Ciências

Carne bovina, receita médica e superbactérias


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Vender antibióticos apenas com receita médica foi uma medida acertada, mas trouxe alguns inconvenientes. Muitos cremes e pomadas têm antibióticos na composição e nestes casos, pelo rigor da lei, precisariam de receitas médicas para serem vendidos.

Mas o interessante acontece com a carne bovina. O bovino pode ser comparado a uma máquina de transformar capim em proteína combustível para nosso organismo. O capim está no pasto, o boi deve caminhar e procurar. No entanto, o capim não é calórico a ponto de promover uma engorda rápida para o abate. O milho e a soja são bem mais calóricos, mas o boi não come grãos, ele não foi feito para isto.

O confinamento faz com que o boi não gaste energia pastando a grandes distâncias; confinando o gado se pode disponibilizar comida a base de soja e milho, mas moídos e em forma de ração. A ração é um tanto indigesta, tem muita celulose e o boi vai precisar da ajuda de bactérias no seu sistema digestivo para processar todo este bolo de grãos.

A fermentação da ração a base de grãos no sistema digestivo do boi pode ser promovida por certas bactérias em simbiose, mas isto produz muitos gases que contribuem para aumentar o buraco de ozônio. Imagine tantas bactérias e outros microrganismos fermentando dentro do boi confinado com produção de muitos gases.

Às vezes o estômago do boi - também conhecido como rúmen - aumenta e fica inchado, acabando por pressionar os pulmões e pode levá-lo à morte. Para controlar este problema, os criadores administram antibióticos junto com a ração.

Para se ter noção da dimensão do problema de saúde pública, 70% dos antimicrobianos utilizados nos EUA são os incluídos nas rações. O confinamento de gado em que se usa praticamente apenas rações para a sua engorda representa 99% de todo o gado estadunidense; no nosso País este percentual é de apenas 6%.

Não dá para você saber de qual animal veio a carne do seu bife, o seu hambúrguer ou ainda o churrasco. Pode se comparar a uma loteria: não! Seis por cento é muito e quase inevitavelmente você um dia ou outro ingere carne com antibiótico.

Em palavras simples: todos nós ingerimos involuntariamente antibióticos à medida em que ingerimos carne de animais alimentados com rações, especialmente os bovinos. E qual o problema nisto? Primeiro: põe por terra afirmações de mães como: "meu filho nunca tomou antibiótico até 7 anos". Ou "meu filho nunca usou alopatia, apenas homeopatia". Se comeu carne bovina ou derivados, ingeriu antibióticos e sem receita.

Segundo: o uso constante de antibióticos nas rações bovinas pode criar as superbactérias resistentes. As bactérias que os antibióticos não conseguem matar sofrem mutações genéticas em seu DNA e transmitem essas mutações para as futuras gerações.

Bioquimicamente, estas alterações genéticas são informações fornecidas para as bactérias filhas sobre como fazer o seu metabolismo e como montar suas estruturas sem que os antibióticos as atrapalhem a proliferar.

As bactérias resistentes por mutações genéticas ignoram a presença dos antibióticos no meio em que vivem. As demais bactérias sem as mutações morrem pela ação do antibiótico, mas as super resistentes sobrevivem sem concorrência das demais e podem proliferar alucinadamente difundindo-se pelo organismo em estado séptico, geralmente letal.

De vez em quando, os hospitais e clínicas relatam super infecções por bactérias resistentes aos antibióticos. Em 2001 um garoto estadunidense de 2 anos foi contaminado com Escherichia coli por um hambúrguer, e 12 dias depois foi a óbito. Os hambúrgueres foram retirados do mercado.

Se os órgãos governamentais exigem receitas para vender antibióticos com o objetivo de prevenir surgimento de bactérias resistentes, por coerência, deveriam tomar atitudes como: 1 - exigir receitas médicas para comprar carnes nos supermercados; 2 - adotar tarjas vermelhas nas embalagens de carnes e derivados; 3 - exigir avisos de alerta para o consumidor como: cuidado, esta carne pode ter antibiótico e criar resistência bacteriana; 4 - ser mais exigente ainda como em muitos países: na embalagem deveria constar onde o boi nasceu e foi criado, dia de abate e se foi alimentado por rações livres ou com antibióticos.

Se a exigência de receitas para se vender antibióticos foi adotada apenas para evitar a resistência bacteriana, este modelo de prevenção deve ser revisto. Muitos alimentos contêm antibióticos em sua composição.

Espero que o leitor tenha percebido que as primeira e segunda atitudes sugeridas foram singelas ironias de minha parte, mas as duas últimas são sugestões pertinentes.

Alberto Consolaro - professor titular da USP e colunista do caderno Ciências do JC

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