Política

Reconstrução do Haiti emperra por conta de indefinição política

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 9 min

Porto Príncipe - O futuro do Haiti depende da definição política de quem governará o país nos próximos cinco anos. Sem a escolha do novo presidente, não vêm os recursos internacionais para sua reconstrução. O povo dessa república do Mar do Caribe enfrentou de golpe de Estado, catástrofes naturais a epidemia do cólera. Esta semana, o país entrou em ebulição com o retorno do ex-ditador Jean-Claude Devalier, o "Baby Doc".

Um ano após o terremoto que atingiu o país, o jornalista Aurélio Alonso viajou para o Haiti pela Associação Paulista de Jornais (APJ) e Associação dos Jornais do Interior (ADI) a convite do Ministério da Defesa.

Ele confirmou que o Brasil tem um papel importante no comando da Minustah, missão de paz criada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas em 30 de abril de 2004 para restaurar a ordem no país, após um período de instabilidade com a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristides.

Antigo protetorado francês, o Haiti descoberto por Cristovão Colombo, parada estratégica dos corsários e piratas no século 17, atualmente é a nação mais miserável da América Central. Sob a proteção da ONU, a capital Porto Príncipe tem sua paisagem misturada a veículos e blindados militares com a inscrição "UN".

A aparência de tranquilidade desses dias é uma falsa sensação de que o país caminha para encontrar seu futuro. "Aqui tudo é volátil, quando menos se espera algo de ruim acontece", conta o coronel do 1.º Batalhão de Infantaria da Paz (Brabatti), Ronaldo Pierre Cavalcanti Lundgren.

Após um período de turbulência de domínio de gangues nas favelas, as tropas brasileira conseguiram a pacificação e controle dessas regiões. Mesmo assim, sete anos depois da fase mais aguda, veio a revelação de que telegramas trocados entre embaixadas americana e brasileira, revelados pelo Wikileaks, registraram que os Estados Unidos reprovaram a atitude dos brasileiros não serem "firmes" contra a onda de sequestro, assaltos e de crimes em geral.

Tanto americanos e quanto brasileiros negaram os tais despachos diplomáticos, mas a "maleabilidade" do exército brasileiro no comando da Minustah tem controlado e mantido pacificado agrupamentos urbanos em condições de miserabilidade.

A violência nas favelas diminuiu, porém os próprios militares admitem que essa simpatia do haitiano tem prazo para acabar.

Cabe ao haitiano resolver instabilidade


Após o período mais agudo de instabilidade constitucional entre 2004 e 2005, o terremoto de janeiro do ano passado e a epidemia de cólera de março tornaram-se os novos desafios a serem enfrentados na busca pela reconstrução haitiana. Mas os "tremores" da instabilidade política travam todos os projetos para reconstruir o país. O primeiro turno da eleição ainda não tem resultado oficial. Os dois candidatos mais votados foram Mirlande Marigat, ex primeira-dama, e o Jude Celestin. Houve recontagem de votos. O terceiro mais votado, o cantor Michel Martelly, deve disputar o segundo turno.

Se é possível tomar medidas para reduzir as consequências da pacificação e do enfrentamento do cólera, a indefinição política é o que mantém o período de tensão tanto para a ONU como para os organismos internacionais. Isso tem que ser resolvido pelos haitianos, o que trava o processo sucessório, informa uma fonte militar brasileira.

O mandato de René Préval termina em 7 de fevereiro, mas devido o adiamento do segundo turno, há na Constituição haitiana um dispositivo que possibilita permanecer até 14 de maio.

A volta do ex-ditador Jean-Claude "Baby Doc" Duvallier, no último domingo, deixou o Haiti sob expectativa. O coronel Lundgreen e o embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipman, garantem que não houve comunicado da chegada às autoridades e que o ex-presidente veio em voo regular com passaporte comum descendo no aeroporto local.

Mas na segunda-feira passada, as tropas da ONU ficaram de prontidão com blindados e soldados em vários pontos da cidade.

No dia seguinte, "Baby Doc" foi levado a um Tribunal de Justiça para ser ouvido em uma ação que apura corrupção e violação dos direitos humanos. Ele foi deposto há 25 anos por um levante popular, após uma ditadura violenta que reprimia a população pelos Tontem Macoute.

O comandante da Minustah, o general de brigada do exército brasileiro, Luiz Guilherme Paul Cruz, descarta qualquer possibilidade de levante popular com a volta do ex-ditador.

Quando o exército brasileiro chegou ao Haiti havia um confronto do Norte contra a capital, mas a intervenção da ONU conseguiu pacificar com a deposição do presidente Aristides.

Ele está exilado na África do Sul, mas enviou nota divulgada na imprensa local que, por motivo de saúde, quer voltar ao País.

Nesta semana, apesar do retorno de Baby Doc, o país viveu sua rotina: muitas pessoas desempregadas perambulando pelas ruas e uma economia informal enorme. Vende-se de tudo, de galinha a bugigangas.

A população convive bem com os soldados brasileiros. Há uma identificação com o futebol e com maneira cordial dos militares, pelo menos por enquanto.

Os críticos qualificam que o Haiti não está sob ocupação para manter tantos soldados nas ruas. O contingente brasileiro começou com 1.200 e já está em 2.200.

O general Paul Cruz alega que a função dos militares é só manter a segurança da população, sem interferência na política local. As manifestações de protesto que ocorrem, segundo ele, são normais.

No período eleitoral é que houve vários protestos, principalmente devido a demora na divulgação dos resultados oficiais do pleito.

Revezamento até para dormir

Neste mês completou um ano do terremoto de 7 graus na escala Richter que deixou 1,3 milhão pessoas sem casas. Os números no Haiti são relativos, porque os dados não são confiáveis. O total de mortes varia de 200 mil a 350 mil. Pelo menos 3,5 milhões foram atingidos.

O cataclismo matou milhares de funcionários públicos, em torno de 30% da burocracia do Estado, o que emperrou ainda mais a estrutura administrativa do Haiti, conta o general Paul Cruz.

Na definição da ONU são "deslocados internamente", na realidade desabrigados que ficaram sem casa por causa do sismo de magnitude forte para derrubar o Palácio do Governo, o Ministério das Finanças e praticamente arrasar toda a área central, onde concentrava lojas e comércio.

Com ajuda internacional os desabrigados foram acomodados em barracas. Um dos acampamentos tem cerca de 50 mil pessoas. Há barracas com 10 a 15 pessoas alojadas de uma mesma família. Para dormir tem que fazer revezamento.

Há até em frente do Palácio Nacional, sede do governo, que foi destruído pelo tremor de terra, um imenso acampamento montado com barracas, parte delas doadas pelo governo chinês.

As condições sanitárias não são das melhores, apesar de organizações de ajuda humanitária terem uma atuação forte na orientação e no combate ao cólera, epidemia que vem se alastrando e preocupando as autoridades sanitárias.

A força de Paz é composta não só de brasileiros, mas de soldados argentinos, chilenos, paraguaios, jordanianos, canadenses, bolivianos, equatorianos, americanos, franceses, guatemaltecos, filipinos, coreanos, Sri Lanka, uruguaios e do Nepal.

Para os haitianos, o cólera chegou pelos soldados nepaleses, hipótese essa descartada pelo embaixador brasileiro Igor Kipman. "A ONU fez exames e não constatou isso".

Os praticantes de vodu também foram acusados de disseminar o vírus. Houve pelo menos 40 mortes de monges desse tipo de seita, conta o embaixador Igor Kipmam.

Apesar de 90% se declararem cristãos, o vodu é muito praticado pela população. É uma espécie de sincretismo religioso.


General descarta volta de ditadura

O comandante da Minustah no Haiti, o general de brigada do Exército Brasileiro, Luiz Guilherme Paul Cruz, afirma que não vê qualquer possibilidade de que se instale uma nova ditadura no Haiti.

A declaração foi feita na última semana, após o ex-ditador Baby Doc voltar ao seu país.

"O esforço da comunidade internacional é o de facilitar ao governo haitiano o prosseguimento de sua democracia seguindo suas leis. Qualquer coisa que seja fora da legislação haitianas serão veemente repudiadas pela comunidade internacional", ressaltou Paul Cruz.

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Região do centro vira cidade fantasma à noite

O que sobrou dos escombros de prédios derrubados durante o terremoto transforma-se numa cidade fantasma à noite, com algumas raras lâmpadas acesas em meio ao breu.

Durante o dia, essa área é uma feira livre com amontoados de barracas com gente circulando, onde vende-se de tudo: de peça de carro, alimentos a bugigangas.

As tropas do Exército Brasileiro fazem patrulhas por 24 horas, principalmente no período noturno pelas ruas dessa área.

O Haiti fica no escuro depois das 18h. Falta iluminação pública na maior parte dos bairros mais pobres. O terremoto destruiu a termoelétrica e o país aguarda a construção de uma hidrelétrica, prometida com ajuda brasileira.

Quem tem posses possui gerador de energia, principalmente estabelecimentos comerciais. O setor próximo da avenida 15 de outubro tem alguns postes de luz, mas nas regiões periféricas o carvão serve para acender o fogão e iluminar as residências.

O cenário é assustador. Para percorrer a área, a reportagem foi acompanhada por escolta de militares, portando pesado capacete e colete. Apesar da situação controlada, o Exército não deixa jornalistas saírem sem o equipamento, a não ser que resolva sair por conta própria.

Na última quarta-feira, o local estava calmo. No meio de uma quadra escura encontrava-se um pequeno grupo de haitianos em frente de um televisor com um ponto de luz alimentado por bateria em um trailer.

Há 60 toneladas de escombros que ainda não foram removidos, segundo o embaixador brasileiro Igor Kipman. E isso já deveria ocorrido, mas enquanto não se define o novo governo não vem os recursos para os investimentos.

A falha geológica que causou os tremores de terra corta Porto Príncipe ao meio. Nem toda a cidade foi atingida, mas no epicentro os danos atingiram cerca de 3,5 milhões de pessoas.


?Cozinha do inferno? é o maior retrato da miséria


O mercado Le Salines virou espécie de cenário utilizado pela imprensa internacional para mostrar a miserabilidade do Haiti. Os militares brasileiros o apelidaram de "Cozinha do Inferno".

O mau cheiro é uma mistura de fezes de animais, pessoas e lixo que exala com muita força das barracas na zona portuária.

Durante o dia neste local há uma grande concentração de haitianos vendendo animais, verduras, restos de comida e outros tipos de mercadorias.

Em frente dessa área sempre há caminhonetes e pequenos ônibus sendo carregados: o retrato da extrema miséria. A economia do país se transformou num imenso camelódromo. Há mercados com boas instalações, postos de combustíveis e lojas concentradas na região mais próxima da avenida 15 de outubro, frequentada por uma minoria e pelos estrangeiros que prestam serviços à ONU e entidades humanitárias.

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