Polícia

Polícia averigua hoje salão sob prédio

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Acreditava-se que o túnel teria chegado somente nas proximidades do prédio da Protege. Entretanto, ao fim da tarde percebeu-se que os assaltantes conseguiram chegar bem abaixo do alvo. Nesse ponto, eles fizeram um salão oval um pouco mais espaçado e de onde, provavelmente, subiriam para concluir a ação. Ontem, por motivos de segurança, os policiais resolveram preservar o local e apenas explorar tal espaço na manhã de hoje.

Com a extensão do túnel que cruzava a avenida já aterrada, somente o buraco que dava acesso a esse salão abaixo do prédio foi lacrado com tapumes ao fim das ações de ontem. Durante toda a madrugada, uma equipe do Garra da Polícia Civil patrulhou o local. A Protege informou também que deixaria um segurança de prontidão para fazer a segurança do acesso.

O delegado titular da Delegacia Seccional de Bauru, Benedito Antônio Valencise, explicou que, como será preciso adentrar o espaço abaixo do prédio, é melhor que o Corpo de Bombeiros verifique as condições do local para saber os riscos reais.

"Retomaremos os trabalhos amanhã (hoje) por volta das 7h. O local parece que não está escorado com madeiras como o resto. Como teremos que entrar lá embaixo, é preciso que seja avaliada a situação em que está. Estamos pensando na segurança do pessoal também".

Questionado sobre algum possível suspeito, Valencise aponta que a ação provavelmente é de responsabilidade do crime organizado. "Esse é um trabalho muito complexo. É algo bem arquitetado e executado. Não é qualquer bandido que faz isso. É muito provável que seja uma ação do crime organizado".

Outra questão levantada na ocasião foi o motivo da polícia não ter segurado a informação para monitorar o túnel e, por meio de uma campana, capturar os bandidos. "Como foi algo descoberto pelos funcionários da prefeitura que estavam trabalhando no local, não tivemos o controle dessa informação. E os bandidos não voltariam aqui depois que avistassem o pessoal consertando o buraco logo acima do túnel. Provavelmente, com um ?olheiro? na região, eles saberiam que o túnel havia sido descoberto e não voltariam", argumenta o delegado seccional.

Carlos Alberto Gomes da Rocha Silva, delegado titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), onde o caso será investigado, explica que as averiguações vão depender bastante do setor inteligência da Polícia Civil.

"Iremos ouvir o pessoal da prefeitura que encontrou o túnel e mais algumas testemunhas. Porém, muito do nosso trabalho será feito com base no nosso setor de inteligência. Recolheremos tudo que acharmos no túnel para auxiliar nas investigações", completa.

A Polícia Científica esteve presente para realizar a perícia. Hoje, todos voltam ao local para examinar o espaço abaixo do salão. Segundo o que a reportagem apurou, há várias ferramentas nesse ponto, como pás, baldes e até mesmo uma carriola utilizada pelos bandidos.

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Caso remete a grandes roubos a banco


O diretor do Departamento de Polícia Judiciária do Interior 4 (Deinter-4), o delegado Licurgo Nunes Costa, afirma que não há quaisquer dúvidas que o alvo dos bandidos era o prédio da empresa Protege. Ele também confirma que, baseado na complexidade do plano e da execução, a responsabilidade recai sobre o crime organizado.

Questionado sobre a engenhosidade no modo de agir, o diretor aponta que o fato é inédito em Bauru, porém, cita casos semelhantes e de grande repercussão em outras cidades brasileiras e até outros acontecimentos internacionais.

Em agosto de 2005, ocorreu um dos maiores furtos a bancos da história. Na ocasião, o Banco Central do Brasil foi invadido após ladrões terem escavado um túnel com cerca de 80 metros de comprimento que começava em uma residência localizada nas proximidades. Estima-se que os ladrões levaram aproximadamente R$ 150 milhões.

Já em junho do ano passado, um túnel de grande extensão foi localizado em São José dos Campos. Como no caso de ontem em Bauru, a polícia conseguiu descobrir a passagem ? com mais de 400 metros de comprimento ? com antecedência e interrompeu o plano dos bandidos.

O caso mais recente ocorreu há menos de um mês na Argentina. Na ocasião, um banco em Buenos Aires foi furtado. Por meio de um túnel que estava sendo escavado há meses, os bandidos conseguiram fugir com cerca de US$ 6,5 milhões.

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Empresa-alvo dos ?donos? do túnel trabalha com valores altíssimos


Presente em 14 estados e no Distrito Federal, o Grupo Protege é uma das maiores empresas de segurança privada do Brasil. Além do transporte de valores, a empresa oferece serviços de logística, vigilância, tesouraria, automação bancária, processamento de documentos, formação de vigilantes, serviços auxiliares de transporte aéreo, entre outros.

Exatamente por essa gama de serviços disponibilizados já é possível imaginar o altíssimo valor contido em cada unidade da Protege. Em questão de minutos, vários carros-fortes entram e saem do prédio com frequência. Segundo a reportagem apurou não oficialmente no local, cada veículo pode estar abastecido com R$ 3 milhões.

Além disso, foi levantado que a Protege também faz tesouraria para a maioria das instituições bancárias de Bauru. Desse modo, grande parte do dinheiro dos bancos da cidade ficam concentrados na unidade que era alvo dos bandidos. O valor total existente no prédio não foi divulgado.

Como se trata de uma empresa de segurança, o armamento pesado contido no local ? como pistolas e escopetas bastante visíveis nas mãos dos seguranças - também poderia ser um dos objetivos do roubo.

A reportagem tentou contato com vários funcionários da Protege para comentar o caso, porém, todos disseram que somente o gerente estaria autorizado a falar. Em algumas poucas vezes em que saiu do prédio, mesmo procurado, ele não conversou com a imprensa.

Em nota, a assessoria de comunicação da Protege informou que está colaborando integralmente com o trabalho da polícia e que tem interesse em ajudar a coibir qualquer ação que coloque em risco a segurança da sociedade e das empresas.

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?Se fizeram rápido, levaram 30 dias?


Conhecido popularmente como "Homem-tatu", o funcionário da prefeitura Valdomiro Santos Oliveira, 55 anos, percorreu a extensão do túnel. Ele conta que, no local, havia várias ferramentas para escavação e que, baseado em seu conhecimento e na velocidade dos bandidos, todo o trabalho poderia ter sido feito em aproximadamente um mês.

"Estava muito bem construído. Tinha lâmpadas e fios elétricos para iluminar o local. Também encontrei algumas lanternas. A passagem estava bem calçada, tanto por baixo quanto por cima", expõe o operário.

Como Valdomiro Oliveira próprio afirma, ele vive mais tempo sob a terra do que na superfície e, baseado nessa experiência, contabiliza o tempo necessário para a escavação do túnel. "Acho que, trabalhando rapidamente, eles demoraram cerca de 30 dias. Foi um trabalho bem feito. Eles usavam a própria água da galeria para se livrar da terra que tiravam".

Ele ainda conta que o percurso subterrâneo era levemente inclinado para cima e que, quando chegava nas proximidades do prédio da Protege, fazia uma "curva mansa" à direita. "Acho que eles não completaram o serviço justamente por causa das chuvas e do perigo de o túnel inundar. Mas, eles estavam bem perto do que queriam. Não demoraria mais do que alguns dias para terminarem", conclui o popular "Homem-tatu".

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Trânsito complicado


Como as máquinas escavadeiras tiveram que "abrir" parte da Nações Unidas para checar as reais condições do túnel, a via foi interditada. Por se tratar de uma das mais importante e movimentadas avenidas da cidade, o trânsito ficou complicado pelas cerca de quatro horas de trabalho.

A Polícia Militar ajudou a organizar o fluxo de veículos. No fim da noite, após terem sido retirados todos os objetos do túnel, que foram apreendidos e serão analisados na investigação, o local foi novamente aterrado e o trânsito, liberado.

A prefeitura também cimentou o buraco feito pelos assaltantes na parede da galeria e de onde se iniciava o túnel.


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