Bairros

40 dias após ocupação,moradores de favela temem o abandono

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Ao ouvir o bater de palmas surge, entre as frestas do precário portão de madeira, o olhar assustado de um senhor, que só aceita falar com a reportagem sem ter o nome divulgado. A cena retrata uma realidade cotidiana no local: medo. E este é apenas um dos sentimentos que, misturado ao odor do esgoto escorrendo pela rua de terra, continua exalando entre os barracos da favela São Manoel, mesmo após 40 dias da ocupação realizada pela Polícia Militar (PM) em parceria com secretarias municipais e outros órgãos.

Depois desse tempo, a cidadania tão esperada e prometida não veio. Pelo menos é a essa a afirmação dos moradores que, por terem vivido anos e anos de abandono, temem que a ação possa ter sido algo isolado e sem reflexos futuros.

Logo depois da desconfiança inicial e comum aos habitantes da comunidade, o homem aceitou falar, porém, sem sair de casa ou mesmo deixar que a equipe de reportagem do JC entrasse em sua casa. Com a porta entreaberta, ele foi direto na resposta: "Não. A ocupação não mudou em nada".

Para ele, o problema da segurança no local ainda é crítico, sendo que somente a efetiva presença da polícia é capaz de inibir os traficantes e usuários. "Na época em que a polícia está por aqui, eles fogem. Porém, quando a polícia vai embora, eles voltam. É assim sempre. Quem fuma essas porcarias parece não ter medo".

Com cerca de 200 barracos e aproximadamente 3 mil moradores, a favela São Manoel virou sinônimo da criminalidade - principalmente o tráfico de drogas - nos últimos anos. Triste constatação ou coincidência: o segundo homicídio registrado em Bauru neste ano, ocorrido ontem, foi no local (leia mais em Polícia).

Para tentar mudar esse quadro, a PM com apoio de vários outros órgãos, realizou - de 29 de novembro a 3 de dezembro do ano passado - uma ocupação pacífica na comunidade.

Nesses seis dias, os policiais estiveram presentes realizando o patrulhamento e mostrando - ou tentando mostrar - para a população que o tráfico não precisa ter o domínio sobre o local. Ações sociais também foram realizadas, todas com o objetivo de devolver a cidadania e a esperança aos moradores.


Descrença

Entretanto, não é isso que se vê pouco mais de um mês após a operação. Com um balançar de cabeça negativo, o morador entrevistado na semana passada se mostra bastante desanimado em relação ao futuro.

"Eu até cheguei a acreditar que tudo mudaria quando a polícia e aquele pessoal esteve aqui, mas, agora não acredito mais. Parece que voltamos tudo na mesma".

Postura semelhante a de outros moradores. No local, não importa a idade, todos guardam a mesma sensação de abandono. Uma mulher de 42 anos - que assim como o primeiro entrevistado e todos os demais personagem dessa matéria não quiseram fornecer o nome por medo - não titubeia em afirmar que não sente diferença do que era. Para ela, somente a mudança da percepção da sociedade pode resultar em algo diferente.

"É lógico que tem bandido por aqui. Mas também tem gente de bem. Tudo que acontece na cidade é culpa dos moradores da São Manoel. Qualquer um que more aqui é visto como bandido e isso não é verdade. Também somos seres humanos", desabafa.

Estigmatizados. É exatamente assim que a maioria dos moradores se sente. Há 17 anos residindo na favela, essa mulher tem muitos casos que exemplificam o estigma. No último, conta que, com muito custo, comprou um presente para sua filha, mas o objeto foi apreendido.

"Eu comprei uma bicicleta que ela queria. Mas comprei na feira do rolo e não tinha nota. A polícia veio aqui e levou a bicicleta, alegando que era produto de furto. Depois de quatro meses foi comprovado que não era (furtada) e eu fui buscar de volta. Acho que isso só acontece por que sou moradora daqui. Carrego isso comigo e tenho medo de que minhas filhas (ela tem três meninas, sendo que uma delas começou a cursar pedagogia, algo que enche a mãe de orgulho) sofram esse preconceito também", completa, temerosa.

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Sem idade

As sensações de abandono e preconceito não têm idade para aparecer entre os moradores da favela São Manoel. Uma jovem de 22 anos já sabe disso. Ela, que vive há quatro anos no local, desabafa.

"Acho que não mudaram as coisas depois da ocupação. Eles deram palestras e falaram muitas coisas, porém, a maioria não tem condição de ir atrás disso".

A jovem, que tem dois filhos, exemplifica que uma das palestras falava sobre primeiro emprego, mas tudo que foi ofertado fica muito longe da favela.

"Tem gente que não tem dinheiro nem para comer. Como vai pegar um ônibus e procurar isso (emprego)? Muita gente não tem condição de buscar o que eles nos passaram aqui naqueles dias (na ocupação)", alega.

Como os outros moradores, além da sensação de estar à margem de qualquer direito ou esboço de cidadania, ela reclama da "cicatriz" que carrega por ser moradora dessa comunidade.

"Não temos culpa de morar na favela. Não é porque moramos aqui que somos ladrões. Aqui falta lazer, falta tudo. Mas ainda é habitado por seres humanos".

É essa a principal reivindicação que, mesmo após a ocupação, ainda permanece latente. Todos querem ser vistos como seres humanos. É inegável que, assim como o preconceito, a criminalidade ainda habita a comunidade, entretanto, é certo que tanto os moradores da favela quanto o restante dos bauruenses sustentam a mesma torcida: que a ocupação realizada há 40 dias tenha sido apenas o primeiro passo para, no futuro, esses moradores poderem dar entrevistas e divulgarem seus nomes e rostos, atualmente camuflados pelo medo.

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