Ser

Minha história: Uma dor eterna


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Amigo não há dinheiro que pague! Se dos bons, vale ouro. No primeiro ano do grupo escolar, lá por volta de 1941, encontrei um desses: o André. Mesma cabeça, os dois. Pobre, os dois. E tímidos, os dois. Mas leais: companheiros do 1.º ao 4.º ano, e após.

Eu morava na quadra 12 da rua Monsenhor Claro (que era na época a estrada de Agudos). Um velho casarão de madeira escorada com vigotas para não cair. Na volta das aulas, às vezes, ele parava em casa. Não comia. Tinha vergonha. Só tomava café. Eu, também, às vezes, ia com ele até sua casa. Morava na Vila Serrão. Casa rústica, levantada com tijolos de metro, feitos de barro massapé cinzento, cinzas e certo capim. Tudo serviço de seu pai. Era a única casa daquele local.

"Seo" Antonio era grandão, ossudor, um velhão forte, arredio com "visitas", mas um bom homem. Sua mãe, dona Maria, era miudinha, ligeira, agradável, muitíssimo legal. Nos chamava para tomar café (feito com vinagre, água e rapadura) e pão-de-forno, quando tinha.

Depois que saímos do Grupo, e quatro ou cinco anos após, nossos caminhos, como é natural, tomaram diferentes rumos. Eu virei ferroviário na Estrada Noroeste e o André virou militar, da Polícia Montada. Os anos corriam. Numa certa ocasião em que os cavalarianos tinham ordem de "botar pra correr" casais que namoravam em locais escuros e perigosos, o André (acompanhado) me livrou a cara quando eu namorava na portaria do antigo campo do Noroeste na Quintino Bocaiúva, lugar de risco. Foi legal e delicadamente aconselhou-me sobre o assunto, "como amigo".

Muitos e muitos anos depois disso, ao sair do DAE na rua Padre João, descendo-a, vejo vir em minha direção um casal de velhinhos. Alguns segundos de reflexão, acabei reconhecendo os pais do André. "Seo" Antonio, absorto, cruzou comigo sem me reconhecer, e seguiu, devagar, trôpego. Dona Maria, a uns três metros, viu-me e encarou-me. Parou. Fitou-me de cima a baixo, olhou-me nos olhos fixamente, ergueu o dedo indicador direito, trêmulo, apontando-o para o meu peito. Chegando mais perto, perguntou, numa voz quase sumida: "Adalto? É? ? "Sou, dona Maria. Como vai a senhora?" Ela lentamente ergueu os braços, pegando meus ombros. Lágrimas jorraram de seus olhos. Abaixou a cabeça e encostou o rosto em meu peito, dizendo: "Oh, André..." e soluçava. Eu a aconcheguei delicadamente e beijei seus cabelos branquinhos no alto de sua cabeça. Alguns segundos após, ela deu um passo para trás, vagarosamente, chorosa, e eu perguntei do filho. Ela, tentando recompor-se, disse que o André tinha sido transferido para Mato Grosso, indo servir no Forte Coimbra, no Rio Paraguai. E que, certa noite, de barco, não sabia se a serviço ou pescando, ele caiu no rio e nunca mais foi encontrado.

Disse que sempre me achou parecido com seu filho, tanto "de corpo", modo de andar e de agir. E a grande amizade que a gente tinha um pelo outro criou um afeto tão profundo por mim que, quando me viu, parecia ter visto o próprio filho. Disse-lhe doces palavras afetivas e de alento. E, quando saiu, com a cabeça arcada, tristonha, ainda vi, pesaroso, que, com seu pequeno lenço branco de pano fino, enxugava as lágrimas que teimavam em correr pela sua face sofrida e sulcada pelo tempo...

Adalto D. G. Prado

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