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Balanço final

Mariza Bianconcini Teixeira Mendes
| Tempo de leitura: 3 min

Balanço final é o título do último livro de Simone de Beauvoir, em que ela analisa sua experiência como mulher, ao lado do companheiro Sartre, e como filósofa feminista que mudou a visão de mundo das mulheres do Ocidente. Neste final do ano de 2010 e início de 2011, as mulheres brasileiras também devem fazer um "balanço final" dos oito anos do governo Lula, com suas típicas mudanças no modo de encarar os preconceitos sociais e de gênero, que antes não permitiam aos pobres sair de sua condição e às mulheres ter a coragem de disputar o cargo de presidente do país.

Finalmente elegemos a nossa primeira mulher presidente, como já haviam feito o Chile e a Argentina e outros países europeus, que colocaram mulheres no cargo de primeira ministra. Evidentemente isso é um bom começo, mas ainda nem foram preenchidas as cotas partidárias de candidatas femininas nas últimas eleições, embora já tenhamos conhecido a experiência de mulheres prefeitas e governadoras. Não basta eleger uma mulher para um cargo executivo num país machista, pois ela poderia pôr em prática o autoritarismo patriarcalista de que se impregnou nos anos de sua educação primária, secundária e superior. A menos que sua trajetória de vida a tenha tornado imune a essa praga social, como pode ser o caso de nossa presidenta.

O mais importante, neste momento de euforia, é analisar as várias mudanças do ambiente político em nosso país, nos últimos oito anos. A primeira eleição, em 2002, de um brasileiro saído dos movimentos operários em busca de um sindicalismo de fato e de direito, contra toda a grande mídia e os partidos da elite, foi o primeiro espanto, a primeira solução de continuidade em nossa história política. Sua reeleição em 2006, depois de quatro anos de anti-Lulas de todos os tipos tentando denegri-lo e derrubá-lo do poder, já não foi mais um espanto, pois tínhamos compreendido os seus planos e o seu estilo de governar um país continental, tão dividido pelas injustiças e pelas desigualdades sociais e, sobretudo, pelos preconceitos. Os quatro primeiros anos serviram para mostrar ao país que é possível mudar as prioridades das políticas sociais, mas não conseguiram desfazer os preconceitos de uma elite que não quer ver os mais pobres subindo os patamares que os levam da classe E para a D e da classe D para a C ou B. Os defensores da discriminação social, apegados ao ditado "cada macaco no seu galho", se sentiram incomodados e até mesmo ofendidos, ao verem seus privilégios estendidos a um número cada vez maior de brasileiros. Em nossa cidade, mesmo com o JC publicando em destaque de 1.ª página os milhares de empregos oferecidos, os anti-Lula continuaram a escrever na Tribuna do Leitor que o país está um caos e que a corrupção só aumenta. Essas pessoas se esqueceram dos muitos políticos corruptos nos quais votaram em eleições anteriores e dos empresários que os financiaram. Mas, incoerentemente, nunca em tempo algum, se deram ao trabalho de denunciar suas falcatruas.

Nesta eleição de 2010, a manipulação e a torpeza dos adversários de Lula nos discursos da campanha chegaram ao auge do desespero, tentando desclassificar a mulher que ele teve a coragem de oferecer aos eleitores como candidata à sua sucessão. Mas no final o bom senso predominou, mesmo que os "manipulados" não chegassem a saber que Dilma Rousseff vem de uma família da elite mineira, tendo estudado nos melhores colégios católicos ou públicos de Belo Horizonte. Uma história muito parecida com a de muitas brasileiras da minha geração. Mas Dilma não precisou, em seus discursos, esclarecer essa questão, nem o fato de ter arriscado a vida na luta contra a ditadura militar, em defesa da democracia que temos hoje, na qual a grande maioria dos eleitores lhe confere o mais alto cargo de poder em nosso país. Que todos os bons fluidos a ajudem em sua missão!


A autora, Mariza Bianconcini Teixeira Mendes, é doutora em análise semiótica do discurso pela Unesp

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