Internacional

Embaixador admite demora na reconstrução do Haiti

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 5 min
Porto Príncipe - Um ano depois do terremoto, há restos de escombros nas ruas, principalmente na área central do Haiti. Há em torno de 60 milhões de toneladas de entulhos que precisam ser removidas. O embaixador brasileiro no Haiti, Igor Kapman, admite que ainda vai demorar alguns anos para o que restou dos prédios ser retirado das áreas atingidas. O Conselho Eleitoral Provisório (CEP) declarou que disputariam o segundo turno a candidata oposicionista Mirlande Manigat e o governista Jude Célestin, no entanto, a margem de votos que separou Célestin do terceiro lugar, o oposicionista Michel Martelly foi muito pequena, o que suscitou suspeitas de fraude. Relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA) recomendou que o candidato governista fosse excluído do segundo turno. No meio da turbulência, teve a volta do ex-ditador Jean-Claude Duvalier, o "Baby Doc". Kipman recebeu uma comitiva de jornalistas na embaixada, com participação da Associação Paulista de Jornais (APJ) e Associação dos Diários do Interior (ADI).

Pergunta - Por que a cidade permanece exatamente igual depois do terremoto ainda com escombros, desabrigados e gente passando fome. A ajuda não tem sido na mesma velocidade?Igor Kapman - Pode não andar na velocidade que a gente e os haitianos gostariam. A quantidade de escombros está estimada em 60 milhões de toneladas. Mesmo com a retirada de alguns milhões de toneladas, continua aparecendo como se fosse quando ocorreu o terremoto. Quem reside aqui, vendo diariamente as pessoas retirando os escombros, sabe que isso não é verdade. Esses 60 milhões toneladas de escombros ainda vão levar alguns anos para ser retirados. O que mudou menos foi o saneamento: não houve avanço. Nos acampamentos, com as pessoas alojadas em barracas, até se vê uma melhora, mas em geral não. As pessoas dispõem de água potável, o que não tinham em suas casas antes do terremoto. A catástrofe, como disse o ministro Celso Amorim, é de proporções bíblicas. O próprio ex-presidente americano Bill Clinton mencionou há poucos dias que mesmo Miami atingida pelo furacão Emely em 1992, um ano depois, ainda tinham muitas casas destruídas e muito para ser feito, apesar de todo os recursos que os Estados Unidos têm. Pergunta - O que Brasil acrescentou na paz?Kapman - O Brasil tem uma participação mais visível porque os nossos militares estão com os uniformes da Minustah e com a bandeira no braço. Isso chama mais atenção na rua e na imprensa. Antes do terremoto, havia 30 projetos de cooperação técnica e entrou outro componente técnico: a área de saúde. O presidente Lula destinou R$ 135 milhões para ajuda em saúde. Assinamos apoio triparte com os cubanos, há brigada de médicos de 1.400 profissionais de saúde. Parte desse dinheiro teve de ser destinado no combate ao cólera.Pergunta - A demora das eleições coloca em jogo a estabilização política. Há chance do ex-ditador "Baby Doc" disputar o pleito?Kapman - Para o atual processo eleitoral não é possível Duvallier participar, porque houve um processo de inscrição de candidatura ? se não se inscreveu não foi candidato. Então, para esta eleição não há a mínima possibilidade. Não creio em clima para instabilidade com a presença do "Baby Doc". Pergunta - O atraso no segundo turno pode conturbar o quadro sucessório?Kapman - Estamos estimando segundo turno em 20 de março. A chegada de Duvallier causa frisson nas ruas. Há sempre essa saudade do governo dele, as pessoas têm a perspectiva de que havia energia elétrica e segurança naquela época. A fixação do novo calendário eleitoral com os prazos para segundo turno e posse presidencial devem acalmar os ânimos.Pergunta - O haitiano não pode perder a paciência com essa indefinição?Kapman - Não, o povo haitiano tem uma característica marcante de ser paciente, muito resistente, não acredito que ocorra recrudescimento. O atraso na definição da sucessão realmente prejudica o andamento de todos os projetos, Tenho observado os resultados preliminares e a única coisa que continua caminhando numa boa coordenação e num bom ritmo é o combate ao cólera. Quanto ao resto existe ansiedade tanto do povo haitiano como a da comunidade internacional com relação a evolução desse processo eleitoral. Enquanto isso não se resolve tudo fica em ponto morto. Os doadores ficam aguardando quem vai gerir esses recursos, prometidos em março do ano passado em Nova York. Pergunta - Esse atraso vai forçar a prorrogação do atual mandato do presidente René Preval. O relatório da OEA apontou que o candidato governista, segundo colocado, sai fora da disputa na recontagem dos votos, beneficiando o terceiro mais votado. Isso não deixará mais confuso o quadro eleitoral?Kapman -Não, a Constituição do Haiti tem duas leituras sobre o mandato do atual presidente: a data é 7 de fevereiro e a segunda é que o mandato dele é de cinco anos. Como ele tomou posse em 14 de maio, à luz da Constituição tem direito de ficar até 14 de maio, não é prorrogação. O segundo aspecto, não é novidade atraso de eleições no Haiti. Isso é recorrente aqui. Em 2005, as eleições foram prorrogado quatro vezes. Hoje não tem Câmara dos Deputados, já expiraram os mandatos, só tem parcialmente a composição do Senado. Antes de terminar o mandato, Préval submeteu ao Congresso uma lei que permite ficar o tempo que for necessário até 14 de maio. Esse dispositivo faculta até o processo eleitoral se concluir para fazer a passagem a um presidente eleito. A OEA fez recomendações, aplicou metodologia para definir o impasse no primeiro turno. Não vejo motivo de instabilidade para ocorrer a curto prazo.
Pergunta - Há risco de ser anulada a eleição?Kapman - Pode ser, é uma possibilidade diante dos percalços devido a opiniões divergentes. Se isso ocorrer abre novas inscrições para candidaturas. Há possibilidade, mas isso é remoto.* O jornalista Aurélio Alonso viajou ao Haiti pela Associação Paulista de Jornais (APJ) e Associação dos Jornais do Interior (ADI) a convite do Ministério da Defesa.

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