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Na última década, chuvas em Bauru ficam abaixo da média histórica, segundo IPMet

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

As chuvas que castigaram Bauru no final do ano passado podem dar a impressão de que a quantidade de água que cai sobre a cidade vem aumentando a cada ano. Mas, de acordo com estatísticas do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, desde 1999 o acumulado anual tem ficado abaixo da média histórica registrada pelo órgão, que é de 1.570 milímetros.

A única exceção à regra foi 2009, ano considerado anormal em consenso entre cientistas da área, que registrou 1.584,5 milímetros de chuva de janeiro a dezembro. No ano passado este índice voltou a cair para 1.081,5, volume ainda inferior ao de 2008, quando choveu 1.166,6 em Bauru.

O menor registro nos últimos 11 anos foi o de 2002, quando a precipitação acumulada chegou a apenas 870,9 milímetros. A média histórica considera as medições feitas pelo instituto nos últimos 30 anos.

Segundo José Carlos Figueiredo, meteorologista do IPMet e presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia (SBMet), os ciclos solares, associados em menor escala à dependência por água potável que não é reposta, podem explicar as causas do fenômeno. "Mas ainda não é possível dizer com exatidão quais são os verdadeiros motivos. Para tanto, é preciso pesquisa com análise estatística bem feita e, para fazê-la, precisamos de investimento", salienta ele, que acredita que, em 2011, a média pluviométrica continuará abaixo da média.

O primeiro setor afetado com a redução dos índices é a agropecuária, segundo avaliação de Figueiredo e do engenheiro florestal do Fórum Pró-Batalha, Eliel Pacheco Junior. "Para abastecimento das residências, esta redução não é motivo de preocupação. Os reservatórios não trabalham no limite e o que temos são apenas problemas pontuais em época de estiagem", considera Pacheco Junior, lembrando que o rio Batalha, principal fonte para abastecimento de Bauru, assim como seu entorno, são submetidos a contínuos processos de manutenção e recuperação.

Figueiredo lembra que cafeicultores da região já estão sentindo os efeitos da redução das chuvas, com prejuízos sucessivos em suas produções. Como consequência, o meteorologista aponta repercussões de cunho social.

"Trabalhadores que forem demitidos acabarão migrando para cidades mais urbanizadas e estas, por sua vez, não terão infraestrutura para absorver essas pessoas. Então haverá um crescimento das favelas e da busca por água potável, que já é escassa. A tendência é haver problemas de abastecimento de água no futuro", detalha.

"Apagões"

Além desta dificuldade, Figueiredo aponta ainda a iminência de ocorrerem novos "apagões" de energia elétrica, já que as usinas hidrelétricas enfrentam cada ano mais problemas para reabastecer seus reservatórios d?água. "Elas ganharam um fôlego em 2009. Mas, em 2010, esses reservatórios não encheram e em 2011 não há indícios de que haja alguma mudança neste panorama. Em décadas passadas, o que chove hoje poderia ser suficiente, mas o aumento da população cria uma demanda por mais água, mais alimento e mais energia elétrica", frisa, questionando, sem dar respostas, o que está por vir nos próximos anos.

Afora os prejuízos estruturais, a redução do volume de chuvas poderá provocar ainda aumento na incidência de doenças respiratórias, principalmente entre crianças e idosos. Segundo o pneumologista José Carlos Sacomandi, do Serviço de Moléstias Infecciosas da Secretaria Municipal de Saúde, não é possível afirmar que a queda na média anual da quantidade de chuvas possa deixar a população mais doente, mas caso os períodos de estiagem começarem a se prolongar, o problema pode ocorrer.

"A falta de chuvas desidrata as mucosas (narinas, garganta) e as deixa muito mais predispostas a infecções virais, como a gripe. E a poeira doméstica contaminada por ácaros também é propícia para provocar alergias aéreas", frisa. Ele salienta, entretanto, que chuvas brandas capazes de normalizar os níveis de umidade relativa do ar são suficientes para evitar danos às funções respiratórias.

Previsão é de chuva até domingo

Embora tenha chovido menos em Bauru nos últimos 11 anos em relação à média histórica registrada pelo Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, a chuva não deu trégua para a cidade durante todo o dia de ontem e o acumulado dos três primeiros dias de janeiro já registra 63,7 milímetros.

Até o final desta semana, de acordo com dados do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTec), a previsão é de que o tempo não mude. Para hoje, a expectativa é de que o céu permaneça nublado e ocorram chuvas periódicas ao longo do dia. As temperaturas devem se manter entre 20ºC e 26ºC. Entre amanhã e o próximo domingo, também há previsão de pancadas de chuva que podem ser acompanhadas por trovoadas e os termômetros devem oscilar entre 18ºC e 26ºC.


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Para presidente da SBMet, mudanças climáticas são determinadas por ciclos

Contrariando a corrente majoritária de ambientalistas e cientistas que afirmam que a intervenção humana tem sido determinante para as mudanças climáticas verificadas nos últimos anos, o meteorologista José Carlos Figueiredo, presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia (SBMet), defende que o fenômeno é resultado de alterações fundamentalmente naturais e, portanto, cíclicas.

"O Sol possui ciclos e, em menos de 15 anos, a previsão é de que o planeta volte a ser resfriado. A cada 22 anos há uma mudança, e nós estamos no meio do ciclo alto do Sol, que provoca aquecimento", considera, destacando que esta constatação não diminui a importância de preservar o meio ambiente. "É claro que a ação do homem contribui, mas não é ela a principal causa do problema", acrescenta.

De acordo com o presidente, que também é meteorologista do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, a Ciência, atualmente, já considera esta corrente - ainda tímida - como uma possibilidade para explicar as causas do aquecimento global. Um dos motivos para levá-la em consideração se dá em razão da base de dados disponíveis atualmente para estudo, ainda bastante incipientes e, portanto, insuficientes para sacramentar a degradação provocada pelo homem como a grande responsável pelas alterações no clima.

"A maioria dos dados estudados até hoje são exclusivamente do Hemisfério Norte, que tem 400 anos de estudos. Na América do Sul, o maior banco de dados fica em São Paulo e tem 100 anos. Os demais institutos têm até 30 anos de coleta de dados que, muitas vezes, não são lidos corretamente", frisa, citando estudo do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), que apontou falhas em estatísticas levantadas por 99,5% dos 4 mil órgãos pesquisados.

Figueiredo defende que, assim como a redução dos níveis anuais de chuva, os temporais destruidores e calor intensos verificados nos últimos anos já foram registrados em décadas passadas. "Também já vivemos ciclos de resfriamento no passado, que deverão se repetir futuramente", acrescenta.

O único diferencial que tem provocado alarde entre especialistas é a repercussão que estes fenômenos climáticos estão provocando nas áreas urbanas, desmatadas e ocupadas desordenadamente ao longo do tempo. "Em tempos remotos, essa chuva caía sobre a mata nativa, que tinha capacidade para absorver tudo. Agora, com o solo impermeabilizado, não temos obras de engenharia adequadas para suportar todo esse volume. É algo inadmissível, visto que as enchentes ocorrem sempre nos mesmos lugares da cidade", analisa.

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