Todo começo de ano é assim: papelarias lotadas de crianças atrás de produtos atrativos com desenhos e cores. Juntos, estão os pais, que tentam frear o entusiasmo dos filhos que querem escolher cadernos, pastas e canetas estampados com seus personagens favoritos. E, do ponto de vista financeiro, eles têm razão pois, dentro da mesma papelaria em Bauru, a diferença de preço entre um produto pode variar até 476%, dependendo da marca.
O Jornal da Cidade fez a cotação de uma lista simples com três itens para exemplificar. Um lápis preto, um caderno brochurão de 96 folhas e um tubo de cola bastão pode custar ao consumidor de R$ 3,65 até R$ 17,40, o que representa variação de 476%. Isso no mesmo estabelecimento. O caderno, por exemplo, pode ser comprado por R$ 2,95 ou até R$ 12,95.
De acordo com os profissionais da área, marcas famosas e a licença para o uso de imagem de personagens populares entre as crianças, como os de desenho animado, são os fatores responsáveis por essa diferença nos preços. Márcia Anzolin Barreiros, proprietária de uma papelaria na zona sul, afirma que, na compra do material escolar, o barato pode sair caro devido à baixa qualidade de alguns produtos que acabam durando menos e precisam ser repostos ao longo do ano. Ela confirma, porém, que, na maioria dos casos, é possível economizar no valor total das compras, mesmo levando para casa produtos de alta qualidade.
"A caixa de 12 cores da marca mais badalada entre os lápis de cor pode sair por até R$ 13,00. No entanto, temos na loja uma marca importada com lápis que possuem uma resina em torno do grafite. Eles são mais resistentes e dificilmente quebram quando caem no chão. A caixa com 12 cores custa R$ 11,00", aponta.
Márcia explica que a diferença pode parecer pequena, mas em uma família com mais de duas crianças, a economia pode ajudar bastante no preço final das compras. Ela explica também que levar os filhos na hora de escolher o material escolar pode atrapalhar financeiramente. "Às vezes os pais planejam gastar determinado valor e desembolsam o dobro porque as crianças ficam encantadas com os produtos e escolhem sempre os mais caros", explica.
Maria de Fátima de Silva Reis é mãe de um menino de 8 anos e de 6 anos. Apesar de levar as crianças à papelaria, elas passam o tempo no setor de livros enquanto o material escolar é comprado. "Não tem condições de deixar elas escolher até porque a escola exige que os cadernos sejam todos encapados. Então não adianta levar as capas de bonecas ou de super-heróis", pondera.
Fátima afirma também que não sente muita diferença na qualidade dos produtos. "Já foi o tempo em que levávamos sempre os mais caros porque outros produtos não eram bons, mas a competitividade hoje em dia é muito alta, então esse problema diminuiu", explica.
Expectativa é que vendas cresçam 15%
Segundo Nilo Sérgio Alves Junior, gerente de uma papelaria do Centro de Bauru, o mercado no setor de materiais escolares está aquecido e as vendas devem crescer 15% em relação ao mesmo período que antecedeu o início das aulas no ano passado. "Nós já sentimos o aumento porque os pais começaram a comprar com antecedência. A cada ano que passa, o consumidor está mais alerta, pesquisando melhor os preços e o custo-benefício de cada produto", afirma.
Nilo destaca também as facilidades para o pagamento do material escolar, que pode ser dividido em até seis vezes no cartão de crédito. No entanto, os consumidores ouvidos pela reportagem afirmam que não querem se endividar por conta do material escolar. "Estou estudando a melhor opção, mas acredito que vou pagar de uma vez daqui a 30 dias", conta Denilça Araújo Leal.
Negociar com a criança é boa saída
Maria Eduarda Leal Dutra, 7 anos, foi comprar o material escolar para cursar o segundo ano do ensino funtamental na companhia da mãe, Denilça Araújo Leal. "Eu escolhi o caderno e os lápis que eu queria", contou a menina.
Denilça, porém, afirma que escolheu a maior parte dos itens da lista de material da filha. "Eu sempre prezo pela qualidade, mas a diferença de preços é muito grande por conta de coisas supérfluas. Dá até para agradar a criança com algumas coisas, mas tudo, é impossível", explicou.
Ela lembra também que a pesquisa de preços entre as lojas é muito importante. "Pedi o orçamento em três lugares. Escolhi o mais em conta e, ainda assim, pedi desconto para os itens que encontrei por um valor menor em outras lojas", relatou.
Silvia Murakami também levou os netos Maria Júlia Murakami Ribeiro Miranda, 7 anos, e Joaquim José de Miranda Neto, 4 anos, para comprar o material escolar. Segundo ela, a negociação com as crianças foi a solução para que os gastos não ultrapassassem o esperado. "Ele escolheu agenda e ela escolheu o caderno e a lancheira. Isso vai encarecer bastante a compra porque só a lancheira custa R$ 60,00, sendo que eu acharia por R$ 15,00, mas a gente já estabelece antes de sair de casa o que as crianças vão poder escolher", afirmou.
Proprietário de papelaria, Valmir Acielli lembra que o investimento no material escolar das crianças pode refletir também no desempenho de aprendizado. "É um dinheiro que se gasta apenas uma vez por ano, então acredito que não seja algo caro. Inclusive, os produtos mais caros são os que mais estão saindo. Chegaram fichários aqui que custavam mais de R$ 100,00 e não sobrou um para contar história", contou.
Consumidor deve ficar de olho
Durante operação de fiscalização realizada em 164 estabelecimentos comerciais na cidade de São Paulo nesta semana, a Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) identificou 66 irregularidades na venda de material escolar. Foram autuados 56 estabelecimentos que desrespeitaram o Código de Defesa do Consumidor.
Os principais problemas constatados na Capital paulista foram data de validade vencida, com 20 casos; imposição de limite de valor mínimo para aceite de cartões de débito e crédito, com 17 irregularidades; e ausência de informação sobre preço à vista, com 16 ocorrências. Os fornecedores vão responder processo administrativo e poderão pagar multas.
O Procon alerta também para a importância da comparação de preço entre estabelecimentos antes da compra do material escolar. Na cidade de São Paulo, a mesma marca de lápis preto pode custar de R$ 0,38 a R$ 1,00. Os consumidores da cidade de Bauru que foram ouvidos pela reportagem, porém, afirmam que, em suas pesquisas, constataram variação máxima de 20% no preço de mesmos produtos em papelarias diferentes.
?Operação Volta às Aulas? do Ipem autua lojas de uniformes escolares
Fiscais do Instituto de Pesos e Medidas do Estado de São Paulo (Ipem) autuaram 16 dos 47 estabelecimentos que comercializam uniformes escolares vistoriados durante a "Operação volta às aulas" anteontem na Capital e em várias cidades do Interior, inclusive em Bauru. Foram analisados 42.983 produtos, dos quais 800 foram considerados irregulares por não conterem as informações obrigatórias de acordo com o Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (INMetro).
Em Bauru foram autuadas duas lojas por problemas nas informações sobre cuidados para conservação do produto, informação do símbolo de alvejamento em desacordo com a norma, informação contraditória sobre tamanho. Uma loja fica na rua Monsenhor Anacleto, 4-79, Centro, e outra na rua Olegário Machado, 7-86, Vila Souto.
Empresas autuadas têm dez dias para apresentar defesa ao Ipem, que definirá multa que varia de R$ 100 a R$ 50 mil, dobrando na reincidência. O comerciante deve apresentar a nota fiscal do produto para que sejam identificados o fabricante ou distribuidor, caso contrário será considerado o único responsável pela irregularidade.