Conforme a idade vem chegando, é normal a gente olhar para o céu mais desconfiado e preocupado. Eu sempre achei que o de Bauru é maravilhoso, mas também tenho notado um fenômeno assustador na atmosfera local: a diversidade de céus na época das chuvas. Não que eu tenha muita experiência de observação, mas estou certo de que nunca vi tantas formas e matizes diferentes na iminência das tempestades. Dias atrás, havia uma única e estranhíssima nuvem preta em meio às outras, fina e contínua, como a cortar o céu da cidade de fora a fora (bem em cima da já traumatizada avenida Nações Unidas). No temporal do dia 30 de novembro, dava para ver de Agudos as nuvens carregadíssimas sobre Bauru, de um preto que eu nunca havia visto. Aliás, definitivamente, a cidade está na lista das nuvens negras. O céu pode estar desabando sobre Bauru, mas as vizinhas ? pelo menos a já citada, onde mora meu amor ? ficam apenas com as chuvas mais inocentes. Como se sabe, o referido temporal caiu mesmo, embora minha correta previsão a tenha subestimado um pouco: acabei preso no ônibus no viaduto da Duque sobre a Rondon, e desmoralizado após dizer à moça assustada ao meu lado que aquela era, naturalmente, uma "chuvinha de verão" (de fato, não passou disso em Agudos). Não bastasse a preferência das nuvens pela nossa terra branca, essas tempestades andam cada vez mais imprevisíveis. Num dia, o temporal se arma de repente e pega até as sombrinhas de sol desprevenidas; no outro, o céu anuncia um dilúvio de forma tão convincente que, como disse alguém, os buracos já vão se abrindo nas ruas sem que tenha caído uma gota de água. A única explicação plausível para essa maré de azar bauruense é a nova ? e polêmica ? teoria segundo a qual a cidade, não se sabe por que razão, estaria no epicentro do já consensual aquecimento global.Mas a mais recente anormalidade grave que se percebeu no espaço aéreo de Bauru era muito esquisita demais da conta. Eu não estava lá, mas minha querida jura que viu: era uma nuvem muito mais escura e densa, com uma base misteriosamente vertical. Não demorou para a incredulidade dos olhos ficar mais carregada, até que ela teve certeza: aquilo não era nuvem coisa nenhuma, mas fumaça. E onde há fumaça, há fogo (ou "afogo", como diria ela, que é alérgica). Tendo chegado ao destino em Bauru, foi logo pedindo mais informações sobre o ocorrido, ao que soube que um trem havia explodido. Mais tarde, ela viu no jornal que, na verdade, um vagão de trem cheio de combustível havia descarrilado e o líquido, vazado até um córrego, o que acabou numa terrível explosão a centenas de metros do local do acidente, nas proximidades de uma rodovia. A explosão deixou algumas pessoas (motoristas na maioria) seriamente feridas. Diante disso, é normal querer saber os motivos. E, no caso de acidente de trem, sempre vem à mente o excesso de carga de trabalho do maquinista ou a precária manutenção da via férrea. Mas a empresa que administra a ferrovia disse, para a surpresa de todos, que foi a chuva. E a gente achando que estava enganado quanto à nuvem esquisita. O fato é que Bauru deixou de ser um importante entroncamento ferroviário e se tornou um grande entroncamento pluvial. (O autor, Mateus do Amaral, é colaborador do JC)
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