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Santo de casa não faz milagre?

João Winck
| Tempo de leitura: 3 min
O debate recente em torno do descaso com a produção cultural em Bauru acendeu velhos e novos questionamentos. Não é necessário discutir a inegável importância das artes para o espírito humano. Mais prudente é tentar compreender o papel da produção cultural como geradora de desenvolvimento econômico. Ao invés das lamúrias acerca da falta de reconhecimento, a urgência é pensar nas artes como qualquer outro instrumento financeiro. Antes de reclamar os benefícios da cultura, devemos considerar a criatividade como matéria-prima, seus mananciais, a cadeia produtiva e o parque tecnológico nos quais ela está inserida: as chamadas Indústrias Criativas. Há também que providenciar os meios para a distribuição e circulação e pensarmos novos negócios e alternativas para a produção simbólica. O difícil é descobrir onde foram parar os recursos para a infraestrutura, como satisfazer as condições econômicas necessárias à produção de bens culturais e quais as formas de remuneração de seus produtores, por meio da propriedade intelectual. Se olharmos mais atentamente, formar profissionais para a economia da cultura é a especialidade de Bauru, além do sanduíche, que virou patrimônio cultural da cidade. Para quem não sabe, aqui têm sete grandes universidades que oferecem três cursos de Arquitetura, um de Artes Cênicas, um de Música, cinco de Desenho Industrial e três de Design de Moda. Certamente são números impressionantes para uma cidade do nosso porte. Mas a lista ainda é maior! No campo da Publicidade e Propaganda são três cursos, na Produção Audiovisual são dois e no Jornalismo três. Números comparados a estes só existem em lugares como Rio e São Paulo. O profissional que quiser se pós-graduar em Televisão Digital, por exemplo, ou vem estudar em Bauru ou, a opção mais perto, é no exterior. Bauru é um dos principais pólos geradores de mão de obra altamente qualificada para o mercado das Indústrias Criativas no Brasil. Se pensarmos nas áreas contíguas, Bauru sedia dois cursos de Relações Públicas, cinco de Marketing, três cursos de Turismo, dois de Hotelaria e um de Gastronomia. Nesta lista não estão contabilizados os cursos universitários de Informática, Desenvolvimento de Sistemas, Gestão de Tecnologias da Informação, Engenharia de Produção, Letras, Educação Artística e tantos outros que engendram as Indústrias Criativas. Tampouco estão listadas as inúmeras escolas de dança, teatro, música, artesanato, design de interiores e outras opções que são oferecidas no município. Contudo, pouco se sabe sobre as Indústrias Criativas, mesmo entre boa parte do corpo docente desses cursos. É raro discutir as festas populares, a cultura tradicional, a cadeia produtiva do lazer e do turismo... Os temas sobre a economia da cultura passam longe dos políticos, intelectuais e investidores, embora a pauta do dia seja a criação da Secretaria da Economia Criativa do Ministério da Cultura. Estatísticas demonstram que a produção cultural movimenta anualmente algo em torno de oito bilhões de reais, o que representa aproximadamente 1% do PIB nacional. Convém lembrar que estas cifras são irrisórias comparadas, por exemplo, a França, que movimenta 7% do PIB ou a Inglaterra, que arrecada 9% do PIB gerados pela economia da cultura. O contingente de profissionais que se forma todo ano em Bauru, algo em torno de três mil, não encontra mercado de trabalho para ficar aqui e crescer. Eles vêm, aquecem o mercado e partem, restando um vazio sem limites. Pior do que a falta de investimento na produção cultural é a carência de visão estratégica do poder público, dos empresários, das universidades e, sobretudo, do profissional que sai da escola sem saber como garantir o pão, e poder realizar o circo com eficiência crítica. O estado precário do teatro municipal sintetiza a cegueira crônica sobre as ricas potencialidades de Bauru. Dessa forma, nem a velha e boa política do “panem et circenses” funciona por aqui. Prova disso são as nossas TVs universitárias, comunitárias e a legislativa que não se preocupam em servir os finos biscoitos prometidos por Oswald de Andrade. Só o bolo de Maria Antonieta... Quem não entendeu o trocadilho está necessitando consumir mais cultura e ficar esperto com relação ao destino dos impostos. (O autor, João Winck, é mestre em Educação, doutor em Comunicação e professor na Unesp de Bauru - e-mail: winck@uol.com.br)

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