Uma guerreira da filantropia de Bauru
"Com meus filhos atravesso o mundo, sem eles nem a rua". É com esta frase (e com lágrimas nos olhos) que Catarina de Carvalho Teixeira define o significado da sua vida atual. Mãe apaixonada e exemplar, ela lutou pela sobrevivência da filha quando ninguém acreditou que conseguiria e a desenganavam. Mais tarde veio a luta pela dignidade dos bauruenses especiais, sendo um dos nomes mais importantes da Associação de Pais para Integração Escolar da Criança Especial (Apiece), instituição da qual se licenciou temporariamente e foi presidente por duas décadas.
Além da dedicação à filantropia, Catarina também se orgulha dos 30 anos em que foi professora e de sua vocação política, paixão que lhe rendeu dois mandatos como vereadora e muitas histórias.
A paixão pela literatura vem desde os contos mágicos de Monteiro Lobato, que marcaram a infância de menina de sítio e resultou em seu primeiro livro, intitulado "Crônicas de Gaveta", com histórias sobre a vida diária. Engraçada nos gestos e profunda nas palavras e nas lembranças, na entrevista que segue abaixo, Catarina também fala sobre a vida e seus significados.
Jornal da Cidade ? O que você vê quando olha o passado de menina?
Catarina de Carvalho Teixeira ? Minha infância foi muito feliz. Nasci em um sítio da família chamado "Água do Paiol", aqui mesmo em Bauru. Convivi muito com os parentes e as crianças do sítio, no tempo da tábua de lavar roupas, de brincar no rio... Naquele tempo a família era maior, com avós, tios, tias, primos, pai, mãe, irmãos... Hoje está pequena. Quando vamos amadurecendo, as lembranças da família grande fazem com que a gente queira segurar com as mãos todos os amores que nos rodeiam, porque a gente sabe que acaba. E quando sabemos que nada é para sempre, nem alegrias, nem tristezas, temos uma postura de mais zelos, o que pode até ser desnecessário, porque o que tiver de acontecer, vai acontecer. Gostaria de ter uma família maior, grande como já tive. Uma mesa cheia aos domingos... Fui uma menina muito peralta e vivia caindo de árvores. Lembro-me do fogão à lenha, da minha disposição para ajudar nos serviços domésticos e de toda a gente unida. Era uma delícia. Outra coisa que marcou minha infância foi a vontade de estudar.
JC ? Uma menina que adorava livros?
Catarina ? (Risos) Fui sim. Eu tive um tio, Antônio José Miziara, que foi o primeiro formando oficial da família. Ele foi um advogado muito expressivo na cidade e região e me dava livros dizendo sempre que aquele era o caminho. Desde criança me mostrava as melhores obras, como Monteiro Lobato, por exemplo. Acho que esse tio teve uma responsabilidade muito grande nessa minha vontade de ler demais, conhecer e pesquisar.
JC ? Esse gosto pela leitura despertou o desejo pela faculdade de Letras?
Catarina ? Sempre tirei boas notas. Fiz faculdade de Letras na antiga Fafil, hoje USC. Formei-me em 1971 e dei aulas de latim para padres. Depois lecionei em muitas cidades da região como Duartina, Lucianópolis, Ubirajara, Lençóis Paulista, além do Objetivo de Bauru, quando o Duda já era o piloto do Colégio, e outras escolas particulares. Mais tarde passei em um concurso público e também dei aulas em escolas estaduais. Nesse tempo fiz faculdade de direito na Instituição Toledo de Ensino, cheguei a atuar em várias ações e na Defensoria Pública junto a AOB, mas não por muito tempo porque eu era vereadora e presidia uma entidade sem fins lucrativos em prol dos deficientes, a Associação de Pais para Integração Escolar da Criança Especial (Apiece).
JC ? Quem foi a professora Catarina?
Catarina ? Sempre encontro com ex-alunos e todos se lembram de mim como uma professora que teve como prioridade encaminhar o aluno. Fico realizada quando escuto isso deles. Sinto muito orgulho de ter sido professora. Em trinta anos de magistério, nunca precisei colocar um aluno sequer para fora da sala. Tinha uma meta: o professor e o aluno precisam se entender no espaço da sala de aula. Como é que um pode se livrar do outro se nasceram para crescer juntos? Durante esses anos também trabalhei na Diretoria de Ensino de Bauru.
JC ? Como surgiu o "Crônicas de Gaveta"?
Catarina ? Sempre fui apaixonada por literatura. Você já reparou como não vivemos sem gavetas? Você rabisca coisas e guarda lá no fundo de uma gaveta, coloca um cartão que ganha, lápis, isqueiro, um santinho, contas, uma pilha, uma foto, a chave que foi devolvida, o endereço do eletricista, o laço de um presente...Um dia você descobre o quanto a gaveta é importante na sua vida. Sem uma gaveta para depositar o que não serve mais, mas que não se quer jogar fora, como seria a vida? Então surgiu esse modesto livro sobre a vida diária. Das mil cópias consegui vender 855 exemplares. Agora estou rascunhando um livro sobre o deficiente no trabalho.
JC ? Há muitos anos a Apiece é uma entidade exemplar na cidade. Como foram os primeiros passos da instituição?
Catarina ? Eu reivindicava, junto aos prefeitos, uma creche para deficientes mentais e todos falavam que estavam estudando o projeto, mas não acontecia nada. Isso há muitos anos, antes mesmo de ser vereadora, mas com vereadora também. Eu procurava creche para pessoas com deficiências porque eu via crianças nas clínicas por onde eu andava e, muitas vezes, os pais não podiam cuidar exclusivamente delas. Foi nessas andanças, também quando morei em Ribeirão Preto, que vi o quanto um deficiente precisa de dignidade, respeito e amor. E descobri, infelizmente, que muitas vezes essa falta de amparo acontecia na própria casa, tanto de renda baixa como alta. Vi muita coisa estranha, você nem pode imaginar. E depois, uma creche para deficientes possibilita que os pais tenham seu lazer ou saíam para fazer suas compras, por exemplo. Isso ajuda com que a criança não se torne um peso para os pais, para a lã ser leve para o carneiro. Mas não consegui essa creche e fizemos um movimento em 1987.
JC ? Um movimento?
Catarina ? Isso. A Apae não aguentava os pedidos de vagas. Não havia lugar para todas as crianças. A cidade precisava de uma outra entidade. Então, nós pais nos juntamos e levantamos a bandeira em prol de uma outra instituição. Pedidos a presença de médicos de respeito que vieram. E lá nasceu, no papel, o estatuto da Apiece. Com aquela ideia e assinaturas, nós mães, pais e avós de deficientes mentais, alugamos uma casa simples onde revezávamos para cuidar das crianças. No início não tinha aulas, fisioterapia e psicóloga, coisas que fomos conseguindo aos poucos até conseguir o terreno e construirmos a Apiece como é hoje. Foram 20 anos à frente da instituição, hoje estou afastada no papel. Mas fiz de tudo lá, desde serviços gerais à administração. Dediquei-me mesmo.
JC - Acredita que a vocação política é um dom?
Catarina ? Fui vereadora por duas vezes. Essa vocação política é muito forte. Sou cidadã por natureza. Se estou passando aqui na rua do Jornal da Cidade, por exemplo, e vejo um bueiro todo aberto e pessoas correndo risco, ligo para a Secretaria de Obras, chamo o fotógrafo... É algo constante, permanente. Sei que não devo jogar lixo na rua, que preciso cuidar do meio ambiente. Vivo guerriando contra as coisas que vejo erradas no meu município. A política se faz de movimentos. Fui a primeira mulher a ocupar a mesa da diretoria da Câmara Municipal. Outro fato que também me marcou foi minha participação na Conferência do Habitat II, promovida pela ONU em Istambul, na Turquia. Na ocasião, eu era coordenadora educacional do Projeto Desfavelamento. Foi um trabalho muito bonito feito no Núcleo Habitacional Fortunato Rocha Lima. Além da construção das casas, fizemos um trabalho educativo. Outra passagem marcante foi minha viagem para o Encontro das Mulheres em Cuba pelo combate ao preconceito e à discriminação. Menina, elas não têm leite para as crianças, não têm batom, roupas adequadas... Elas se encantam até com papel. Dei tudo o que tinha à elas (risos).
JC ? Como são seus dias?
Catarina ? Hoje minha dedicação e atenção estão voltadas à minha filha e suas atividades diárias. Parecemos duas crianças. Cada dia inventamos um serviço e estou sempre ensinando algo para ela. Tudo com muita paciência. Quando nasceu, Catarina Aparecida ficou um ano e meio tomando caldo de carne, leite e água em conta-gotas. A gente ficava em uma rede, que era a melhor posição para ela não engasgar. Ela nasceu com um quilo e meio e com fissura de palato. Não tinha força nem para se alimentar. Ninguém botava fé na Catarina Aparecida, mas eu sempre acreditei. Era dedicação exclusiva. E ela foi engordando com gotas. Era uma festa quando ela ingeria 20 gotas ou mais de alimento pois precisava adquirir peso para operar a fissura. Todo ano faço uma declaração de aniversário à ela. Ela é maravilhosa, uma vencedora. Está sempre muito animada e feliz. É minha companheira. Quando meu filho está em Bauru, a folga dele é para ela. Eles têm tanta afinidade que se misturam. Meu filho nunca reclamou da atenção que dediquei à ela. Ele é nobre e bom demais.
JC ? Você já atuou até no Centrinho, soubemos!
Catarina ? Trabalhei no Centrinho por muitos anos ensinando às mães dos meninos e meninas com fissuras lábiopalatais como lidar com o aleitamento, a mamadeira, a chupeta o escovar dos dentes, entre outras atividades básicas. Foi gratificante.
JC ? Significado da vida?
Catarina ? Isso é tão profundo...O sentido da vida para mim é amar muito e querer entender o outro. Você deve amar muito e não exigir resposta. É preciso doar-se, mas não como moeda de troca. Você tem que se doar e ver o que acontece depois. Já sofri muito. A gente faz escolhas na tentativa de acertar e às vezes erra, mas aí já foi. Você não pode concertar o que passou, mas pode reinventar e começar algo novo. Agora, para mim, a vida só tem sentido com meus filhos. Você precisa entrar no mais profundo da vida e olhar as pessoas como você olha o mar. Ele é um gigante que merece todo o respeito. O mar é inexplicável, você olha para ele e não entende nada. E na vida há muita coisa que você não entende.