Bairros

Invisível social

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 6 min

Para entender a rotina e a vida dos moradores de rua de Bauru, o JC nos Bairros percorreu diversos pontos da cidade. Nessas andanças, a reportagem se deparou com histórias de ruptura familiar, ocasionadas, em sua maioria, pelo envolvimento com drogas, com o álcool e pelo desemprego.

Cada morador de rua entrevistado tinha, por trás de uma face carrancuda, uma passagem sofrida de sua vida para contar. Histórias construtivas, incríveis, que rotineiramente permanecem abandonadas e ocultas nas sombras de praças, pontes e marquises.

Porém, entre tantos moradores de rua, Carlos Antônio da Silva Santos, 57 anos, chamou nossa atenção. Andarilho há 33 anos - mais da metade do tempo que já viveu -, Carlos tem talentos de sobra: construiu seu próprio barraco com entulho, entende de política, história e atualidades, lê jornais diariamente e esbanja simpatia.

Confira a seguir os principais trechos da surpreendente história do homem que vive como um invisível social.


Jornal da Cidade - Como é seu nome?

Carlos Antônio - Bom, atualmente, meu nome de verdade é Carlos Antônio da Silva Santos e tenho 57 anos. Digo atualmente porque não tenho documentos. Dei o fim em todos. Fiz isso porque não quero que me localizem. Sou um andarilho indigente, um invisível social. Quando eu morrer vão ter o maior trabalhão para me identificar, vão ter de fazer isso pela minha impressão digital (risos).


JC - O senhor é de Bauru?

Carlos Antônio - Não. Nasci na Bahia, mas fui criado no Rio de Janeiro. É que sou o quinto filho de minha mãe biológica. Daí, como ela não podia me criar, me colocou para adoção. Foi quando fui morar em Rio das Flores, no Rio de Janeiro. Acontece que minha mãe adotiva tinha de trabalhar e, aos 6 anos, me colocou em um colégio interno. Me lembro até hoje, se chamava Funabem. Lá a gente trabalhava e estudava. Fiquei lá até os 18 anos e conquistei meu caráter.


JC - E depois?

Carlos Antônio - Depois fui servir ao Exército. Fiquei no 57º Batalhão de Infantaria de Rio das Flores por 11 meses. Foi lá que aprendi as técnicas de sobrevivência que uso hoje. Na verdade, ainda levo a vida de um jeito meio militar. Me considero um soldado.


JC - E como se tornou morador de rua?

Carlos Antônio - Depois do Exército, trabalhei em vários outros lugares, como fábricas e até como auxiliar de construção civil, mas percebi que minha vocação era ser do mundo, caminhar. Sempre gostei de ver paisagens, andar bastante. Como não tinha família, mulher e filhos, caí nas estradas em 1977. De lá para cá, já andei por 20 Estados e passei por mais de 3 mil cidades, sendo que 1.500 eu fiquei mais de uma semana. Nesta época andava cerca de 40 km por dia, o que corresponde a 12 horas de caminhada.


JC - E o senhor chegou em Bauru quando?

Carlos Antônio - Cheguei aqui em 2007. Percebi que a estrada já não me oferecia grandes coisas... estava ficando perigosa demais. Por isso decidi ficar por aqui. Passei um tempo morando na rua, debaixo de viadutos, mas não me adaptei. A sarjeta tem alguns hábitos dos quais não compartilho. Não gosto de bebida nem de drogas. Além disso, a criminalidade é muito acentuada. O mendigo tende a tornar-se uma pessoa egoísta, capaz de fazer qualquer coisa para se defender. Por isso fica perigoso. Já dizia Albert Einstein: "Somente duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana".


JC - Foi então que o senhor decidiu construir esta casa?

Carlos Antônio - Foi. Na época aqui era meio abandonado. Não tinha mercado, nem faculdade, nem nada. Este terreno era cheio de entulho. Foi quando percebi que podia usar os entulhos para fazer um lugar para eu morar. Levei cerca de um mês para construir. No começo apanhei um pouco, mas depois peguei o jeito. Mas ainda assim é preciso revisar a posição dos entulhos todos os dias.


JC - A casa é muito bem feita. O senhor aprendeu com alguém?

Carlos Antônio - Não, nunca tinha feito uma casa assim antes. Eu apenas usei algumas coisas que aprendi na época do Exército. Você pode reparar que ela parece com uma trincheira. Quem vem de longe quase não a vê, porque ela está abaixo do nível do terreno, no meio do mato. Além disso, em seu interior, deixei frestas específicas para que eu pudesse observar tudo o que acontece do lado de fora. Daqui tenho visão de toda a redondeza. Fiz questão de fazer muitas janelas porque é preciso ventilação. Já a iluminação é à base de velas mesmo.


JC - Mas não tem cozinha. Como o senhor faz pra comer?

Carlos Antônio - Não precisa de cozinha, eu me acostumei a comer pouco. Preciso manter meus 51 quilos em dia para que, se for preciso, eu possa voltar a caminhar. De manhã, por exemplo, eu tomo um café preto no mercado, que é de graça. No almoço, como um pão com iogurte, e de noite raramente janto. Marmita somente uma vez por mês. É muito pesado, acabo passando mal. E quando alguém me traz comida, aceito por educação, mas advirto que da próxima vou recursar. É muito perigoso. O que tomo bastante é agua, que busco perto do mercado.


JC - Como o senhor sobrevive?

Carlos Antônio - Andarilho vive de esmola e comigo não é diferente. Não posso dizer os pontos onde peço, mas garanto que recebo somente moedinhas. Além disso, pego recicláveis. Sempre trabalhei com o lixo e tenho consciência de que pegando plástico, latas e papelão na rua estou ajudando o meio ambiente. Mas ultimamente estão pagando muito pouco... Ah, nunca recebi ajuda do governo. Bolsa-família, cesta, campanha do agasalho... nunca ganhei nada. Mas não estou reclamando.


JC - O senhor é muito culto. Estudou até que série?

Carlos Antônio - Sou nada (risos). Sou um semianalfabeto, aprendi o suficiente para ler alguns jornais. Eu apenas sou curioso e gosto de ler. Sabe, todos os dias as pessoas descartam os jornais que não lhes servem mais. Daí eu aproveito e pego eles. Separo as páginas que me interessam e leio tudo. Olha, neste jornal aqui, por exemplo, tem a notícia que o Silvio Santos penhorou suas empresas. Sou fã do Silvio Santos. Ele é muito inteligente. Penhorou as empresas e continua fazendo o que gosta, que é apresentar o programa com as colegas de auditório (risos).


JC - Que assunto o senhor mais gosta de ler?

Carlos Antônio - Gosto de tudo um pouco. Mas leio bastante política e coisas que interessam ao País. Sei tudo sobre o que acontece no Congresso e admiro o Paulo Maluf. O cara é esperto. Rouba mas faz, não é isso? Me lembro quando ele disse que quem achasse os milhões na conta dele podia pegar... Claro! Tá na cara que ele tem um monte de laranja. O Sarney é outro espertalhão... (risos).

JC - E agora, até quando o senhor pretende ficar longe das estradas?

Carlos Antônio - Até quando o proprietário do terreno pedir o espaço de volta. Aí eu saio na hora. Quando isso acontecer, acho que vou pegar as estradas rumo ao Paraná. Conheço pouco deste Estado. Por isso preciso estar preparado, em forma.


JC - E quando isso acontecer, vai construir outra casa de entulho?

Carlos Antônio - Provavelmente não. Creio que esta é a primeira e a última. Daí, quem sabe, eu não vá morar em uma árvore? Dizem que os homens vieram dos macacos, talvez seja verdade. Penso que é uma boa ideia voltar para minhas origens (risos).

Comentários

Comentários