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A fila nossa de cada dia

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min
Detesto fila, mesmo que me argumentem que ela tem uma função social ou nos permite conhecer a psicologia das multidões. Reconheço que pode até servir para harmonizar as relações cotidianas. Que me desculpem, mas esperar em fila indiana só pode ser programa de índio, a despeito das discussões sociológicas ou metafísicas que possa suscitar. Tenho privilégios por causa da idade. Posso ser atendido com prioridade no guichê destinado aos idosos, incapacitados e mulheres grávidas, lactantes ou com criança no colo. Suprema humilhação. Quando tento usar esse direito fico estressado. Primeiro porque me sinto jovem (argh). Segundo porque os velhos na minha frente demoram muito nos guichês. Vão aos bancos com um pacote de faturas para pagar. A angústia da espera me dá a sensação de que já morri. Notei que os idosos ainda pagam despesas de filhos e netos, com o dinheiro da aposentadoria. Na agência do Banco do Brasil a moça me dá a senha de "atendimento prioritário". Vejo pessoas jovens, vendendo saúde, sendo atendidas antes de mim, embora tenham chegado depois. Peço à moça do caixa que me explique a lógica dessa "prioridade". Ela responde com uma certeza cartesiana que a fila dos velhos não tem nada a ver com a fila dos "não velhos". É o momento em que me considero um decrépito por não entender esse argumento que, para a funcionária parece tão claro. No dia seguinte peço na recepção uma senha para a fila dos velhos e outra para a fila dos normais. A que me chamar primeiro... "Não pode" - diz a recepcionista me olhando como alguém que quer furar a fila, dar uma de espertinho. En-tendo a fila como uma coisa justa, límpida, um depois do outro por ordem de chegada. No metrô de São Paulo uma senhora gorda, maciça, bem na minha frente na plataforma não quis embarcar quando chegou à porta do trem. Segurou a fila inteira, o trem foi embora e ela ficou na linha amarela em primeiro lugar para pegar o próximo, com assento praticamente garantido. O instituto da senha hoje se generalizou. Até na fila da carne no supermercado usa-se senha. Quem for chamado e estiver, naquele momento, caçando outra oferta perde o lugar e terá que recomeçar com nova senha. Regra terrível. Mesmo que o seu número seja 524 e esteja o balconista no atendimento 508, ninguém se atreve a arredar pé. A senha é uma fila única abstrata. É uma fila digital, diferente da fila analógica onde o domínio físico do espaço é imprescindível, como aquela do metrô. Quem estaciona esperançoso o carrinho de supermercado diante de um guichê com apenas um usuário e sua meia-dúzia de itens, corre o risco de ficar parado porque o saco de pão do freguês está sem o código de barras. Enquanto a fila ao seu lado anda a passos largos você tem que esperar que uma funcionária acuda ao sinal de luz, vá até a padaria, pese o pão e providencie uma etiqueta. É genial a utilização de moças com patins e capacetes de proteção para rapidificar esse serviço. Nos Estados Unidos vi o uso de patinetes elétricos porque os sindicatos querem indenizações para as calorias despendidas a mais, pelos deslizantes funcionários.

A pior fila deve ser aquela das mães para conseguir uma vaga na escola para os filhos. Dia e noite, sob sol e chuva. Fez ressurgir a profissão do filista que eu não via desde os tempos do INPS. O sujeito cobra até 300 reais para guardar lugar na fila. Trata-se um profissional organizado: tem guarda-sol, cadeira de praia, barraca com colchonete, garrafas térmicas, radinho de pilha e todo o tempo necessário. Paradoxal é a espera no Pronto Socorro. Dezenas de pessoas na fila para cuidar da saúde e o médico que deveria curá-los não veio porque ficou doente. Fila de Aeroporto. A gente se sente uma barata kafkiana com um bilhete na mão que custou tão caro. Deve ser por isso que em Portugal a fila é chamada de "bicha". Uma lombriga serpenteante. Em Lisboa, com pouco dinheiro depois de um périplo europeu tive que entrar na "bicha do cacetinho". Cacetinho é como os nossos patrícios queridos chamam o filãozinho vendido pela padaria. Se o cidadão da frente, entretido com o celular não vê que a fila avançou é atropelado como se houvesse o risco de um aventureiro desonesto ocupar a vaga imaginária. Se o gajo demora a andar lá na ponta, o corpo da fila avança assim mesmo, amontoando-se. As pessoas ficam ansiosas por se sentirem mais perto do fim. Pois é... Foi numa fila de banco que encontrei tempo para me lembrar dessas bobagens todas. (O autor,Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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