Nossa vida é cheia de surpresas. Nos encontros informais que fazemos relembramos o passado, sempre, naturalmente, com saudades. Irineu Bastos (o Rocha Pombo bauruense) é um dos meus prediletos confidentes, pois ele tem o dom de ouvir e prestar atenção no que se diz. Assim, num de nossos últimos encontros contei-lhe sobre a Casa do Vinho, inaugurada por volta de 1935, por meu pai e meus tios (Luiz Crivelli e Vitorio Montaldi), que deixou na recordação dos que por lá passaram momentos de prazer e alegria e que, ao que parece, dificilmente acontecerão no futuro, como conseqüência e fruto do desenvolvimento e da tecnologia humana.
Na mencionada Casa do Vinho, balcões de mármore negro, italiano de carrara (não existia outro no País), adornavam o sofisticado bar e restaurante instalado na rua Primeiro de Agosto, quadra seis (hoje Casas Bahia). Serviam-se lá vinhos italianos e bebidas da Antártica, que havia financiado o empreendimento. Na frente era "bar", nos fundos restaurante, onde serviam as melhores iguarias com massas e frutos do mar, inclusive polvos, preparadas pelo mestre Durval e capitaneadas (as italianas) por minha tia Dirce (oriunda). Aos sábados, um trio com violino, violoncelo, piano e acordeão, comandado pelo maestro Bordini, executava os melhores tangos e boleros (músicas da época) para uma seleta platéia, freqüentada sistematicamente por Alice de Barros, então secretária municipal, sua amiga Clorinda, a famosa costureira Mariquita Ambrosio, a irmã de Nacib Salmen, a Rosita Caciola, entre outras celebridades. Decorrido um ano, meu pai desligou-se da sociedade e fundou o Bar Crivelli, na esquina da rua Primeiro de Agosto com Rio Branco.
Aqui, nesta esquina, reunia-se a classe política dominante, Carlos Fernandes de Paiva, Farid Madi (depois João), Fernando de Lima Ramos (Coné), jornalistas como Fernandes, Brizola, Paulino, Gomes de Araujo, Gaspar (Folha do Povo e Correio da Noroeste, mais tarde Diário de Bauru). Como era verde meu vale, dirão alguns...
Que saudade, dirão outros. Só externo estas lembranças pela insistência de meu amigo Irineu, pedindo desculpas pelo desabafo, mormente agora que o Luciano Dias Pires, gentilmente, como sempre, mandou-me um calendário para 2011 estampando momento em que, juntos, éramos alunos de Dona Tita, no preparatório para ingresso no Ginasial, isto em 1937. É muita saudade. Oxalá continue contando histórias por mais alguns anos, com o beneplácito do Jornal da Cidade e tendo todos como bons ouvintes. Salve 2011!
O autor, Itamir Crivell, é colaborador de Opinião