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Basquete: Guerrinha festeja ano, mas teme futuro

Wagner Teodoro Com Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 13 min

Com o Bauru Basket prestes a completar três anos de atividade, o técnico Guerrinha, em entrevista ao Jornal da Cidade, fez um balanço do ano de 2010 da equipe, abordou as incertezas pelas quais o time passa, como a indefinição de ginásio ? o atual utilizado pela equipe, o da Luso, foi vendido junto com a sede social da entidade e o único com estrutura e capacidade para abrigar jogos de basquete, a Panela de Pressão, precisa ser reformado e ter resolvido um impasse jurídico entre Prefeitura e Noroeste.

Guerrinha também abordou a falta de maior apoio local ao time, culminando com a dependência excessiva do patrocínio da Itabom. O treinador projetou, ainda, a temporada 2011 do time, comemorando a evolução do projeto em quadra e com o projeto social, além de fazer um alerta pela mobilização da cidade no intuito de permitir a continuidade do trabalho realizado até agora. Confira a seguir os principais trechos da conversa:

JC ? Qual análise você faz do ano do Bauru Basket?

Guerrinha - Vamos entrar no quarto ano de vida. E a cada ano o basquete brasileiro vem evoluindo, os times estão se reforçando, tendo maior investimento, trazendo mais jogadores de fora. Tanto é que o All Star Game do NBB terá praticamente toda a Seleção Brasileira, tirando os da NBA. Todos estão trazendo bons estrangeiros. Dentro de tudo isso, às vezes, você fica em terceiro em um campeonato, mas está no limite do limite. Nós ficamos em sexto no Paulista 2010, mas em um momento em que tivemos contusões.

JC ? O time perdeu jogadores fundamentais em momentos decisivos...

Guerrinha - Se a gente disputasse o último mês como estávamos quando jogamos em Brasília e Uberlândia, teríamos chegado à final e sido campeão paulista. A gente tem um elenco mais reduzido e tivemos 40 dias fora o Douglas e 30 dias o Larry. O Jeff ficou fora de dois jogos importantíssimos, o Paulistano, lá, e Limeira, aqui. Jogamos sem pivô na hora do jogo X. Nosso time a gente mede de outra forma. Às vezes, não mede as colocações, mas vê que o time está mais encorpado, respeitado. Vê que o nosso time no NBB, no ano retrasado, teve uma vitória fora de casa no final. Ano passado já tivemos três grandes vitórias fora de casa contra adversários fortíssimos (Joinville, Pinheiros e Uberlândia), que vão estar entre os oito.

JC ? O time sentiu o desgaste de disputar o Paulista e NBB simultaneamente?

Guerrinha ? Infelizmente, estamos sofrendo igual aos paulistas. Nesta fase do NBB estamos disputando dois campeonatos (Paulista e Nacional). Quem não tem um elenco sobrando sofre. São José está sofrendo, nós, Limeira, Pinheiros, que está priorizando o Paulista. Então, acho que, neste quadro, o balanço deste ano é altamente positivo. A gente está ganhando a cada ano mais respeito, mais espaço.

JC ? Quais as perspectivas para 2011?

Guerrinha ? Já temos que começar a pensar em junho. Estaremos sem ginásio e o Pedro (Poli, empresário e presidente do Itabom/Bauru) segurando tudo isso (o patrocínio necessário ao time). Hoje, o Pedro é muito mais importante do que o Larry. É o Pedro fora da quadra e o Larry dentro da quadra. Quando o Larry se machucou, o time sentiu bastante. Mas o Pedro é o cara. Ele está segurando tudo, chamou a responsabilidade para ele. Estamos em uma dependência muito grande aí, de ver como vai ser o basquete neste sentido.

JC ? São muitos os desafios e o tempo é curto...

Guerrinha - Depois de três anos de sucesso, de sair do zero, estamos jogando de igual para igual com todo mundo fora de casa e dentro. Mas se não tiver algumas mudanças aí... Podemos ter em junho o Pedro falando ?eu continuo?, se o prefeito (Rodrigo Agostinho) em dois, três meses reformar o ginásio e, em junho, a gente ter ginásio. Aí está beleza. Mas quantas coisas que a gente tem para não dar certo?

JC ? Qual seria a solução?

Guerrinha ? Tem que ter uma mobilização da cidade. Para quem quer o esporte, para quem quer ver o basquete continuar. A gente já está no meio desde os 15 anos. Estou (no basquete) há 36 anos. Quem perde é a cidade, depois quem perde mais é o técnico, principalmente um técnico como eu, o Hudson (Previdello, assistente técnico de Guerrinha), a comissão técnica, que está comprometida com o projeto, morando em Bauru, vivendo em Bauru.

A gente não está de passagem. Para o jogador é mais tranquilo, porque hoje está aqui, no outro ano já está em outro time e vai embora. E perde-se um trabalho de três anos, que é um trabalho coletivo. Faltam dois jogadores do nível do Murilo, um ala e um pivô, para disputarmos títulos brincando. Mas quem perde mesmo é a cidade, a comunidade. Se o basquete acabar agora em Bauru, dificilmente volta. Hoje está em um momento que tem a vaga na Liga (Nacional), tem no Paulista, está tudo certinho, fácil de resolver. Mas as coisas precisam acontecer em três meses. Se em março não tiver nada definido, no final de maio é outra temporada já.

JC ? Mobilização em que sentido?

Guerrinha ? De todos. Da imprensa cobrando o ginásio, vendo com o Pedro quais são os planos para o time. Dos patrocinadores da cidade. Estamos vendendo (cotas) aprovados na Lei de Incentivo Fiscal e tendo captação pequena. Tem quantas empresas que a Prefeitura ajudou, que a gente sabe, que nem sequer atendem a gente. E podem participar na Lei de Incentivo. Em vez de dar dinheiro para o Governo Federal, faz esporte, basquete ou qualquer outro esporte.

Na parte social, o quanto vai melhorar? Quantas crianças o projeto pode acompanhar mais? A gente tendo um ginásio maior, com 3.500 lugares, pode reservar mil lugares para levar crianças da cidade, dos projetos, todo jogo. Ainda sobram 2.500 lugares para o restante do público. Então, é questão de mobilização. Todo mundo é responsável. Não é simplesmente a gente chorar quando chegar maio. É agora. Já perdemos dois meses. O ginásio já tinha que ter sido decidido em novembro e algumas coisas em dezembro. A gente sabe que as coisas acontecem depois do Carnaval no País. Estou muito feliz por tudo que conseguimos até agora, a mobilização, a participação. Fico emocionado em todos os lugares que vou quando as pessoas dão os parabéns pelo trabalho. A gente sente que o pessoal que participa, que acompanha mesmo tendo um ginásio pequeno, fala ?olha, parabéns pelo trabalho, a forma como vocês defendem Bauru, como vocês evoluíram e tal?. É aquele sentimento legal, mas ao mesmo tempo a gente fica triste de ver que isso pode acabar se não tiver uma reviravolta muito grande em muitas coisas, e rápido.

JC ? Vocês já chegaram a pensar em um plano B caso o impasse da Panela de Pressão não se resolva?

Guerrinha - A diretoria atual decidiu o seguinte: não quer sair de Bauru. Existe a possibilidade de chegar em junho e não ter ginásio e a gente fazer igual Araraquara, a equipe de Bauru jogar em Marília, em Jaú ou onde a gente ver que pode jogar, que tem ginásio. Botucatu, Assis, Matão... Onde a gente vai treinar em Bauru? Qual quadra que tem para treinar? A única quadra é da USP, mas a USP não pode emprestar por muito tempo para um esporte. A gente precisa de quadra duas horas de manhã, duas horas à tarde, mais academia para manter o nível. É time novo, precisa treinar... Como é que você vai jogar em Marília e viver aqui?

A diretoria não quer mudar o nome e não quer sair de Bauru, mas muitas coisas precisam ser resolvidas. A primeira coisa, o ginásio. Segunda coisa, algumas empresas maiores ajudarem a Itabom, porque fica muito pesado para um só ser master. Temos a participação de algumas empresas, mas em cotas menores, que dariam metade do time, eu diria assim 40% do time, mas os outros 60% ficando para a Itabom muito tempo fica pesado. Mais os Amigos do Basquete. Tendo o ginásio novo - hoje temos 150 cadeiras - poderemos ter 500 cadeiras e é mais uma forma de sustentação. Não entendemos porque a Prefeitura até hoje não paga pelo menos a arbitragem. Em toda cidade eles pagam tudo, a logística. Você viu o prefeito de Franca ter falado aí que vai tirar R$ 300 mil do basquete. Olha o tanto que o cara participa, além de dar o ginásio. O Magazine Luiza, junto com o prefeito, mobilizaram a Vivo, a Amazonas...

JC ? Como o Poder Público municipal poderia contribuir mais?

Guerrinha - O prefeito tem uma ação política muito grande. Quantos shoppings estão chegando em Bauru? Será que se o prefeito chegar lá e falar eu quero isso, para isso, será que não tem uma contrapartida? É melhor do que o Guerrinha ir lá pedir, porque ele (prefeito) tem uma força política muito grande e eu não tenho. Mas estou cansado de brigar sozinho, vendo pessoas brigando sozinhas, como o Pedro (Poli), o Joaquim (Figueiredo, vice-presidente), o Vitinho (Vítor Jacob, diretor de basquete). Não é fácil manter o time e no nível que a gente está mantendo. E os outros, esperando a banda passar, e passa rápido

Acho que Bauru perde muito. É um sinal de alerta aí, esporte, no caso do basquete, porque a gente sabe que o futebol é uma coisa que vive no mundo deles, eles têm renda, compra, tem um empresário que ama, que pode hoje tocar o futebol, o Damião (Garcia, presidente do Noroeste).

JC ? A demora em se tomar atitudes já comprometeu a continuidade?

Guerrinha - Ainda temos tempo. Ginásio é fácil fazer, dois ou três meses você reforma. Podemos fazer a pré-temporada na USC, no Sesc, e até junho o ginásio estando pronto, fechou para julho ter jogo. As lideranças da cidade, principalmente o prefeito, ou os empresários, tem a Lei de Incentivo para ajudarem a Itabom na parte master. Com certeza, a Itabom continua se tiver um aporte junto com ela, dividir o nome. As outras (empresas) continuarem, a gente arrumar um pouco os Amigos do Basquete.

JC ? Por que o basquete do Brasil está há tanto tempo longe das Olimpíadas?

Guerrinha - O basquete masculino, em nível internacional, é muito forte, tem 20 equipes, seleções, para 12 vagas, porque não são 12 vagas na Olimpíada, porque uma é do sediante, e aí as vagas são divididas por continentes, um tem de ser da África, um da Ásia, e aí três da Europa, dois da América, e aí depois entram acho duas ou três vagas, que é a repescagem dos Pré-Olimpícos, daí faz o Pré-Olímpico mundial. Quer dizer, pra você chegar à Olimpíada são dez vagas, é muito difícil para 20 seleções. Então ficam seleções de fora fortíssimas, como Itália, França, seleções que têm cinco, seis jogadores na NBA.

Nossa seleção é boa, mas tem muitas seleções boas. Não é porque o Brasil tem três, quatro jogadores na NBA. As outras seleções têm cinco, seis jogadores (na NBA). Você pega Croácia, Turquia, Alemanha, França, todas têm jogadores na NBA... E o momento da competição, Pré-Olímpico, Olimpíada, Mundial, é igual Copa do Mundo, em duas semanas tem que estar tudo certo. É como eu falei, se a nossa disputa, aqueles jogos de Limeira, Araraquara fossem agora, a gente estaria fazendo a final do Paulista. Você tem uma contusão, um problema aqui, um negócio ali, já foi. São vários fatores. Agora, esse ano tem uma grande chance, porque a NBA não vai disputar, os Estados Unidos não vão disputar o Pré-Olímpico. Já estão classificados para a Olimpíada porque são o atual campeão mundial. Quer dizer, você tinha duas vagas nas Américas, uma com a seleção da NBA, você tinha na realidade uma vaga para todo mundo. Aí, geralmente, nós disputamos Brasil e Argentina que é 1 ponto pra cá, 1 ponto pra lá, um que acerta aqui, outro que erra ali. Isso não reflete que se tivéssemos ido para a Olimpíada estava tudo certo e que a gente não foi para a Olimpíada e está tudo errado. A gente tem de separar. O basquete doméstico masculino está indo muito bem, estamos organizados nos campeonatos internos, as equipes se fortalecendo. Já o basquete internacional, que é seleção, não está tendo resultados em grandes competições como Pré-Olímpico, Olimpíada e Mundial, é uma outra história.

JC ? Mas o insucesso da seleção não prejudica o basquete?

Guerrinha - Atrapalha sim, fica faltando ídolos. A gente vê hoje que o Brasil não tem ídolos no basquete, se bobear é o Oscar, é a geração do Oscar. Se for em algum lugar aí, o Carioquinha, às vezes, é mais lembrado do que o próprio Leandrinho, que não conseguiu resultados ainda.

JC - Mas por que a geração do Oscar chegou lá?

Guerrinha - A geração do Oscar era bem melhor, o nível, os jogadores. Não tinha divisão da Rússia, nem da Iugoslávia. O basquete, com a entrada da NBA, se internacionalizou, porque a NBA era fechada. Hoje tem jogadores da China, do Japão, do Brasil, Alemanha. Ela unificou, internacionalizou o basquetebol. São várias coisas. E a geração do Oscar e do Marcel tinha dois jogadores diferenciados, que hoje não se tem. Quem foi destaque no último Mundial do Brasil? Marcelinho Huertas, que é armador, e Marcelinho Machado, que tem 37 anos. Na realidade, tinha que ser o jogador da NBA como destaque. No tempo da nossa seleção nos grandes resultados quem se destacava? O Oscar e o Marcel. Tinha bons jogadores, armador, lateral, pivô, mas Oscar e o Marcel eram diferenciados. Hoje no Brasil não têm jogadores nesse nível.

JC - Isso não significa que o nosso nível do basquete caiu?

Guerrinha - Não. De forma geral, não sou saudosista, mas a música de hoje não é como dos anos 70, dos anos 80. Tinha mais talento nas gerações antigas. Você pega o futebol, por mais que tenha o Neymar, não se compara com as gerações antigas, com os times antigos das décadas de 70, 80. O basquete é a mesma coisa. O vôlei, por mais que esta geração tenha resultado, a geração do William era muito mais talentosa que a geração atual. O esporte hoje é muito físico, tático e técnico e menos talento. Hoje o talento não é mais como antigamente. Antigamente que tinha jogadores talentosos, diferenciados, um Wlamir, um Amaury, um Oscar, um Marcel. Jogadores acima da média.

JC - Não falta um trabalho de base, de formação, como é nos EUA e Argentina?

Guerrinha - Existe uma falta de política esportiva no Brasil. Minha geração foi feita na escola e nos clubes. Hoje os clubes estão vendendo e as escolas não têm esporte. É uma série de coisas que influenciaram nessa falta. Acho que falta política esportiva no Brasil, fazer esporte nas escolas, massificação e ter meio de incentivo ao esporte para os clubes, as associações fazerem esporte competitivo.

JC - Você acha hoje o Larry o melhor estrangeiro no basquete brasileiro?

Guerrinha - Acho que é um dos, tem outros também muito bons. O Robby Collum, de Uberlândia, tem o Shamel (Pinheiros), excelente jogador. O Larry é um dos melhores, não é o melhor. Para nós, é o melhor. O Larry é completo, porque é uma pessoa muito humilde, comprometida, disciplinada, não dá nenhum tipo de problema e tecnicamente fantástico. Além de tudo, com intensidade. Ficaria com ele, nota dez.

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