Economia & Negócios

Setor de eventos gera renda para igreja

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

A despeito de índices oficiais que demonstram evolução na renda do brasileiro, o número de cidadãos que vivenciam dificuldades econômicas no dia a dia está longe de ser pequeno. O problema reflete inclusive na igreja católica, que de forma contumaz vem estudando meios para melhorar a receita das paróquias, independentemente do auxílio dos fiéis. Nesta busca, a Igreja Santa Rita de Cássia em Bauru encontrou uma alternativa pioneira: arrendou o salão de festas da paróquia para um empresário do segmento de eventos.

A novidade, porém, desnuda outro contexto aparentemente antagônico, que abarca a realidade de famílias mais abastadas e menos preocupadas com o fôlego do orçamento até o final do mês. Especialmente graças a elas e à falta de investimentos no setor, faltam na cidade espaços adequados para a realização de festas e eventos. Para não perder oportunidades, empresários têm enxergado em salões de igrejas e clubes uma alternativa para ampliar ofertas - embora a alternativa exija reformas e investimentos iniciais.

No caso da Igreja Santa Rita, o arrendamento do salão foi condicionado a uma reforma completa do local e a um aluguel a ser pago mensalmente à igreja. Para o bispo dom Caetano Ferrari, a iniciativa é mesmo pioneira e vai em convergência com a proposta da igreja em se utilizar a "criatividade" para driblar as dificuldades financeiras. "O mundo urbano está cada vez mais desafiador. A igreja precisa usar a criatividade para buscar essas fontes de rendas alternativas e vencer esses desafios".

Ele conta que, na Capital do Estado, há várias igrejas que já fazem a locação de espaços que não são utilizados. "Em São Paulo, as igrejas alugam vários pátios que não usam para serem explorados como estacionamentos, por exemplo. É uma tendência buscar modos para completar a nossa renda. É isso que a Santa Rita está fazendo com essa parceria", revela.

Segundo o pároco da igreja envolvida na parceria, Agnaldo Pereira, o contrato firmado há cerca de dez dias é de cinco anos e renovável por mais cinco. Nas cláusulas concordadas, ficou estipulado que o espaço será inteiro reformado pelos empresários Leo Amantini e Niltom Silles de Freitas Júnior, os arrendatários em questão. Também ficou consignado que, além dos reparos, haverá o pagamento mensal de uma quantia variável. "Como o local será explorado comercialmente, o valor do aluguel vai variar de acordo com o número de locações que houver no determinado mês. Entretanto, ficou decidido que o valor mínimo é de R$ 2 mil", explica.


Redução dos dízimos?

O bispo dom Caetano Ferrari confirma que a situação financeira da igreja é problemática. Para ele, o fato acompanha a situação do País e, por isso, não pode ser solucionado tão facilmente.

Questionado sobre possível redução na doação do dízimo pelos fiéis como fator preponderante para essas dificuldades econômicas, o bispo não confirma a hipótese, justamente por revelar que a prática nunca foi bem incorporada pelos fieis.

"Antes, quando a pessoa batizava alguém ou pedia para rezar uma missa, era pago uma taxa por isso. Essa cobrança foi abolida pela Igreja no Concílio Vaticano 2, realizado entre 1962 e 65, justamente pelas críticas que a prática passou a receber. Diziam que era a venda do sacramento", relembra.

Assim, para equilibrar a perda dessa fonte de renda, a partir dessa época foi reimplantada a antiga prática do dízimo, porém, de acordo com dom Caetano Ferrari, os fiéis, ainda hoje, são resistentes em aderir ao costume. "O dízimo é algo muito antigo, que vem lá do Segundo Testamento. Porém, como foi reintroduzido depois dos anos 60, a população ainda resiste".

Para o bispo, além da resistência, há o problema da própria condição social do brasileiro, que ainda é precária, e aqueles que, mesmo progredindo economicamente, não colaboram com a igreja. "Existem muitos que são católicos só de ir e frequentar a missa. Porém, não participam e colaboram de verdade. Ajudam de vez em quando somente".

Assim, com todos esses fatores, atrelados ao aumento de preços anual de todos os setores, o bispo dom Caetano Ferrari complementa que a saída é realmente buscar fontes alternativas. "O dízimo ainda está longe de ser suficiente para manter a igreja. Por isso, sempre fizemos promoções como quermesses e rifas. Agora é a maneira de usar cada vez mais medidas criativas. Locar espaços é uma delas. A primeira finalidade desses locais é religiosa, porém, uma vez que não são usados, podem ser alugados para melhorar a renda", completa o bispo, apontando o caminho inclusive para igrejas menores e periféricas na cidade.

Comentários

Comentários