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Entrevista da Semana: Jacy Guedes de Azevedo

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Sucesso nas quadras e liberdade no campo

Força e delicadeza. Duas palavras que dificilmente alguém atribui a mesma pessoa. Mas para definir Jacy Guedes de Azevedo, a combinação é ideal.

Mulher forte e guerreira, ela fez parte de uma geração que desafiou preconceitos e quebrou paradigmas. Quando a sociedade fazia cara feia para as mulheres no esporte, ela não só brilhou e se destacou no basquetebol feminino, como abriu espaço para que as futuras gerações, como Hortência e Paula, brilhassem ainda mais.

Sua importância no basquete é tamanha que, ao lado de suas companheiras, ganhou destaque em um livro escrito pela professora Cláudia Guedes, que leciona em uma universidade dos Estados Unidos.

Mas sua garra não se resume às dezenas e dezenas de títulos, medalhas e troféus que ela coleciona na fazenda onde mora, não. Com a morte do pai e já não mais em quadra, Jacy passou a trabalhar na fazenda herdada do fundador do Colégio Guedes de Azevedo. Sem medo de enfrentar desafios, ela tomou as rédeas nas mãos, formou a fazenda a seu modo e hoje dedica seu tempo à criação do gado de corte. "Também dediquei 20 anos ao gado leiteiro e à exposição e leilão de cavalos".

E é em cada canto de sua casa e andando por sua fazenda que é possível perceber onde a força de uma mulher guerreira se funde com a delicadeza presente na alma feminina, claramente visível por todo o seu espaço.

Histórias da vida na Seleção, desafios, viagens e a vida atual também fazem parte da entrevista que ela concedeu ao Jornal da Cidade no cenário de paz e tranquilidade em que vive com a vida no campo. Leia os principais trechos.


Jornal da Cidade ? Na sua época de criança, o esporte não era popular entre as meninas. Como descobriu seu talento?

Jacy Guedes de Azevedo ? Meu pai fundou o Colégio Guedes de Azevedo e tínhamos um time masculino que representava Bauru. Eu acompanhava o time quando podia. Gostava de ver. Quando fiz educação física pela primeira vez, uma professora me ensinou a fazer a primeira bandeja. Ela achou que levava jeito. E deu certo (risos). Depois formamos um pequeno time feminino no Guedes. Esse time foi crescendo e passou a representar a cidade nos Jogos Regionais, Jogos Abertos...

JC ? Como surgiu a chance de jogar pela Seleção Brasileira de Basquetebol Feminino ?
Jacy
? Antes disso, em 1966, joguei no Luso e mais tarde, em 1972, fui para o BTC. A primeira convocação foi em 1967. Em Bauru, tínhamos um bom time que disputava o Campeonato Estadual, Jogos Abertos, Regionais... Não era um time de cabeceira, mas chegamos a ganhar campeonatos... Depois fui para uma seleção paulista, onde fui vice-campeã. Mais tarde meu destino foi uma seleção paulista de novas, onde fizemos uma viagem pelo Brasil. Até que um treinador me viu em quadra e recebi o convite para a Seleção. Eu era briguenta e ele achou que eu tinha garra.


JC ? A Seleção era o seu objetivo?

Jacy ? Eu nem imaginava que isso pudesse acontecer. Não era a minha meta. Era um negócio tão distante que, para você ter ideia, eu nunca tinha visto um atleta de seleção brasileira. Os jogos nem eram transmitidos pela televisão. Às vezes eu até escutava pelo rádio, mas não passava disso. Gostava mesmo era de jogar.


JC - Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou, já que naquela época a mulher não tinha o espaço que tem hoje no esporte?

Jacy - Eu enfrentei todas as dificuldades possíveis. A família não queria e quando eu ia para os Jogos Abertos, meu pai ia junto, minha mãe ia junto... Até que foram se acostumando, foram vendo que era um ambiente legal, um ambiente de esportistas e que tinha gente tomando conta e não havia problema nenhum. Por outro lado, a mulher não era bem vista sendo esportista. Mulher de perna de fora...Mas eu não queria nem saber o que iriam falar, queria mesmo era jogar e pronto. Vivia, respirava, dormia e comia basquete 24 horas por dia. Minha irmã mais velha também ajudou muito dizendo para minha mãe que eu precisa fazer esporte mesmo e devia conhecer o mundo com ele.


JC ? E conheceu o mundo?

Jacy - Com o basquete conheci a Tchecoslováquia, boa parte da Europa, toda a América do Sul eu conheço, conheço também o Canadá, Estados Unidos, México...Hoje é fácil viajar, mas naquela época não era. Fiz duas coisas que gosto: joguei e conheci o mundo. E tenho tanta história sobre essas viagens. Presenciei um terremoto na Colômbia, sofri com gás lacrimogênio dentro de uma igreja no Equador... São histórias que não saem da memória.


JC ? E conquistou muitas vitórias!

Jacy ? (Risos) Conquistei muitos títulos com a Seleção Paulista, como o tricampeonato brasileiro. Com a Seleção Brasileira fui tricampeã sul-americana e bicampeã no Pan-americano. Hoje, ganhar o Pan-americano parece não ter muita importância, mas na época, ganhar dos Estados Unidos e por duas vezes era muito... Já no Mundial eu fui medalha de bronze, terceiro lugar, a melhor colocação que o Brasil pegou na minha época. Depois o País conquistou o primeiro lugar, mas isso foi com a geração de Paula e Hortência, uns 20 anos depois.


JC - Você deixou a casa arrumada para elas...(risos)

Jacy ? (Risos) É, mas é verdade. Mas não eu, a minha geração. Fomos a geração que apareceu na televisão com o mundial em 1971, em São Paulo. Fomos expostas ao Brasil e ao público.


JC ? E quando parou?

Jacy ? Em 1976. Estava com 31 anos e já me achava muito velha. Burra, né? Hoje os caras jogam futebol até os 40 anos. O Oscar jogou até 40 e poucos. Eu tinha medo de que as pessoas me chamassem de velha ao entrar em quadra porque isso já havia acontecido com algumas amigas. Bobagem. Mas, por outro lado, eu parei no auge, não tive aquela fase de decadência, de jeito nenhum. Parei jogando bem mesmo.


JC ? Já tinha planos para o depois do basquete?

Jacy ? Eu fazia faculdade de história e foi no último ano que surgiu a convocação para a Seleção brasileira. Teve uma época que eu dava aulas de manhã, ajudava meu pai a tocar a fazenda, treinava (já jogava na Seleção) e dava aulas à noite. Meu dia era todo ocupado. Tinha apenas o domingo para descansar. Quando deixei o basquete, continuei com as aulas no Guedes e passei a me dedicar mais à fazenda. Lecionei até 1977 e vim para a fazenda de vez.


JC ? Foi difícil tocar a fazenda sozinha?

Jacy - Fiquei receosa porque eu não ia ter dinheiro para tocar a fazenda depois que meu pai faleceu. Foi quando apareceu uma usina de cana-de-açúcar e arrendou as terras por sete anos. Guardei o dinheiro e formei a fazenda como você a vê. Trabalhei durante 20 anos com gado de leite e com exposição e leilão de cavalos e hoje só trabalho com gado de corte.


JC ? Qual é o prazer da vida no campo?

Jacy - Eu adoro essa vida. Estou sempre vestida de peão e sei fazer de tudo na fazenda. Acordo às 6h e tenho de ver tudo, já que é o olho do dono que engorda o gado (risos). A vida aqui é tranquila, mas solitária. Mas eu gosto disso, desde criança. Andar a cavalo solta pelos pastos, ir para leilões e exposições...Sempre tive o respeito das pessoas nesse meio porque eu sempre tive postura. Impunha respeito sem desrespeitar ninguém, como uma boa professora (risos).


JC ? A sala de aula também foi uma paixão?

Jacy ? Eu gostava muito. Dei aulas durante 10 anos. Às vezes encontro com ex-alunos que ainda me chamam de professora. É muito gostoso ouvir essa palavra. A maioria das pessoas imagina que fui professora de educação física. Meu gosto por história começou quando eu tinha uns 14 anos e meu pai me deu minha primeira mesada. Como sempre gostei de tudo o que é leitura, comprei uma coleção de livros chamada "As grandes mulheres da história". Outra coisa que me influenciou foi ter conhecido uma moça com uma história difícil e que se tornou professora de história no Guedes.


JC ? "As grandes mulheres da história". Sua história também é contada em um livro sobre basquetebol feminino.

Jacy ? É um livro acadêmico escrito por, também, uma professora de história chamada Cláudia Guedes, mas não é da minha família. Ela é professora em uma universidade dos Estados Unidos e escreveu sobre as dificuldades do basquete feminino brasileiro até chegar a ser campeão do mundo.


JC ? Você que sempre gostou de história agora faz parte dela.

Jacy - É, mas a minha história não é nada perto da vida de muitas mulheres.


JC ? Aos 65 anos você está em plena forma física. Não errou uma cesta na hora das fotos (risos).

Jacy ? Ah, muito obrigada. Primeiro eu acho que é genética. Depois, a tranquilidade. Não tenho problemas. Você tem muitos problemas quando forma uma família, com filhos e marido para cuidar, além do trabalho fora de casa. Faço minhas caminhadas. Andei muito a cavalo, mas agora prefiro caminhar. Também estou sempre praticando esporte e há também o ar puro...Como mulher, eu nunca tive uma vida normal.


JC ? Por não ter se casado?

Jacy - Com as mulheres da minha geração foi assim: nasciam, cresciam, casavam, tinham filhos...Hoje a maioria também tem profissão. Faço parte da exceção porque nunca quis essa vida do lar. Sempre tive muitas atividades que boa parte das mulheres não têm, como cuidar de fazenda, por exemplo.


JC ? Um lugar tão bonito e tranquilo como esta fazenda deve fazer você viajar em seus pensamentos.

Jacy ? Faço isso sempre. Fico devaneando quando ando por esses caminhos. Dou risada, choro...Mas tudo foi como devia ter sido e provavelmente faria tudo outra vez. Sempre tive horror de ser obrigada a fazer alguma coisa.


JC ? As quadras trouxeram a realização de fazer e ter sucesso com o que você mais gostava. E a fazenda?

Jacy ? Trouxe a liberdade. Nossa, para mim isso aqui é tudo. É o vento, o sol, a lua, a chuva...Essa semana eu tomei uma chuva que você não tem nem ideia. Andei devagar sob ela, nossa...

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