Geral

Entrevista da Semana: Nilton Carlos Busch

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min


A mistura de timidez com humildade contrasta com a carreira de sucesso e de responsabilidades do médico Nilton Carlos Busch. Aos 53 anos de idade, ele já conta com 30 anos de carreira, tempo cheio de histórias, realizações e boas lembranças.

Bauruense de nascimento e de coração, aos 22 anos de idade já recebia o diploma de medicina em São Paulo. Especialista em urologia, Nilton também fez MBA e diversas pós-graduações em universidades do exterior, como em Harvard, por exemplo. "Adoro viajar, seja a passeio ou estudos e procuro sempre levar minha família comigo".

E por falar em família, o entrevistado admite ser um pai coruja e vê no lar o seu grande incentivo. "Conheci minha esposa na primeira semana de faculdade e ela sempre esteve ao meu lado. Quanto a meus filhos, sou mesmo um pai coruja e tenho muito orgulho deles".

Na lista de suas realizações como profissional estão as diretas participações na construção do Hospital Unimed e do hospital de Piratininga. Ele, que foi presidente da Unimed Bauru, presidente da Federação Centro Oeste Paulista e vice-presidente estadual da Unimed, também fala sobre infância, viagens, problemas da saúde em Bauru, entre outros temas. Leia a seguir.

____________________

Jornal da Cidade - Normalmente, a vida pessoal e a profissional de médicos se fundem. Com o senhor também é assim?

Nilton Carlos Busch - Desde que me entendo por gente. Ainda criança eu já tinha o desejo de ser médico. Era algo que trazia em mim, sem influências. Sempre me vi na medicina, nunca em outra profissão. Então, aos 15 anos de idade eu fui para São Paulo terminar o Ensino Médio. Aos 16 anos eu comecei a cursar medicina e aos 22 anos já estava formado e me casei.

JC - O típico amor da faculdade que se transforma em casamento?

Nilton - (Risos) Isso mesmo. Conheci minha esposa na primeira semana da faculdade. Minha esposa é uma grande companheira, também dentro da minha carreira. Ela sempre me apoiou e esteve junto. Nunca reclamou que eu chegasse tarde em casa por causa da medicina, ao contrário, ela sempre me incentivou em tudo. Para você ter ideia, já na faculdade ela assistia às aulas comigo, embora não fizesse medicina.

JC - Você ficou quantos anos fora de Bauru?

Nilton - Morei fora por 13 anos entre estudos e o primeiro emprego em Santa Fé do Sul. Sempre tive uma ligação muito forte com a cidade e estava sempre querendo voltar. Naquela época era muito difícil conseguir entrar em um hospital. E no dia que consegui, larguei tudo e voltei. Voltar a Bauru foi como começar de novo. Abri mão de tudo o que eu já tinha conquistado: clínica particular, trabalho em hospitais...Eu estava muito bem lá, mas o desejo de voltar era maior.

JC - E qual foi seu primeiro trabalho na cidade?

Nilton - Foi na Secretaria do Estado da Saúde. Depois abri o consultório e devagar fui me estabelecendo em Bauru. Quando voltei, também comecei a trabalhar como auditor na Unimed. Fui participando dos conselhos e me envolvendo...Cheguei a ser presidente da Unimed e presidente da Federação Centro Oeste Paulista, uma federação regional. Também fui vice-presidente estadual. Então foram vinte anos como dirigente e há quatro anos me afastei das atividades.

JC - São 30 anos de dedicação à medicina.

Nilton - A medicina me completa, já que sempre me vi como médico. Tive um problema nas cordas vocais e precisei ser submetido a cirurgias. Durante vinte dias eu não pude falar, assim não pude atender o consultório. No dia em que voltei ao trabalho foi uma alegria interna imensa. Uma satisfação muito grande. Aqueles vinte dias longe do trabalho estavam me fazendo mal. Então, a medicina representa minha vida. Uma coisa importante para mim foi o fato de eu ter tido um envolvimento muito grande na construção do Hospital Unimed. Comecei do zero, desde a escolha do terreno até praticamente a inauguração. Quando saí, 98% da obra já estava concluída. Lembro-me que até com pneumonia eu participava das reuniões. Sinto um orgulho muito grande por ter participado diretamente da construção desse hospital. Nunca me acomodei, quando cheguei em Piratininga, assim que vim para Bauru, deparei-me com dois casos graves que não podiam ser tratados lá e havia uma burocracia muito grande para encaminhar a Bauru. Também me envolvi muito com a construção do hospital da cidade e só saí de lá quando tudo estava pronto. Embora essa obra tenha sido menor, as dificuldades foram maiores. Conseguimos equipar o hospital e fazer o primeiro parto.

JC - Qual é a maior "doença" da saúde de Bauru?

Nilton - Acho que posso destacar basicamente duas coisas: a atenção primária, já que existe uma demanda muito grande nos postos de socorro. E também a situação atual do Hospital de Base (HB), que é muito importante para Bauru. Eu acho que o Hospital Estadual é muito bom, mas isso depois que a pessoa consegue entrar nele. Mas esse acesso demora muito tempo. Conheço casos de pacientes que estão esperando há dois anos para começar um tratamento. É o tipo de atendimento, não estou criticando, mas é a situação. E o HB é importante porque ele atende uma demanda que não é atendida pelo HE. A Promotoria está cobrando um envolvimento maior do Estado e do Município nessa situação e acho que com razão. Então, o maior problema, hoje, é essa situação. Sem ajuda, as pessoas que estão lá não conseguem mudar as coisas. Deus me livre se o HB vier a fechar, seria o caos.

JC - Sua filha também é médica, certo?

Nilton - Sim. A Renata é cirurgiã plástica e optou pela medicina ainda menina. Desde bem pequena ela queria ir comigo ao hospital. Por duas vezes tive emergências e precisei deixá-la no corredor (risos). Já o Paulo é engenheiro elétrico, em São Paulo. Na época do vestibular eu vi que ele tinha um conflito. Percebi que ele gostava de engenharia, mas tinha o pai médico e a irmã na faculdade de medicina. Disse para ele prestar os dois e ver em qual passaria. Quando saiu o resultado da Unicamp e ele viu que havia passado, me acordou ainda de madrugada para contar. Quando o abracei, senti que ele estava gelado de emoção. E uma vez, quando fiz um curso em Harvard, tive a oportunidade de conversar com uma das maiores autoridades em tendências. Meus filhos estavam no Ensino Médio e aproveitei para perguntar qual era a profissão do futuro e ela me disse que a profissão do futuro é aquela que você faz com amor. Você precisa acordar de manhã e ficar feliz por ter de trabalhar e não acordar deprimido pela obrigação do ofício.

JC - Qual é a sua visão sobre a relação médico-paciente?

Nilton - Tive um professor cardiologista, o doutor Bento, que era muito humano. Ele tinha um carinho muito grande pelos pacientes e não gostava de dar notícias de falecimento às famílias. Quando ele estava de plantão, eu e os demais alunos fazíamos uma brincadeira com ele. Ele gostava de sortear nomes para dar a notícia do falecimento à família e nós colocávamos somente o nome dele nos papéis. Ele não percebia (risos). Coisa de estudante. Um dia ele teve um AVC e ficou praticamente sem poder conversar. Um amigo meu entrou na clínica desse professor e me disse que fazia de tudo, tratava, medicava...e os pacientes não melhoravam. Mas quando ele via os pacientes e apenas fazia um gesto com a cabeça, pronto. Já estavam melhor. Então, a confiança e o relacionamento humano são muito importantes. Dou meu celular para todos porque sei que quando o médico dá uma orientação, já ajuda o paciente, alivia seu problema.

JC - O trabalho e os estudos proporcionaram muitas viagens?

Nilton - Fiz especialização aqui e saí do País para fazer estágios, cursos, para ver algumas coisas não só na urologia, mas também em outras áreas. Eu tenho várias pós-graduações, MBA e outros cursos. Entre eles, eu fiz MBA em gestão de saúde na Pensilvânia, que é considerada a melhor MBA do mundo. Também fiz alguns cursos em Harvard, entre outras localidades. Além dos Estados Unidos, eu conheço a Itália, França, Inglaterra, Espanha, Portugal, e países da América do Sul, como Argentina e Paraguai.

JC - A família sempre o acompanha nas viagens?

Nilton - Procuro levá-los sempre. Gosto muito de viajar e acho importante você estar perto de quem ama. Nunca gostei de viajar sozinho. Certa vez fiquei um período fora para estudar. Chegava a noite e me dava saudade da minha família. Eu ficava olhando para o céu e pensando neles. Minha família é o foco da minha vida. Mesmo hoje com os filhos já adultos eu procuro unir todo mundo.

JC - Alguma viagem marcante?

Nilton - Minha filha e minha esposa já tinham ido para a França e meu filho estava de viagem marcada, então elas disseram para eu ir com ele. Foi muito bom porque não foi uma viagem apenas de pai e filho, mas sim uma experiência entre amigos. Da França fomos para a Inglaterra onde assistimos um jogo da Seleção Brasileira contra Portugal. Foi bem bacana. Recentemente fui a Washington com minha esposa e filha e foi bem legal também porque fui como acompanhante da Renata em um congresso. Foi marcante, como um pai que joga futebol pela primeira vez com o filho.

JC - Parece-me que você faz a linha do "pai coruja" (risos).

Nilton - (Risos) Bastante. Tenho muito orgulho dos meus filhos. Sou bastante ligado a eles.

JC - Também foi um bom filho?

Nilton - Minhas lembranças da infância são muito boas. Meus pais também foram muito próximos da gente, minha mãe sempre nos acompanhou. Eu brincava muito. Acho que hoje as coisas mudaram demais e os computadores e jogos eletrônicos afastaram as crianças daquela infância boa. Outro dia estava caminhando e vi um jipe motorizado. Na hora falei: nossa que bacana! Mas depois pensei bem e vi que isso não é bom, sabe. A criança entra em um carrinho, ele é motorizado, senta na frente de um computador... Às vezes está perto de três, quatro pessoas e fica no celular deixando a família de lado. Na minha época, não. Joguei muita bola, estudei bastante, brincava mesmo, subia em árvores...A família era muito grande, cheia de primos e a gente se divertia.

JC - Caminhar é um hobby?

Nilton - Pratico caminhada já há 13 anos. Antes eu jogava futebol, sempre gostei de esportes. Na faculdade, eu fui goleiro e praticamente construí o campo da Unimed. Eu ficava ligando para os colegas médicos e incentivando para montarmos times para jogar aos sábados. Mas com a idade a gente começa a se machucar e não dá mais. Então passei a caminhar.

JC - Projetos ou planos?

Nilton - A gente sempre tem planos na área profissional e no pessoal. Eu estou na fase de torcer pelo sucesso dos filhos. Outro dia também brinquei com eles que já está na hora de ter um neto (risos), mas acho que tenho que esperar um pouco mais...Sou um homem feliz com a família e o trabalho.

Comentários

Comentários