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O lado Negro do Cisne

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min
A desilusão enlouquece as pessoas. Os perfeccionistas perseguem objetivos com tal obsessão que perdem o sentido da realidade. Fui assistir ao lançamento de Cisne Negro com a minha mulher que adora filmes â??noirâ?. Desses cheios de claro-escuro, suspense, terror. Quando terminou a sessão, estava exausto e com dor na mandíbula de tanto trincar os dentes. O diretor Darren Aranofsky conta a história da bailarina Nina (Natalie Portman) às vésperas do seu primeiro papel principal. Ela começa a conviver com alucinações num crescendo e vai, aos poucos, confundindo o mundo real com as criações de sua mente. O olhar de Aranofsky sobre o seu enredo é freudiano. Aos poucos, o espectador vai conhecer a coleção de elementos que oprimem a bailarina Nina â?" a mãe repressora, a ausência paterna, a homossexualidade latente, a provável frigidez. O diretor repete a sentença - â??O sexo domina o mundo, tudo é sexoâ?, e não o amor. Então, â??vá se masturbarâ?. Pode ser psicanálise de botequim, mas funciona. Como cinemeiro há muitos anos até já vi esse filme antes. Há um filme de George Cukor â?" Fatalidade â?" que deu a Ronald Colman o Oscar de ator principal. Ele encena um Otelo tão realista que projeta o ciúme doentio do personagem shakespeariano na ex-esposa parceira em cena. Na ópera I Pagliacci, de Leoncavallo, o ator é traído pela mulher e mistura o real com a peça que interpreta. Cisne Negro dá pinceladas numa possível histeria de Nina, e vai apresentando aos poucos seu mergulho num processo de esquizofrenia cada vez mais profundo. A partir de certo momento, ela não consegue mais distinguir entre realidade e alucinação, e passa a agir indistintamente em função de qualquer uma das duas como se fossem a mesma coisa. O diretor tem indiscutível talento como contador de histórias, muito mais do que a pretensa profundidade que pretende dar no sentido psicanalítico. Também não precisava apelar tanto para o lesbianismo e a homossexualidade explícita. A boa atriz francesa Romi Schneider teve sua carreira arruinada porque apareceu numa cena tórrida, mas apenas sugerida, de sexo anal com Marlon Brando. A cena exibe corpos entrelaçados, mas só o tablete de manteiga aparece, pretensamente usado como lubrificante. Ã?ltimo Tango em Paris foi lançado em 1973. A censura ditatorial só permitiu a exibição no Brasil em 1979. Os ricos viajavam para Nova York ou Londres para assistir ao filme, levados por aquela pulsão freudiana capaz de atiçar o imaginário de um frade de pedra. O Lago dos Cisnes, com a música envolvente de Tchaikovsky é um conto de fadas que explora um dos mais antigos arquétipos da humanidade, a possibilidade do duplo â?" percebemos na bailarina, o tempo todo, a moça construída socialmente, um cisne branco frígido, estéril e incapaz de aproveitar todo o seu potencial expressivo, e o cisne negro que se debate pela liberdade, agressivo, destruidor, erótico, e completamente estético. O ballet foi um fracasso na sua estréia em 1877, no Bolshoi. Os artistas não entenderam bem a tese do homem coletivo, de Jung â?" alguém que carrega e dá forma ao lado inconsciente e psíquico. O lado bom e o ruim convivem com a mesma pessoa. Cisne negro representa o nosso medo de que a fronteira entre o bem e o mal não seja nítida, de que para realizar coisas boas e belas podem ser necessários atos que sejam feios ou ruins. O Times comenta, e os críticos de todo o mundo repetem. Reverenciamos o talento de quem tem. O filme deixa entrever que as dificuldades do corpo sexual são as mesmas do corpo estético - e os dois se encontram exatamente na dança. Por isso poucas bailarinas conseguiram desempenhar ambos os papeis, como Margot Fontein. Na maioria das encenações de Lago dos Cisnes os papeis do cisne branco e do negro são entregues a artistas de temperamentos diferentes: uma meiga e outra,â??sexo em fogoâ?. Fontein dançou até aos 50 anos de idade. No filme, Nina aos 28 já era considerada veterana. Cisne Negro tem muito de filme de terror, de â??noirâ? é sarcástico e com estruturas de humor negro. As pessoas de temperamento â??darkâ? vão gostar. Na verdade, o filme é conservador: o sucesso tem um preço, que pode ser terrível. Oscar para o melhor filme? Duvido. O prêmio de melhor atriz vai para Natalie Portman. Aposto um palito de limão.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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