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Os anjos da morte

Ney Vilela
| Tempo de leitura: 3 min
Em julho de 1955, dois gênios, Bertrand Russell e Albert Einstein, lançaram um apelo aos povos do mundo: tratava-se de deixar de lado rivalidades, preconceitos e idiossincrasias para encarar um dilema fundamental sob a visão “exclusiva de membros de uma espécie biológica que traz consigo uma história extraordinária e cujo desaparecimento ninguém pode desejar”. Qual é esse dilema? Segundo Einstein e Russel, trata-se de “algo claro, aterrador e incontornável: poremos fim à espécie humana ou a humanidade renunciará à guerra?” Parece-me evidente que a humanidade não renunciou à guerra. E é evidente que a potência hegemônica, os EUA, se dá o direito de fazer a guerra, sem se preocupar com a ONU ou as leis internacionais, ao mesmo tempo em que exigem que todos os países do planeta sejam submissos ao direito internacional e cumpram todos os tratados e regras da ordem mundial. Do ponto de vista moral, devemos aplicar a nós mesmos critérios iguais (ou até mais rígidos) aos que aplicamos aos outros. Por conclusão, se os EUA fazem a guerra não podem vetá-la aos outros países. Barack Obama mudou o discurso agressivo das eras de Bush e Reagan, mas não alterou as ações estratégicas e militares do Pentágono. Persistindo as tendências atuais, seremos vítimas de um retorno à corrida armamentista nuclear envolvendo sistemas balísticos intercontinentais e um espesso escudo de mísseis antimísseis que serve de prólogo de uma guerra nuclear acidental. Os EUA estão atulhando o planeta com tantas ogivas e sistemas de alerta que um alarme falso e uma Armageddon consequente são quase inevitáveis. A opinião pública já percebeu a necessidade de lutar contra o aquecimento global, mas não está sensibilizada para a necessidade de eliminar as armas nucleares. É curioso observar que é infinitamente mais barato acabar com essas armas do que controlar as emissões de gases estufa. E é fácil constatar que os resultados catastróficos da guerra nuclear global excederiam espetacularmente os custos da mudança climática progressiva, pois o estrago provocado seria instantâneo e não pode ser mitigado. E, suprema ironia: a opinião pública pode eliminar a ameaça de guerra nuclear global, mas só podemos reduzir parte da força das mudanças climáticas. Qual o caminho para tirar o planeta da insana corrida nuclear? O primeiro passo foi sugerido por Mohamed ElBaradei, então chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). ElBaradei sugeriu que toda a produção e processamento de material utilizável em armas nucleares fossem restritos “exclusivamente a instalações sob controle internacional”. Por essa sugestão, ElBaradei ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 2005; foi esse também o motivo que levou à derrubada de ElBaradei do cargo de presidenta da AIEA... O segundo passo é fazer valer uma resolução da ONU, do ano de 1993, propondo o Tratado de Corte de Produção de Material Físsil, capaz de limitar e tornar públicos todos os estoques de material físsil e servir de ponto de partida para as futuras reduções de armas. Por fim, o terceiro passo é se exigir que os Estados eliminem as armas nucleares. Os discursos de Obama, enquanto não acompanhados de ações pacifistas, são cínico encobrimento de que os EUA, ao lado de nações imperialistas como a Rússia, Israel e o Reino Unido e de nações fora da lei como o Irã e Coreia do Norte, compõe o coro de anjos da morte que está pronto a fazer soar as trombetas do apocalipse nuclear. A comunidade planetária precisa acordar para essa realidade. (O autor, Ney Vilela, é coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela)

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