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A morte do outro como evento dos outros (eu e nós)

Luiz Antonio Lopes Ricci
| Tempo de leitura: 3 min
A teologia cristã oferece uma visão antropológica mais abrangente do homem ao considerar a dimensão espiritual e a vida para além do tempo. Aqui emerge o papel da metafísica. M. Fabri sugere a “metafísica da alteridade” que busca compreender a vida em chave dialógica, onde o ser humano em sua constituição e vida só se entende na “face a face” com o outro (semelhante). Desta maneira, sabe-se que diante da interpelação do “rosto” do outro, especialmente do sofredor e vulnerável, a responsabilidade moral pela vida a nós confiada tende a se potencializar ainda mais. Na alteridade o “ser” do outro se manifesta por meio do “rosto” (E. Levinas), do qual se retiram três categorias que orientam o agir ético: responsabilidade pelos vulneráveis, cuidado-compaixão e futuridade (vida que deve prosseguir até o seu término natural). Por isso, entende-se que fora da metafísica da alteridade dificilmente a morte do “outro” será um evento “dos outros”, dificultando a responsabilização e comprometimento (cidadania ativa). Fala-se muito sobre a morte digna e o morrer com dignidade. Contudo, demasiado pouco sobre o viver com dignidade, sobre a vida digna do homem. Há hoje uma espécie de necrofilia literária e midiática que ofusca a biofilia (amor à vida). Há pessoas que combatem a vida toda contra a morte, uma espécie de desejo de imortalidade, mas não são capazes de viver na perspectiva da eubiosia (bem viver), do dom e da biofilia. Vive-se para não morrer e não para viver ou para que o outro viva. Quem vive de modo profundo e autêntico, na perspectiva da responsabilidade moral pelo dom da vida e da dimensão de futuridade da mesma, escolherá a vida e se tornará biofílico, atuando em si a vocação inata de toda pessoa humana. “Aquilo que torna humano o viver do homem é justamente este interesse pela vida que nós chamamos amor” (J. Moltmann). Certamente, a sinergia biofílica, por ser extremamente terapêutica e transformadora, impedirá a “metástase” das situações produtoras de mortes evitáveis, previsíveis e preveníveis. Se o mal “é a privação de um bem devido” (Tomás de Aquino) e o bem “é aquilo a que todas as coisas tendem” (Aristóteles) e se a vida humana é sempre um bem (João Paulo II), parece correto inferir que toda boa ação, orientada para o respeito, tutela e promoção da vida, realiza o bem, contribui para diminuir a potência do mal, garante a futuridade (conservação) da vida, destinada ao encontro com o Sumo Bem e origem de todo bem (Deus, o totalmente Outro). Trata-se de propor um deslocamento para as questões relacionadas ao quotidiano da população vulnerável em situação de risco, considerando todas as etapas da existência humana, com acento na conservação e promoção da vida com qualidade. Aqui dois conceitos jogam papeis relevantes e decisivos: equidade e mística. A equidade é um apelo por justiça e ao mesmo tempo correção e retificação da mesma. A “mística” pró-vida são as motivações profundas que orientam as ações e indica o prioritário e emergente. O diálogo multidisciplinar associado à mística, poderá gerar um novo paradigma (que conjugue sinergia biofílica e mística), mais eficiente, com maior força de incidência no mundo complexo e plural, atento às inequidades (desigualdades injustas) e mais conforme as necessidades concretas dos semelhantes. Considera-se que a morte evitável do “outro” é um evento que atinge principalmente a consciência pessoal e coletiva, ou seja, na perspectiva da responsabilidade moral trata-se de evento não apenas das vítimas, mas, sobretudo, dos outros, ou seja, eu e nós. Estamos de certo modo implicados na morte das vítimas das enchentes, deslizamentos, violência, drogas, injustiças, abandono etc. Como afirmou João Paulo II, “o homem que sofre nos pertence”.
O autor, Luiz Antonio Lopes Ricci, é colaborador de Opinião

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