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Um homem morreu intempestivamente

Renato Senis Cardoso
| Tempo de leitura: 3 min

Ao dar-se conta, viu-se atropelado. Estava no lugar errado, na hora errada. Pessoas morrem a todo instante. Agora mesmo morreu o José, minutos antes o João. Daqui a pouco morrerá o Antonio, e assim continuamos com nosso destino traçado por Deus.

Noite dessas morreu o Rebuá e quase ninguém soube. Ninguém estava lá para socorrê-lo. Logo ele, que distribuía alegria por onde passava. Quantos e quantas vezes o evitamos. Ele tinha um problema que era dele e todos, ou grande maioria, podia pensar a respeito: "O problema não é comigo". E assim Rebuá vivia sua vida já mais fantasiosa, ou não, e menos em conformidade com o que se convenciona chamar de normal. Eu o conheci bem jovem, e como era alegre aquele menino!

Nos últimos tempos Rebuá se apresentava como um judeu com vestes de extrema ortodoxia e eu sempre ficava indignado: por que judeu?

Hoje me pergunto: por que Rebuá, de judeu ortodoxo e frequentando escritórios de empresários e políticos de origem árabe? Nem de longe quero promover provocações, porém, é de se pensar, se levarmos em conta a guerra que dura anos envolvendo árabes e judeus, com um número incalculável de inocentes mortos.

Como perdemos Rebuá em tempos de Natal, reporto-me a Davi. Será que nós todos estávamos equivocados e apenas ele, nessa multidão de Bauru, certo e/ou talvez cumprindo alguma missão? Talvez sim, porque parei tudo para expressar meu sentimento de perda e até de impotência por não ter podido ter feito nada por ele quando aqui conosco. Você agora, que me lê, também pode estar se culpando pela mesma omissão. Perdemos Rebuá, ele já não está mais conosco e resta-nos apenas lamentar. Pena, agora é tarde.

O professor Agnelli, a respeito de uma peça que produzi na Internet, assim se manifestou: "Ele foi meu aluno no curso de engenharia civil na antiga Fundação Educacional de Bauru. Algumas vezes eu o encontrava pelas ruas centrais de Bauru, com sua vestimenta tradicional, igual à foto que você postou. E não raras vezes ele vinha ao meu encontro para falar de engenharia e de natação, como alguém que queria abrir portas para ser acolhido na troca do calor humano. Sei que muitos o evitavam com a preocupação do constrangimento, em vista das suas abordagens fortes, com suas convicções fora dos padrões globais. Rebuá nos deixa possivelmente em momento de dor, longe do calor humano que muitos de nós a ele devia. Que pelas portas do Templo do Rei Salomão, sob as colunas da força e da beleza, Boaz e Jaquim o acolham e o conduzam pelo atalho justo e perfeito ao reino de Davi". Nada mais justo e perfeito esse comentário do professor Agnelli.

Justo e perfeito nos remete ao sério problema que vivemos na área médico-hospitalar. Vem à minha mente a distância que separa a crise chamada de esquizofrenia, da solução absoluta, embora a intensa dedicação dos profissionais da área e estudiosos. Miro a absoluta falta de leitos e hospitais para doentes mentais. Miro a omissão do Estado também nesse sentido.

Tenho razões íntimas para estar intrigado com Rebuá e sua presença nos últimos anos. Bem sei o que é ter o espírito em conflito, a alma triste e a mente impotente para gerenciar comportamento.

Rebuá não se apresentava como judeu, assim, do nada, nesta Bauru de poucos da linhagem de Davi, que ainda estão à espera do Messias. Querido como sempre fora, por certo agora bem perto de Deus, o nosso Isaías, ou Salomão, ou ReBoáz, com aquele coração puro e santo, nos perdoa a todos e nos deseja muita paz no ano que se inicia.

Recorro ao que sempre comenta o padre Ricci: "Deus se manifesta por pequenos sinais". E olha que, por Rebuá, Deus foi incisivo. Sinto que vale a pena refletirmos a respeito.


O autor, Renato Senis Cardoso, é publicitário e bacharel em direito

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