Bairros

O que é que a Batista tem?

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min
"O que é que a baiana tem? Tem torço de seda, tem! Tem brincos de ouro, tem! Corrente de ouro, tem! Tem pano-da-costa, tem! Tem bata rendada, tem! Pulseira de ouro, tem! Tem saia engomada, tem! Sandália enfeitada, tem!" A letra de "O que é que a baiana tem?", escrita por Dorival Caymmi e imortalizada na inconfundível voz de Carmen Miranda, descreve algumas das características da típica baiana brasileira, mas poderia ser facilmente adaptada para uma realidade ainda mais particular: a de Bauru. Para isso, na letra, basta colocar no lugar de baiana ?Batista?, o nome do centro comercial mais famoso da cidade: o Calçadão da Batista de Carvalho. E então, é só dar asas à imaginação. Além dos brincos e pulseiras de ouro, da sandália enfeitada e da bata rendada, poderia ainda ser acrescentado entre as coisas que a Batista tem itens mais modernos, como as bijuterias, bolsas, eletrodomésticos, brinquedos, entre outros. Mas se a brincadeira de enumerar o que é que a Batista tem for levada a sério, o assunto deve render. Isto porque, apesar do famoso Calçadão possuir apenas sete quadras, nele estão instaladas cerca de 130 lojas, dos mais variados segmentos e tamanhos, que funcionam de segunda à sexta-feira, das 9h às 18h, e aos sábados, das 9h às 17h, e atraem uma multidão de pessoas, que moram na cidade ou vem da região especialmente para comprar nas lojas instaladas na rua. Por conta da fama do lugar, os lojistas chegam a pagar de R$ 500,00 a R$ 600,00 pelo metro quadrado alugado, valor que varia de acordo com a localização das quadras. Mas nem sempre foi assim. Quando foi fundada, por volta do ano 1.900, a Batista misturava moradias e comércio, que era dividido, principalmente, entre os segmentos de secos e molhados, tecidos, cafés e alfaiatarias."A Batista se formou por conta das estradas de ferro Sorocabana, Noroeste e Paulista. Quem trabalhava na ferrovia começou a fixar residência ali perto e, na esteira do progresso, vieram os comércios", conta o pesquisador Irineu de Azevedo Bastos. Inicialmente, como todas as outras, a rua não tinha nome. Quando começaram a nomear as ruas da redondeza, o comerciante João Batista de Carvalho, que tinha uma loja na esquina da Batista com a Araújo Leite, colocou no local uma placa com os dizeres "Rua dos Esquecidos", foi quando os responsáveis pela nomeação na época decidiram homenageá-lo e deram o nome dele à via.
E se fez o verbo Certamente, quando o comerciante João Batista de Carvalho foi homenageado e cedeu seu nome a uma das ruas mais famosas de Bauru, ele não imaginou que seu sobrenome um dia se tornaria um verbo a ser incluso no dicionário bauruense: batistar. Quem mora na cidade e até mesmo na região sabe bem o significado do verbo. O termo surgiu no início da década em 20 e foi criado para designar o ato de caminhar tranquilamente por toda a extensão da rua, em busca de boas compras, amigos e até mesmo diversão."Eu saía do Colégio São José, onde estudava na adolescência, e descia batistando com minhas amigas até a loja de meu pai, na quadra 3 do Calçadão. Passear por aquelas calçadas estreitas era o que havia de mais legal na época. É como ir ao shopping atualmente", conta Selma Issa Gândara Vieira, proprietária de A Tropical, loja existente no Calçadão há 73 anos.
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Evolução Quem nasceu a partir de
1991 ou até mesmo alguns anos antes certamente não se lembra da antiga aparência do Calçadão da Batista de Carvalho nem sequer imagina que o famoso corredor comercial já foi palco de muitas batalhas, entre elas a que gerou o boato de Bauru ter sido excomungada pelo papa, em 1913. Antes de se tornar um Calçadão, a Batista de Carvalho era uma rua comercial comum, onde era permitido, inclusive, o trânsito de carros. Até 1913, a Catedral, que fica atualmente na Praça Rui Barbosa, no fim da Batista, era localizada entre as ruas Gustavo Maciel e Antônio Alves. Por interesses políticos, o então prefeito da cidade, Manoel Bento Cruz, solicitou ao bispo Dom Lúcio Antunes e Souza a derrubada do templo e a transferência para outro local. Com a negativa do religioso, o prefeito decidiu agir por conta própria e em 13 de agosto de 1913, durante a noite, mandou que seus homens derrubassem a igreja. Diz a lenda que, ao ver o estrago, o bispo teria pedido ao papa a excomunhão da cidade. Algumas décadas depois, em 1962, a Batista de Carvalho foi asfaltada pela primeira vez pelo prefeito Edison Bastos Gasparini e, em 1991, o então prefeito, Antônio Izzo Filho, decidiu transformar as sete quadras iniciais da rua em um grande calçadão, impedindo o trânsito de veículos no local. Além da mudança de ares, a evolução trouxe ao calçadão alguns problemas crônicos da cidade, como a prostituição, a superlotação, a insegurança e o vandalismo, afastando alguns consumidores e lojistas, que passaram para o comércio da zona sul da cidade. Até o início da janeiro , o Calçadão era administrado pela Associação das Empresas do Calçadão (AEC), mas o convênio entre a entidade e a prefeitura foi rompido nos primeiros dias do ano. O motivo principal teria sido a dificuldade na prestação de contas do dinheiro público repassado pela prefeitura à AEC, recurso cuja utilização é fiscalizada pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE). Por meio de comunicado protocolado no início de dezembro, a AEC alegou que a prefeitura estaria dificultando à entidade a realização desta prestação de contas. Mas em matéria publicada pelo JC em 10 de janeiro de 2011, o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Paulo Ferrari, afirmou que o TCE impõe que os repasses de todos os convênios tenham o mesmo modelo de prestação de contas e que a AEC talvez tenha encontrado dificuldades para cumprir essas exigências e preferiu não renovar o convênio. Portanto, por enquanto, o Calçadão está sob os cuidados da prefeitura.

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