Mulheres de várias regiões brasileiras tiveram suas vidas transformadas por meio do artesanato. Inclusão social, autoestima, reforço financeiro e a gratificação de ver a projeção do fruto do trabalho até no Exterior são alguns dos benefícios comemorados em comunidades de norte a sul do País.
Com o apoio do Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) de suas localidades, as artesãs recebem toda a orientação necessária para competir no mercado, participam de feiras e multiplicam a rede de contatos até ganharem autoconfiança e seguirem com seus próprios passos. Porém, muitas desistem no meio do caminho, já que o retorno financeiro não vem no curto prazo.
Uma história feliz é a de um grupo de ex-quebradeiras de coco babaçu de Tocantins. A palmeira típica das regiões Norte e Nordeste é usada no artesanato, em construções, na alimentação e na produção de combustível, sabão e cosméticos.
Coletar e quebrar os frutos das palmeiras é o que dá o sustento a famílias da região há séculos, como conta Maria Sampaio, representante da ABA (Associação Babaçu da Amazônia), entidade que integra o Projeto Artenorte (Artesanato da Amazônia Legal Tocantinense), apoiado pelo Sebrae Tocantins. "Comecei a quebrar coco aos 11 anos, e só parei aos 20." Há dois anos, Maria e outras 16 mulheres trocaram o campo pelo artesanato.
"O artesanato melhorou nossa qualidade de vida e nossas peças estão em desfiles de moda, feiras e chegou até a Paris!" O grupo de artesãs foi capacitado pela designer gaúcha Heloisa Crocco, para a criação de biojoias, suplás, cestos, fruteiras, luminárias e outros artefatos produzidos por meio da técnica do coco fatiado.
Segundo Magvan Botelho, gestora do Projeto Artenorte, do Sebrae/Tocantins, em Araguaína, a iniciativa visa à consolidação do artesanato do babaçu como a principal fonte de renda das artesãs e quebradeiras de coco da região do Bico do Papagaio e beneficia diretamente 80 famílias dos municípios de Araguatins, Tocantinópolis, São Bento, Luzinópolis, Nazaré e Aguiarnópolis.
Café com arte
Em São Paulo, uma das cidades produtoras de café é Mococa, a 260 km da capital. No distrito de Igaraí, os trabalhos, em sua maioria, são executados por homens. Poucas são as mulheres que se aventuram nos cafezais e, mesmo assim, o trabalho de boia-fria ou de "panha de café", como se diz na região, dura apenas quatro meses ao ano. Depois, elas ficam sem fonte de renda.
Foi a partir dessa observação que a administradora da Fazenda Ambiental Fortaleza, Claudia Davis, e a proprietária, Maria Silvia Barreto, decidiram contribuir para a geração de emprego e renda entre as mulheres. Em 2006, o Sebrae/SP aprovou um projeto com esses fins, possibilitando a contratação do designer têxtil Renato Imbroisi, que já capacitou artesãos de várias comunidades.
De acordo com Claudia, hoje integram a Associação de Artesanato Café Igaraí 14 artesãs fixas e 9 terceirizadas. Vendido cada trabalho, a artesã recebe o equivalente à mão de obra empregada para a sua confecção. O lucro vai para um fundo, gerenciado por duas artesãs e pela coordenadora, e é utilizado para a compra coletiva de matéria-prima e investimentos como aquisição de máquina de costura, custos de participação em feiras e bazares, construção de website, entre outros.
O grupo já participou de duas exposições em Chicago (EUA). Alguns quadros bordados pelas artesãs chegaram a ser vendidos por U$ 150 cada. "Até na Daslu nossos trabalhos já foram expostos", orgulha-se a artesã Rosangela Moreira, 46 anos. Por 25 anos, ela trabalhou na lavoura, ajudando os pais a carpir e colher café. "Eram oito horas de trabalho no mínimo, debaixo de sol escaldante. Hoje, além do ganho, podemos executar as encomendas em casa, facilitando o cuidado com o lar e os filhos."
Tesouro que vem do mar
Flores feitas com escamas de peixe? Tudo começou com a criatividade de dona Leonília Barbosa Paixão, como conta sua neta Herica Paixão. "Em 1960, num povoado do município de Baixo-Guandu, Espírito Santo, minha avó descobriu que poderia trabalhar com as escamas dos peixes que meu avô pescava. Criava ornamentos. Após divorciar-se, mudou-se com os cinco filhos para Vitória, onde aperfeiçoou seu trabalho."
Assim, Leonília dava início a uma tradição familiar, ensinando à filha Madalena e à neta Herica a arte de usar escamas de peixe para formar pétalas de flores. "Unidas pela mesma habilidade, nós três, além de carregarmos Paixão no sobrenome, mantemos em comum esse sentimento pelo nosso trabalho."
O que no começo era um passatempo virou uma profissão. "Transformamos as flores em renda familiar, criando um núcleo de produção que ocupa dois cômodos da casa de minha avó, gerando renda para um grupo de oito pessoas, entre filha, neta, amigas e vizinhas. A maioria tem o artesanato como única fonte de renda, que varia de um a dois salários, dependendo das vendas."
As flores da família Paixão fizeram sucesso no Rio Fashion Business de 2005 ao serem pregadas nas roupas e vendidas pelo polo de confecções de Colatina, Espírito Santo.
Bambu e capricho
Em Pilar do Sul, a 150 quilômetros de São Paulo, fica a cooperativa Brotos e Gomos, dirigida pela artesã Marluce Celina Oliveira Sá. "O trabalho com o bambu é muito difícil e só quem gosta muito é que acaba ficando. Antes havia 22 pessoas, e hoje apenas eu e minha filha tocamos o negócio."
Diz que é preciso ter outra fonte de renda para sobreviver, pois as vendas têm altos e baixos. A produção atual gira em torno de 3 mil peças. Bonitas e ecologicamente corretas, as colheres para cozinha em vários tamanhos são o carro-chefe, além de pegadores de massas e saladas, espátulas, kits e porta-cartões. Sobre os utensílios de cozinha, à venda em lojas de porte, como a Tok & Stock, a artesã enumera as vantagens. "O bambu não embolora, não acumula sujeira, não pega cheiro nem risca a panela."