Tribuna do Leitor

AVISO AOS NAVEGANTES


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Por ocasião do trágico tsunami na Indonésia, ainda nesta década, sabe-se de previsões horas antes. Mesmo que não as houvesse pela tecnologia, animais saíam em disparada buscando os pontos mais altos. Faltou divulgação para evitar o pior, ou seja, vidas colhidas. Lembro-me que, por rádio, na "Voz do Brasil" (que ainda hoje ouço), evitavam-se desastres marítimos por causa da divulgação do "avisos aos navegantes". Ouvia os alertas sobre perigos, que levavam-me sempre a pensar nos que estavam em alto mar: pescadores, viajantes, tripulação. Minha vizinha, em altas vozes, invocava Nossa Senhora dos Navegantes, que ela protegesse os que estavam no mar. Num calorento domingo, um dos vizinhos - um praça - naufragara no rio Tietê durante uma pescaria. Seu corpo foi resgatado todo picado por piranhas, disseram-me. Pensei logo que deveria haver uma "Voz regional" para alertar pescadores e agricultores sobre os ventos e as chuvas e também crianças sobre se deveriam portar guarda-chuva quando saíssem para a escola.Hoje, a televisão principalmente, além da Internet, poderia fazer as vezes do "aviso aos navegantes". "Quantas vidas não poderiam ter sido salvas se, em vez colocar no ar o Ratinho ou o Big Brother, as emissoras tivessem avisado a população de que fortes chuvas estavam previstas para a serra fluminense na noite anterior à tragédia, com instruções dos poderes públicos sobre como agir." (Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, professor de Jornalismo Escola de Comunicação e Arte - Universidade de São Paulo) Interrompidas as programações, a população poderia, ser alertada e se safar rapidamente. Não salvaria suas casas, mas, pelo menos, suas vidas, a maioria delas. Além desse serviço de utilidade pública não prestado pela televisão e emissoras de rádio (será que alguém lhes solicitou?), o que tem feito os governos com os recursos que teoricamente deveriam ser destinados para obras de infraestrutura? Mais que tudo, a especulação imobiliária é responsável por empurrar a população pobre para sobreviver encostas acima, sem que o poder público faça um mínimo para garantir segurança e dignidade. As "reformas urbanas" quase sempre se fazem para favorecer os privilegiados de sempre em prejuízo da maioria da população que vai sendo afastada cada vez mais longe dos equipamentos públicos como escolas, hospitais, centros de saúde, locais de lazer... A custo os transportes públicos são implantados após mobilizações reivindicatórias. Ademais, não faltam os que culpam os pobres de "construir em locais proibidos e poluir os rios".É preciso também considerar que a maioria das catástrofes ambientais são provocadas pela ação predatória, pela poluição, pela irresponsabilidade ambiental (convenientemente ignorada por governos), como as mudanças climáticas, quase sempre provocadas por conglomerados empresariais. Denúncias sobre especulação imobiliária, irresponsabilidades de governos na prestação de serviços de infraestrutura e alertas sobre riscos iminentes deveriam substituir programas ridículos que tratam telespectadores como débeis mentais. (Iolanda Toshie Ide)

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