Alvo de constante reclamação entre os bauruenses, o fluxo de veículos cada vez mais lento dentro da cidade está transformando os índices de violência no trânsito. Enquanto a quantidade de acidentes sem gravidade aumentou neste ano, o número de vítimas fatais sofreu uma sensível queda, de cerca de 28%, em comparação a 2009.
Até anteontem, 23 pessoas haviam morrido no trânsito bauruense - o menor registro dos últimos três anos, ante as 32 que foram vitimadas em todo o ano passado. O número de acidentes, entretanto, subiu de 7.489 para 7.934, crescimento que foi impulsionado essencialmente pelo aumento da quantidade de ocorrências sem vítimas, que saltou de 5.129 para 5.812.
O fenômeno é explicado pelo aumento da frota que, se por um lado intensificou a disputa por cada metro quadrado de asfalto, por outro reduziu a velocidade média desenvolvida pelos carros, devido ao trânsito cada vez mais carregado.
“A cidade não conta com um sistema viário com muita fluidez. As ruas, mesmo na região central, são estreitas e as avenidas de fluxo rápido são poucas. E, com o aumento do número de veículos, as batidas leves aumentam, mas a probabilidade de alguém morrer diminui, justamente porque ninguém consegue andar rápido com o carro”, analisa o professor Archimedes Azevedo Raia Junior, coordenador do Núcleo de Estudos Sobre Trânsito da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Segundo o especialista, esta é uma tendência que já se verifica em grandes centros urbanos que também não encontram soluções viárias definitivas para dar vazão a uma frota que não para de crescer. “São Paulo também já está vivendo esta mudança, porque está com o trânsito saturado. Em comparação com Bauru, a cidade de Araraquara tem muito mais vias expressas, mas terá cerca de 35 mortes neste ano”, observa.
Raia Junior acrescenta, porém, que algumas medidas que vêm sendo adotadas pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) poderão colaborar para a redução dos índices de acidentes.
“Algumas alterações, como a implantação de mão única em algumas ruas que cruzam a Nações Unidas e a proibição de conversão à esquerda e retorno tanto nesta via como na avenida Getúlio Vargas, ajudam a evitar essas pequenas colisões e até atropelamentos”, destaca.
Pedestres
Os pedestres, inclusive, junto com os motociclistas, são as principais vítimas fatais do trânsito bauruense. Das 23 mortes registradas neste ano, 10 foram por atropelamento e outras 10 eram de condutores de motos.
“Quando a vítima é pedestre, em 90% dos casos trata-se de um idoso. Ele já tem uma mobilidade e um nível de atenção mais limitados e o condutor que não tem prudência e cuidado acaba atropelando mesmo”, avalia o comandante do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar (PM) de Bauru, tenente Roberto Trujillo Júnior.
Nesse sentido, conforme explica o especialista em trânsito Marcos Serra Negra Camerini, quanto menor a velocidade desenvolvida por um veículo, maiores as chances do motorista evitar acidente grave. “Um veículo que trafega a uma velocidade de 50 quilômetros por hora percorre, em média, seis metros até frear totalmente. Se estiver circulando a 80 quilômetros por hora, seguirá por uma distância de 20 metros até conseguir parar. Esta pode ser a diferença entre a vida e a morte de uma pessoa”, salienta.
De um modo geral, o número de mortos em acidentes na zona urbana de Bauru foi o menor dos últimos três anos, conforme estatísticas do Policiamento de Trânsito. Em 2006, 26 pessoas perderam a vida nas ruas da cidade. No ano seguinte, foram registradas 22 vítimas fatais. O número voltou a crescer em 2008, com 25 mortos e 2009 registrou nova alta, com 32 vítimas letais.
Além do trânsito que se torna cada dia mais lento, o motivo para a redução do número de mortes, segundo a polícia, é a intensificação da fiscalizações a veículos e motoristas.
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Tendência revertida
De janeiro até anteontem, 23 pessoas haviam perdido a vida por conta de acidentes dentro da área urbana de Bauru. Em contrapartida, a crescente onda de violência na cidade já soma 46 assassinatos no ano, segundo levantamento feito pelo JC.
Com isso, a tendência apresentada nos últimos anos, de que as ocorrências de trânsito superam os homicídios como a principal causa de morte não natural na cidade, foi revertida em 2010. No ano passado, 32 pessoas morreram em decorrência de acidentes na zona urbana e 28 foram vítimas de homicídios.
“É a primeira vez que esta inversão ocorre dentro das estatísticas recentes da cidade. Neste ano, Bauru teve um aumento considerável no número de homicídios, mas mesmo que tivesse ficado no patamar de anos passados, a quantidade de vítimas de acidentes teria sido menor em 2010”, observa o comandante do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar (PM) de Bauru, tenente Roberto Trujillo Júnior.
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72 dias sem mortes
Em uma marca inédita desde que Bauru atingiu o nível de desenvolvimento de uma cidade de médio porte, o trânsito do município ficou sem registrar nenhuma morte por 72 dias neste ano, entre 10 de maio e 23 de julho. O índice é o mesmo de localidades com cerca de 30 mil habitantes e não tinha precedentes na história recente do município.
De acordo com o comandante do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar (PM) de Bauru, tenente Roberto Trujillo Júnior, nunca as operações da PM foram tão intensas e a queda de 28% nos índices de morte em 2010 é fruto direto deste trabalho.
“A imprudência do motorista e a falta de conscientização quanto às normas de trânsito ainda são os principais fatores para que os as mortes continuem ocorrendo. E as fiscalizações são importantes para coibir estas irregularidades. Por isso, nosso trabalho vai continuar, mas vale destacar que o objetivo não é multar os motoristas. A autuação é apenas um consequência das infrações que eles cometem”, pontua.
Segundo Trujillo, as fiscalizações através de bloqueios costumam flagrar um grande número de motoristas sem habilitação, com os documentos vencidos ou falando ao celular enquanto dirigem. “São típicas negligências do condutor que provoca esses acidentes. O motorista que não passou pelo curso de direção defensiva para ser habilitado, não tem perícia suficiente para agir quando se depara com uma pessoa idosa atravessando a rua”, exemplifica.