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Família atual está ?órfã? de padrões

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

"Papai, mamãe, titia, almoçam juntos todo dia, nunca perdem essa mania." O trecho, ainda que levemente alterado, da canção "Família", do Titãs, é capaz de provocar em muita gente certa nostalgia de uma época, não muito distante, ainda cercada de certezas dentro e fora de casa. Com convicções cada vez mais fugazes, as famílias do século 21 vivem ?órfãs? de padrões, embora muitas delas não tenham se dado conta ou busquem imprimir novos significados a ideias e conceitos antigos.

Com tantos compromissos e até conflitos cotidianos, a maioria das pessoas nem imagina o quanto a sua própria vida familiar foi alterada por eventos aparentemente distantes no tempo e no espaço, como a revolução sexual e a Queda do Muro de Berlim. Hoje, até mesmo pesquisas científicas passam por questionamentos e não são mais sinônimos de verdade. A exacerbação do consumismo e do individualismo agravam o período atual, marcado por poucas garantias e volume ilimitado de informações.

Diante de tanta transformação (e, por que não?, de confusão), os modelos de família, educação, comportamento e religião, por exemplo, não são mais únicos.

"Criou-se um vazio. O que está se discutindo hoje é que a sociedade precisa de padrões históricos. As novas gerações serão educadas em padrões, mas com capacidade de questioná-los. São modelos que podem ser mutáveis, já que outros foram derrubados. Não existe mais uma realidade fixa. É difícil de aceitarmos isso porque nos tira o chão. O que é válido hoje pode não ser amanhã", explica o professor de filosofia Clodoaldo Meneguello Cardoso, coordenador do Observatório de Educação em Direitos Humanos da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

"Se tudo o que é sólido desmancha no ar", como então educar os filhos em casa? Como definir qual linha pedagógica é a mais adequada? Como nos comportar como homens e mulheres em família e no ambiente corporativo? Quais são os nossos valores? O que realmente queremos da família? As dúvidas são muitas.

"O nosso grande problema é que vivemos numa sociedade em transição. Não existem valores fixos, modelos tradicionais. Não sabemos exatamente o que queremos da família. Estamos num ponto de indecisão. A família é ambígua na consciência dos indivíduos, mas precisamos dela como elemento tradicional de identificação. Precisamos nos sentir parte de um grupo", afirma Cláudio Bertolli, professor de antropologia da Unesp.

Bem-vindos ao século 21.


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Cada casa tem padrão particular

Se antigamente todas as famílias seguiam aparentemente um único padrão, agora cada família parece ter seu próprio modelo. A avaliação é de Mônica Litrento, mãe de Ana Laura e João Pedro. Casada com Wilson Sartori, aparentemente ela constituiu uma família ?tradicional? ? como a citada na canção dos Titãs.

Ainda assim, para ela, o fato de famílias como a dela contarem com ?papai e mamãe? não dá garantias de filhos emocionalmente estabilizados quando adultos. "Hoje é muito difícil estabelecer um padrão de comportamento, de convivência", afirma.

Por isso, o que em casa é natural, no prédio ou na escola pode ser diferente ou até antagônico. "Em função do volume de informação, os filhos são muito questionadores, despendem muita energia dos pais, que trabalham fora. Atualmente, a mãe também é uma referência profissional", explica.

Mônica e Wilson dividem contas e responsabilidades em casa.


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Natural e sagrado caem por terra

Com ou sem participações individuais, o século 20 foi marcado pela quebra de padrões até então estabelecidos, como virgindade, religião única, homem como autoridade máxima da família, entre outros. Conclusão: não existem mais padrões universais para respaldar, inclusive, a família.

"Estamos num momento de reconstrução, mas existem resistências sempre que há quebra de padrões porque, de qualquer forma, será retirado o status de alguém", explica o professor Clodoaldo Meneguello Cardoso, coordenador do Observatório de Educação em Direitos Humanos da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

De acordo com ele, para que uma estrutura antiga seja conservada, argumentos que utilizam os conceitos de natural e sagrado podem ser adotados. Ainda hoje é comum ouvirmos que natural é a família formada por pai, mãe e filhos, a despeito das outras conformações já existentes. Esse tipo de estrutura fixa, inclusive, ainda é sagrada para uma parcela da população. "O século 20, porém, desnudou tanto o argumento da sacralização quanto o da naturalização", informa Meneguello.

Para o professor, a partir do século 21, as pessoas tendem a ter consciência de que qualquer padrão é vulnerável e poderá ser substituído. Mas, neste caso, outros argumentos engrossarão a lista de justificativas da mudança, como o histórico, o político e o democrático.

"A realidade humana está em processo e construção permanentes. Se o ser humano se constrói, significa que não está pronto. A humanidade hoje não foi a de 2 mil anos atrás", finaliza Meneguello.

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