A energia sempre foi vital para a civilização e toda história da humanidade pode ser vista através dela. Durante 99,9% da existência humana, as sociedades foram nômades; o homem dependia de sua própria energia para subsistir numa vida de muita escassez, caçando e se servindo de animais mortos. Esta si-tuação foi amenizada quando se descobriu como produzir e controlar o fogo, mesmo assim, análises dos ossos de nossos ancestrais mostram evidências de enorme desgaste, causado pelo peso esmagador da sobrevivência diária. Após a última era glacial, há cerca de dez mil anos, descobrimos a agricultura e domesticamos animais, elevando nossa produção de energia e abrindo espaço para a fundação das primeiras cidades. Depois da descoberta do fogo, a segunda grande revolução na história humana aconteceu há pouco mais de trezentos anos: com a chegada da máquina a vapor, o homem aprendeu a produzir energia a partir do fogo. Pôde, então, transportar centenas de passageiros por milhares de quilômetros, arar campos inteiros, atravessar, rapidamente, continentes, construir arranha-céus, ir à Lua. Com a população ainda crescendo e buscando as facilidades propiciadas pela tecnologia, sempre aliadas a um voraz apetite por eletricidade e potência, nossas necessidades de energia aumentaram vertiginosamente e nosso suprimento está sendo levado ao limite. Em uma das minhas aulas, ao discutirmos esse tema, um aluno perguntou: é possÃvel extrair energia do nada? Desde o século VIII o homem tenta viabilizar máquinas de moto-perpétuo ou que funcionem para sempre sem qualquer perda de energia. Invariavelmente se provou que tais máquinas eram fraudes. Mas estas idealizações ajudaram a postular duas das três leis da Termodinâmica. A Primeira diz que a energia não pode ser criada ou destruÃda, ela se conserva. A Segunda, ao impor uma direção para a transformação de energia, afirma que sempre que a transformação ocorre a energia fica menos disponÃvel ou parte dela se perde. Se compararmos isso a um jogo com o objetivo de extrair energia, eu diria que este jogo tem as seguintes regras: primeira, não se pode tirar energia do nada e segunda, não pode haver empate. No entanto, um gênio excêntrico do século XX, Nikola Tesla (1856 â?" 1943), auxiliar e depois rival de Thomas Edison, propôs algo chamado energia do ponto zero, isto é, aventava que o vácuo tinha quantidades incalculáveis de energia. O vácuo, ao invés de vazio, seria o maior de todos os depósitos de energia. Evidentemente, Tesla não pôde provar sua ilação que ressurgiu quando os cientistas analisaram os dados da sonda WMAP (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe), lançada pela Nasa em 2001 encarregada de estudar o espaço profundo. Eles chegaram à espantosa conclusão de que 73% do universo é feito de energia escura. Isto significa que o maior reservatório de energia do universo é o vácuo e ela é tão colossal que está vencendo a gravidade e separando as galáxias uma das outras. Embora ainda não saibamos como calcular a quantidade dessa â??energia do nadaâ?, muito menos se é possÃvel utilizá-la; embora nenhuma teoria ainda possa explicá-la, as evidências experimentais de sua existência estão na nossa cara. A energia escura está por toda parte, é uma entidade sem forma e de baixÃssima densidade, uma nova espécie de éter. Tudo isto, na verdade, mostra que estamos nas trevas, porque além da energia escura, no universo existe a matéria exótica escura participando com 23% de sua composição total. Nossos humildes prótons e elétrons, da matéria que conseguimos ver, representam apenas 4%. Sendo assim, chegamos à revelação mais chocante da cosmologia moderna: 96% da composição material do universo é desconhecida! Depois de contar esta história toda ao aluno, finalizei-a parafraseando J. B. S. Haldane (1892 â?" 1964): hoje seria um absurdo responder afirmativamente à sua pergunta; talvez amanhã alguém diga que isto é interessante, mas despropositado; num futuro não muito longÃnquo, alguém talvez possa afirmar que isto sempre foi possÃvel. (O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru)
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