjeiros é comercializada nas feiras locais.

Comentários

Comentários