Tribuna do Leitor

A primeira presidente do Brasil


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Em 2009, visitei o cárcere de Bárbara de Alencar, no centro histórico da cidade de Fortaleza. Em casa, vendo as fotos do lugar, não pude me furtar a lhe dedicar um poema. Há uma força estranha que se emana dali, um grito da história e da dor humana. Muitas vezes, lembrando-me do cárcere, incomum, à flor da terra, mas de pedra, pesado, vi-me murmurando: â??O túmulo de Bárbara...â? Logo em seguida corrigia-me, mas pensava primeiro em túmulo. Eis o poema â??O cárcere de Bárbara de Alencarâ?, eis como retratei aquele ambiente de sofrimento e de frieza, porque a história é fria, como as pedras que a conservam: Eu vi o cárcere de Bárbara de Alencar. No subsolo, a pequena cela de tortura: Atrás das grades, pedras, paredes de pedras, A cela onde um homem não cabe em pé. Bárbara recebia uma só refeição por dia, Mas era muito: alimentava-se de pedras E de orgulho ferido e erguido como bandeira. As pedras eram cabras mansas para Bárbara Ordenhar: Bárbara tirava leite das pedras.â??Quem me pedirá contas de meus atos? Meu marido, meus filhos, o meu Ceará? Quem combate o bom combate não sucumbe. Eu colho na derrota toda a minha vitória.â? Ouvi a voz de Bárbara, viva, nas pedras. Esse poema está no meu livro â??O sangue da terraâ?, publicado pela Secretaria de Cultura do Ceará em 2010. Saiu também em um blog do Cariri, onde amigos que o leram logo me disseram: â??Mas você é daqui!â? Sabiam que eu era paulista de Bauru, mas o orgulho nacional falava mais alto â?" o orgulho da nação do Cariri (grande região ao sul do Ceará, onde há um conjunto de onze cidades, sobressaindo o Crato e Juazeiro do Norte). Quando estourou a Revolução Pernambucana de 1817, Bárbara liderou o movimento no Cariri e proclamou a República do Crato, sendo designada presidente. Assim, Bárbara de Alencar tornou-se senão a primeira presidente do Brasil a primeira presidente de uma República brasileira. Os cearenses têm muito do que se orgulhar. Num tempo em que as mulheres dedicavam-se às famosas prendas domésticas (prendas que as prendiam, restringiam, totalmente), Bárbara não apenas aderiu, mas pôs-se à frente da Revolução Pernambucana em seu estado de adoção, o Ceará. Ã? o pioneirismo de uma mulher tomando as rédeas da história. A Revolução Pernambucana durou menos de três meses. Bárbara foi presidente por apenas oito dias. Mas foi o bastante para marcar a sua presença na história. Quando o romancista José de Alencar foi eleito senador do Império, D. Pedro II vetou o seu nome. Apesar de já ter sido ministro da justiça, o imperador temia que trouxesse em seu DNA os genes revolucionários e republicanos de seu pai José Martiniano, de seu tio Tristão e de sua avó Bárbara de Alencar. O Centro Cultural Bárbara de Alencar agracia todos os anos três mulheres, com a â??Medalha Bárbara de Alencar. O centro administrativo do Governo do Ceará chama-se â??Centro Administrativo Bárbara de Alencarâ?. Luiz Gonzaga sempre saudava â??dona Bárbara de Alencarâ?, nos seus shows no Cariri, onde sabia que a reverenciavam. No dizer do etnólogo potiguar Luís da Câmara Cascudo, a revolução de 1817 foi a mais linda, inesquecível, arrebatadora e inútil das revoluções brasileiras. Os cearenses têm muito do que se orgulhar. Agora temos uma primeira presidente do Brasil, Dilma Rousseff, revolucionária brasileira e presa política como Bárbara de Alencar. Esperamos que seja motivo de orgulho para os brasileiros, como Bárbara de Alencar é para os cearenses.
José Carlos Mendes Brandão

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