Bairros

Sete quadras e muitas histórias

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 11 min
Quadra 1 Todos os dias, por volta das 9h, Ana Maria, 56 anos, desembarca de um ônibus de transporte coletivo em um dos pontos da avenida Rodrigues Alves. Faça frio ou calor, seu ?uniforme? é, quase sempre, um vestido curto e chinelos de dedo. Na sequência, ela caminha alguns metros até chegar na primeira quadra da rua Batista de Carvalho, local onde deve passar o dia à espera de clientes. Somente por volta das 18h, quando as lojas das redondezas começam a baixar as portas, é que Ana Maria toma o ônibus de volta para casa. Descrita desta forma, a rotina de Ana Maria, que se repete há cerca de dez anos, se assemelha em muito a de qualquer funcionário que trabalha nas redondezas. A diferença é que ela trabalha por conta e sua mercadoria é o próprio corpo."Preciso sustentar a minha filha, que tem 16 anos. Já trabalhei como doméstica, mas não me dei bem. É muita exploração e pouco retorno", explica, afirmando que a menina não sabe a real profissão da mãe. A reportagem do JC nos Bairros encontrou Ana Maria sentada aos pés de um busto na praça Machado de Mello por volta das 10h30 da última terça-feira. Além dela, outras duas garotas de programa circulavam pela primeira quadra do Calçadão à espera de clientes. Todas muito discretas, de forma que, ao olhar dos mais desavisados, passariam despercebidas com facilidade."Nós ficamos aqui no Calçadão por causa da clientela. Passa muita gente por aqui e, quem quer, sabe onde encontrar a gente. Na verdade eu preferia ficar mais lá pra cima, na quadra 5 ou 6, mas os comerciantes implicam muito", conta. Ana Maria faz, em média, três programas por dia e todos têm como cenário hotéis localizados nas proximidades. Pelo serviço, ela cobra pelo menos R$ 20,00. Seus clientes são, na maioria, homens com mais de 50 anos, casados, e que moram na região."Os de Bauru pagam uma mixaria. Prefiro os clientes de fora", explica, contando que, nestes anos de profissão, já passou por muitos riscos, que vão de clientes armados até tentativa de estupro em um canavial em Piratininga. Na hora de fazer a foto para ilustrar a matéria, Ana Maria titubeou. Pensou duas vezes, assim como costuma fazer para aceitar a proposta de um cliente. Mas concordou. "Pode fazer. Quer saber? Não devo nada para ninguém", argumentou, com um sorriso que destacou o rosto envelhecido pela vida sofrida.
Quadra 1 O Calçadão da Batista de Carvalho é a prova real de que nossos olhos estão acostumados a ver muito menos do que eles podem enxergar. Um bom exemplo é o fato do local abrigar, além de estabelecimentos comerciais, residências. Particularidade que, para a maioria dos frequentadores do local, passa despercebida. Suzete Aparecida Trópico, 37 anos, e o filho Guilherme Valentinari, 9 anos, há cinco anos são moradores de uma casa localizada no alto de uma loja na quadra 1 do Calçadão. Antes de se mudarem para o local, nem Suzete nem o filho desconfiavam que a Batista podia, sim, ser um corredor residencial."Descobri quando minha cabeleireira disse que morava aqui, que ia desocupar a casa e me ofereceu o espaço. Olhando de fora achei que o lugar era um ovo de tão pequeno, mas quando entrei fiquei assustada, é supergrande", conta. Além do amplo espaço, Suzete aponta a segurança e a proximidade com o trabalho como um dos principais benefícios de se morar na rua mais movimentada da cidade. "Eu trabalho na loja do lado de casa e meu filho não precisa nem pegar ônibus para ir para a escola. De noite aqui é bem iluminado e raramente alguém nota que entre duas lojas existe a porta que dá acesso à minha casa", enumera. Já na opinião de Guilherme, o maior benefício de viver no local é ter o Calçadão como quintal. "Depois que as lojas fecham e aos domingos, eu e as outras crianças da rua saímos para brincar. Como aqui não passa carro, é uma beleza!", explica, animado.
Quadra 2 Lanchonetes e lojas de bolsas e acessórios. Estes são os segmentos do comércio no Calçadão onde é possível encontrar, à frente do negócio, famílias chinesas. A vinda dos asiáticos para a Bauru teve início há cerca de 15 anos e, como não podia deixar de ser, o local escolhido para montar negócio foi a rua mais movimentada da cidade: a Batista de Carvalho. Maria Ye, 45 anos, dona de uma pastelaria e uma loja de bolsas na quadra 2 do Calçadão, foi uma das chinesas que veio com a família para Bauru há 11 anos. Seu objetivo: ganhar dinheiro. Para isso, ela teve de superar alguns desafios, e o principal deles foi trocar o mandarim pelo português. "Eu aprendi português em um ano", afirma, com um sotaque arrastado e cheio de orgulho. Mas, diferente dela, a maioria dos comerciantes oriundos da China ainda não se adaptou à língua portuguesa. Em alguns aspectos, é claro. Quando a reportagem visitou alguns destes lugares em busca por entrevistas, a primeira resposta que ouviu era "Não entendo sua língua". Porém, na hora de cobrar a conta de consumo dos clientes, o valor era dito em um português exato, com direito a sujeito, verbo e predicado.
Quadra 3 Quando Selma Issa Gândara Vieira, 54 anos, era adolescente, A Tropical, loja de tecidos de propriedade de seu pai e de seu avô, já somava anos suficientes para ser considerada um estabelecimento comercial na idade adulta. Isto porque a loja, com 73 anos atualmente, fincou raízes na quadra 3 da Batista de Carvalho quando a rua ainda nem era Calçadão, em 1938."Me lembro que eu saía do Colégio São José com minhas amigas e descia caminhando pela Batista até chegar na loja. Era a maior diversão, rolava muita paquera", lembra, usando de palavras como glamour, requinte e sofisticação para definir como era, na época, o centro comercial. Mesmo sem nunca ter imaginado tal destino, Selma assumiu o posto de proprietária da loja herdada do pai e do avô em 2001 e teve de realizar algumas modernizações para manter o comércio na ativa."Mantive a matéria-prima principal, que é o tecido, mas dei atenção especial ao atendimento, à exposição dos produtos, à qualidade e à fachada", enumera. Quanto à Batista, Selma acredita que a época de sofisticação já ficou no passado. "O Calçadão, atualmente, é popular. Esta é a alma do negócio", resume.
Quadra 4 Coordenar a subida e a descida do elevador pelos 16 andares do Condomínio Edifício Comercial, localizado na quadra 4 do Calçadão da Batista de Carvalho, foi o trabalho de Vera Lúcia Dias, 52 anos, durante nove anos. "E pensar que eu tenho horror à altura", comenta, rindo. A proposta de emprego veio logo que ela se mudou de Itapuí para Bauru, aos 18 anos. Depois disso, trabalhou por 14 anos em um escritório localizado em uma sala do 4º andar do mesmo prédio e em 2000 foi convidada a assumir a parte administrativa do edifício, que, para o desgosto dela, fica no 14º andar. Com 32 anos de trabalho no mesmo lugar, ela aponta com tranquilidade as mudanças ocorridas tanto no prédio quanto no Calçadão."O edifício foi pioneiro em altura. Foi construído em 1978 e era uma atração aqui no Centro. As pessoas que passavam não se conformavam como era possível ter um prédio tão alto", lembra. Atualmente, se não fosse pelos clientes e profissionais que ocupam as 136 salas existentes no local, a enorme construção correria o risco de passar despercebida. Para evitar que isso aconteça, o atual síndico tratou de dar um moderno ao prédio, instalando catracas digitais, elevadores tecnológicos e sistema de interfone, além de manter o brilho das paredes de mármore que enfeitam a recepção. Modernidade que se estendeu ao longo do Calçadão. "Adoro este lugar. As lojas são coloridas, atraentes. Diferente de quando comecei a trabalhar aqui, que era tudo muito classudo. Agora o que não falta é animação, movimento. O sistema de som das lojas contribuiu muito para isso", avalia Vera.
Quadra 5 Quem passa pela quadra 5 do Calçadão da Batista de Carvalho certamente já reparou em um grupo de homens ? ou em alguns grupos - que papeiam, diariamente, de forma alegre por horas e horas. "Eu digo que aqui é o Congresso Popular. Um grupo discute os temas como se fosse a câmara dos deputados, depois alguém vem e passa o tema para nós, os senadores", brinca Paulo Sérgio Coelho, 56 anos, frequentador assíduo do local, que aproveita para defender seu ?projeto-lei?: "O tema em discussão agora é a necessidade de aumentar os bancos com encosto e debaixo da sombra aqui nesta quadra", emenda. O traje, quase sempre composto por calça e camisa social e, algumas vezes, chapéu, denuncia a formalidade com que os assuntos em pauta são tratados. "Falamos de tudo: futebol, atualidades, economia, política... Bom, eles falam de política, eu não. Porque eu já não quero nem saber de política. A aposentadoria está muito baixa, tem muito corrupto no poder...", reclama Josi Florindo de Souza, 64 anos. A reunião tornou-se uma das características mais marcantes do Calçadão, virou tradição e é predominantemente masculina. Mas os grupos se revezam com relação aos horários. O 1º sargento reformado da Polícia Militar Roberto de Oliveira Baptista, que hoje trabalha como segurança de uma loja de joias, conta que, durante o dia, diversos grupos se formam para conversar. "Chegam uns, outros vão embora e é assim o dia todo. Só eu que fico aqui o dia todo porque tenho de trabalhar", explica. "Estou contando os dias para completar 65 anos e não precisar mais pagar o passe de ônibus. Daí eu vou vir aqui de manhã, de tarde e de noite", brinca Josi Florindo.
Quadra 5 Desde 1996 a Batista de Carvalho conta com um shopping para chamar de seu. O espaço, que tem 58 boxes de 2,5 metros quadrados, abriga 34 lojas que vendem os tipos mais variados de mercadorias, que vão de acessórios à pelúcia, perpassando por trajes típicos da cultura chinesa. Rosa Maciel Theodoro, 41 anos, é uma das comerciantes que ocupam o espaço do lugar. Seu principal produto são os bichos de pelúcia, que colorem os dois boxes alugados por ela. "Eu tinha duas lojas no Mary Dota quando decidi arriscar a sorte aqui no Centro. Em pouco tempo o volume de vendas superou minhas expectativas. Passa muita gente por aqui e quem não compra na hora grava a localização da loja e, quando precisa, sabe onde encontrar", explica Rosa, que paga R$ 2.060,00 pelo aluguel do espaço. Mas se pela variedade de produtos o local pode ser comparado a um grande centro de compras, o mesmo não acontece com relação ao conforto. "A única coisa ruim é que isso aqui é um forno. Dois ventiladores são insuficientes para dar conta de tanto calor", reclama.
Quadra 6 Há 87 anos, Enéas Pinto de Carvalho fundava na quadra 7 da rua Batista de Carvalho a Casa Carvalho, uma alfaiataria especializada na confecção de trajes masculinos formais e de gala. Dois meses depois, além de ampliar seus serviços para o ramo de chapelaria, mudou-se para a quadra 6 da mesma rua, onde está até hoje. Cássio Carvalho, atual proprietário da loja, se lembra de quando o negócio era tocado pelo avô e pelo pai. "Até uns 13 anos de idade, a Batista de Carvalho era um mistério para mim. Minha família não deixava que eu fosse até a loja nem frequentasse a rua porque ali perto existiam muitos meretrícios. Mas eu também nem estava interessado, queria mais é brincar", recorda-se, rindo. Somente na adolescência é que Cássio foi autorizado a ajudar o pai nos afazeres da loja. Da época, ele se lembra com clareza da pompa e circunstância exigidas pelos clientes que frequentavam a loja."Era tudo bem formal: as camisas sempre azuis ou brancas, nada de xadrez, e as calças usadas eram sociais. As pessoas andavam tranquilamente pelas calçadas apertadas, não tinham pressa", detalha. Alguns anos atrás ele expandiu a atuação da empresa, abrindo duas unidades da loja no Bauru Shopping, porém descarta baixar as portas da unidade embrião. "É tradicional. As coisas se modernizaram, mas a Casa Carvalho do Centro é algo que já faz parte do cenário da Batista de Carvalho", justifica.
Quadra 6 Quadros, flores, utensílios domésticos, material escolar, doces e tudo mais o que se possa imaginar a um preço bem em conta. Esta é a proposta das lojas de R$ 1,99, que viraram febre no Centro da cidade há cerca de 15 anos. No Calçadão, por exemplo, até um tempo atrás, era possível contar cerca de dez empresas do tipo. Atualmente, muitas baixaram as portas e as que conseguiram sobreviver à concorrência somam muitos motivos para comemorar."O segredo é a combinação da variedade de produtos, a qualidade e o preço. No começo as pessoas compravam por curiosidade e a venda era garantida. Depois passaram a ser mais exigentes e tivemos de nos adaptar", explica José Carlos Zaratine, gerente de uma loja de R$ 1,99 localizada na quadra 6 do Calçadão. Mas para abrigar tantos produtos é necessário espaço físico. A loja de José Carlos, por exemplo, tem, em média, 600 m² preenchidos por produtos. O aluguel é que é salgado: custa em torno de R$ 18 mil."Creio que vale a pena ter uma loja aqui. O problema é a burocracia na hora de carregar e descarregar mercadoria e a segurança, que é bem precária", reclama.

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