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Tecnologia esbarra no isolamento

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Aos pés da colina que sustenta uma gigantesca torre repetidora de sinais de TV, por incrível que pareça, tem gente praticamente alheia aos adventos tecnológicos do século XXI. Não totalmente porque, ao menos, ouviram falar em certos avanços que, em meio à vastidão da zona rural, ficam apenas na imaginação mesmo.

Na companhia fiel de Maradona, Vuco-Vuco e Bolinha, pacatos e sonolentos vira-latas que guardam a pequena casa isolada no meio de um enorme pasto, dona Chica cozinha macarrão numa panela amassada sobre um fogão a gás, instalado ao lado do a lenha, sempre acionado na hora de preparar algum assado ou frituras.

Diferentemente do mundo conectado e veloz dos apetrechos tecnológicos cultuados pelos chamados geeks (viciados em informática) ou até mesmo instrumentos inerentes à própria vida moderna, como computadores básicos ou telefones celulares, dona Chica, aos 63 anos, gosta mesmo é de ver o dia passar devagar.

Enquanto o marido, parece mentira, mas o nome dele também é Francisco, formando o casal "Chico e Chica", está na roça, ela permanece na pequena casa que há dois anos foi palco de uma revolução ? a chegada da luz elétrica. "Chegou faz pouco tempo. Estamos há dois anos com luz", diz a dona-de-casa, que cozinha, faz limpeza, toma banho e bebe água de poço.

A modernidade na moradia, que fica a menos de 20 quilômetros do centro de Bauru, para no fogão a gás, luz e televisão, que "pega" bem o sinal emitido pela torre, a alguns metros dali.

O restante é igual aos tempos em que telefone era luxo. Aliás, no caso de dona Chica, ainda é. "Quando a gente precisa, corre para usar o telefone do vizinho", conta ela. O "vizinho" em questão fica a cerca de um quilômetro pasto e chão batido acima.

Não que Francisca Maria Rodrigues desconheça qualquer benefício de viver numa cidade ou estar na zona rural e ter acesso a todos os confortos e comodidades. Pelo contrário, ela conhece muito bem os ônus e bônus da vida urbana e tecnológica. Quando jovem, morou em São Paulo, onde trabalhou em tecelagem, mas não ficou muito tempo na cidade grande e logo voltou para a roça.

"Não gosto de cidade, aqui é mais sossego", resume ela, que também conhece os mesmos ônus e bônus da simplicidade extrema. "Também tem dificuldade. Em caso principalmente de doença, sempre tem que depender dos outros", contrapõe dona Chica, que diz nunca ter passado perto de um terminal conectado à rede mundial de computadores.


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Falta de interesse

Um recente levantamento publicado pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic), instituição responsável pela coordenação e publicação de pesquisas sobre a disponibilidade e uso da Internet no Brasil mostra que, apesar do crescimento em número de usuários da rede no País, ainda falta muito para que fique realmente democrática.

Conforme o estudo, apenas em consideração os números relativos à região Sudeste, considerada a mais desenvolvida do País, 33% dos domicílios dispõem de acesso à web, contra 67% de casas sem ligação direta com a Internet. No Nordeste, como comparação, a diferença é de 10% de moradias plugadas à rede contra 90% de casas desprovidas do serviço.

O levantamento, que aglutina os números das regiões brasileiras, sem especificar o Estado, detalha, no entanto, que o fator econômico não é o principal motivo para que as famílias não tenham ao menos um ponto de Internet no domicílio. Segundo o estudo, para 41% dos moradores dos estados da região Sudeste, o principal fator é falta de interesse. Custo elevado é a causa para 27% de casas não possuírem conexão. A falta de disponibilidade na área justifica 21% dos lares sem contato com a rede mundial de computadores.


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?Brasília é uma ilha?

Um dos motivos que levaram a capital federal para o meio do cerrado era colonizar o interior do País. Aos 50 anos, Brasília hoje é o epicentro político brasileiro e acaba de protagonizar mais uma importante página da história nacional, com a posse da primeira mulher a ocupar a cadeira da presidência da República.

Se a Brasília de Dilma Roussef trouxe um oásis de desenvolvimento ao Planalto Central, existe outra Brasília totalmente avessa aos atributos da capital federal.

Com aproximadamente 120 moradores, de acordo com estimativas sobre dados recentemente colhidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pequena vila, distrito de Piratininga, está longe dos holofotes da xará famosa e mais nova: Brasília Paulista surgiu ainda na década de 1920, com a inauguração de uma estação da extinta Companhia Paulista das Estradas de Ferro.

No entanto, a história está encalacrada na pequena vila. Para ouvir algo sobre o distrito, tem que ir até lá. Não que chegar até o vilarejo seja tão difícil ? em dias de chuva, porém, a estrada de chão com pouco cascalho complica a vida de quem se aventura a colocar o carro na lama ? mas é praticamente a única forma de conversar com quem mora por lá.

"Aqui não pega celular. Tem que ir em lugar alto para achar o sinal da torre e ligar para alguém", narra a estudante Eliane Delacosta, de 17 anos.

Sem celular (Internet só em sonho), o pouco entretenimento da jovem na vila é restrito às conversas com amigos e festas promovidas por formandas de curso de cabeleireiros que funciona na única escola do bairro rural. "Para usar Internet é preciso ir de ônibus até a lan house em Piratininga (cerca de 20 km utilizando estrada asfaltada)", detalha a jovem. "Não faz nada mesmo não. Sete horas é cama para todo mundo", corta o apicultor José Carlos Delacosta, 47 anos, nascido e criado na Brasília Paulista, onde o único telefone público, dizem os moradores, até funciona as vezes. Mas nem tudo é isolamento, dizem. Quando vão a cidade, mesmo que seja perto, ainda há diversão com o nome da cidadezinha, até mesmo na sede do município.

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