Quem é que não gosta, principalmente na infância, de ganhar um agrado em forma de embrulho? Ainda mais quando é brinquedo, toda a criança salta de felicidade ao rasgar os pacotes, ansiosa em desvendar o suspense gerado pela caixa envolta por uma bela fita colorida.
Quando a gente cresce, não é diferente. Todo mundo, mesmo que retribua com a clássica frase "ah, o que é isso, não precisava se incomodar, gastar dinheiro", gosta de ser paparicado, nem que seja com uma lembrancinha comprada às pressas na barraca do camelô.
Mas tem gente que faz das ocasiões em que seria o principal alvo dos mimos uma oportunidade de compartilhar felicidade com quem sequer tem o básico. E mais, além de presentear gente menos favorecida com muita solidariedade, ainda ensina às gerações futuras a olhar para as desigualdades e entender que cada um deve fazer a sua parte para, ao menos, minimizá-las.
Em Bauru, aniversariantes trocam os tradicionais presentes de convidados em festas por ajuda a entidades assistenciais, seja em dinheiro ou via donativos enviados diretamente aos assistidos pelas instituições, entre eles alimentos ou brinquedos.
É assim todo o ano para a voluntária Marilena Joaquim. Aposentada da chefia da Secretaria da Fazenda e ex-diretora da Associação Luso-Brasileira, ela encontrou, há mais de uma década, uma forma de se presentear por meio da solidariedade. Anualmente, no dia do aniversário, ela recebe amigos e familiares numa grande festa. Ao invés de presentes, ela pede que os convidados tragam donativos.
Em outubro passado, ela angariou 550 caixas de leite longa vida, entregues pelos convidados que foram ao buffet onde celebrou mais um aniversário. "Ser presenteada da forma tradicional é legal, mas prefiro aproveitar a oportunidade de ajudar a quem precisa. Tenho a sorte de todos os anos ter aniversários festivos, sou alegre e tenho uma saúde danada", comemora.
Sob a ótica da voluntária, contribuir com os menos favorecidos deve ser encarado com naturalidade e não como mérito. Ajudar aos menos afortunados, defende, deve ser visto como uma lição passada entre as gerações. "Hoje em dia as crianças com mais condições são criadas dentro de ?bolhas?", compara. "Não enxergam as dificuldades que outros enfrentam", lamenta.
E é justamente com a intenção de multiplicar o espírito do presente solidário através das gerações que a enfermeira Cassiana Mendes Bertoncello promove um legítimo "mutirão familiar".
Durante todo o ano, ela, na companhia das três filhas (Giovana, 20 anos, Ana Paula, 13, e Ana Beatriz , 8), separa os brinquedos que não são mais usados na casa e forma kits, também distribuídos entre entidades de referência na assistência infantil da cidade.
"Aprendi ainda com a minha mãe que algo que não usamos pode ser reaproveitado por outras pessoas", afirma a enfermeira, que, há cinco anos, entrega os brinquedos nas sedes das organizações beneméritas ou nas próprias mãos de algumas crianças, que batem na porta da família em épocas natalinas. "Alguns presentes são praticamente sem uso. Outros brinquedos a gente mesmo recicla", acrescenta.
Para ela, a iniciativa abre os olhos das crianças com condições de ganhar o próprio brinquedo a olhar para outras, da mesma idade, obrigadas a esboçar malabarismos nos semáforos. "É ensinar a realidade, para que elas vejam que essa desigualdade é errada. Lugar de criança é em casa", opina.
Ações dessa natureza, para educadores, são ideais para criar adultos conscientes. "Alguns dizem ser quase impossível ensinar solidariedade. Na verdade, é uma atitude que deve ser incentivada ao longo de todo o ano", observa Francisca Romanda Giacometti Paris, diretora de escola em Ribeirão Preto e que, recentemente, enviou artigo sobre o tema para o Jornal da Cidade.
"Crianças e jovens, em contato com atos solidários, vivenciam, no mínimo, o interesse pelo tema e sugerem um olhar sensível e indignado", acentua.