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A arte de namorar homem

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min
Escreveu uma vez o cronista Rubem Braga que â??política é a arte de namorar homemâ?. Quem está no poder ou a ele quer chegar é obrigado a acertos políticos para ganhar eleições. Ao depois há que bolinar para poder governar. Os â??namoradosâ? trocam presentes entre si, traduzidos pela distribuição de cargos, manutenção de currais eleitorais e votos no plenário que satisfaçam as ambições do poder ou privilegiem o sucesso e o dinheiro por si mesmos. Freud (1930) já lamentava essas preferências no lugar dos valores da vida, numa sociedade cada vez mais consumista. O â??pai da psicanáliseâ? chegou a estudar o ciúme como uma das intercorrências que avassalam o ego, mais exacerbado ainda quando manifestado entre homens. Ciúme de macho acontece muito na vida pública e é difícil de ser administrado. Estas coisas generalizam-se nas esferas federal, estadual e municipal. A presidente Dilma Rousseff foi premonitória ao citar Guimarães Rosa em seu discurso de posse: â??Viver é muito perigosoâ?. Sem dúvida, há enormes riscos em se presidir um país necessitado de correção de rumos. No momento o governo se sustenta em partidos viciados a barganhas por baixo da mesa. Lula foi mestre na arte de namorar. Também era adepto da filosofia do Rosa, com outra conotação: â??Sapo pula por precisão, não por bonitezaâ?. Como na Era Lula, o governo Dilma parece uma colcha de retalhos, uma federação de capitanias hereditárias e respectivos donatários. A grande diferença é que não existe mais o líder carismático para orquestrar toda essa dissonância. Muito menos a conjuntura mundial favorável. O â??sapo barbudoâ? conseguia transitar desenvolto entre personagens que, mais parecem saídos da literatura para se enquadrarem no perfil médio do nosso político. Um deles é o Palhares, o pulha, criado por Nelson Rodrigues. Palhares é um cara-de-pau capaz de acender o cigarro na chama do círio do velório e cantar a cunhada no corredor da casa do irmão. Há ainda o Tavares, o canalha, de Chico Anísio, dono do bordão: â??Sou, mas quem não é?â? Infelizmente o panorama político nada tem de ficcional. Existem focos de insatisfação no PT, PMDB e PSB, sem contar os partidos menores. Brigam por preenchimento de cargos na Saúde, Correios e especialmente na Eletrobras. Por conta desse clima de confronto e insatisfação, o vice-presidente Michel Temer obteve da presidente Dilma Rousseff o compromisso de suspender as nomeações para os cargos de segundo escalão até que o clima entre o PT e PMDB melhore. Uma espécie de â??freio de arrumaçãoâ?. As medidas provisórias que tratam dos temas prioritários para o país será a oportunidade para os insatisfeitos darem o troco. Mudanças urgentes têm que aguardar que tudo se acerte a contento desse coletivo espoliador da nação. O papel há muito desempenhado por Michel Temer, com sua cara de â??mordomo de filme de terrorâ? (Zé Simão), lembra muito o José Dias, agregado que vive às custas da família Santiago no Dom Casmurro, de Machado de Assis. Analisando o que essa figura pode nos ensinar do Brasil, o crítico Roberto Schwarz diz num ensaio célebre (A poesia envenenada de D. Casmurro): A graça de Dias â??vem do contraste entre a gravidade vitoriana da pessoa e os cuidados subalternos a que se obrigaâ? â?" o agregado distinto, que fala, pondera, conta vantagem â?" â??... mas está sempre dependendo de acomodações humilhantesâ?. Existe esse â??vazio de respeitabilidadeâ? nos políticos que voltam de férias, com o salário aumentado em 64%, e fazem cara compungida para dizer que estão â??solidário com o povoâ? vítima de uma catástrofe provocada por â??causas naturaisâ?. â??Naturalâ?, segundo o Houaiss é o que existe ou acontece â??sem intervenção humanaâ?. Os políticos são os primeiros a incentivar o surgimento de favelas em áreas de risco. Deixam de fiscalizar a degradação do ambiente para não criar caso com eleitores; permitem a exploração imobiliária favorecidos pela propina. Voltando ao ponto, a presidente é obrigada a atrasar o início efetivo do seu governo. Tem que se preocupar com a ganância, a falta de respeito ao povo e de responsabilidade de políticos que só pensam nos seus interesses pessoais. E sem poder falar em â??herança malditaâ?. O autor do pragmatismo político jamais visto na história deste país, guarda um comovente silêncio há mais de vinte dias. Temas como inflação e o câmbio são prioritários e passam por cortes profundos no orçamento da União. Os parlamentares certamente vão resistir ao contingenciamento de verbas para seus currais eleitorais. Para uma mulher-presidente seria mais natural namorar homens, mas, o que o Brasil mais precisa no momento é de mulher-macho, capaz de dar murro na mesa e pontapé no traseiro dos marmanjos, se for preciso.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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