Cairo - O opositor Mohamed ElBaradei, Prêmio Nobel da Paz e ex-diretor da AIEA (agência atômica das Nações Unidas), criticou ontem as negociações entre o governo do Egito e representantes da oposição e disse não ter sido convidado para as conversações. ElBaradei afirmou que as negociações encabeçadas pelo vice-presidente Omar Suleiman foram dirigidas pelas mesmas pessoas que comandaram o país nos últimos 30 anos e que, por isso, sofrem de falta de credibilidade. Segundo ele, as negociações não são um passo em direção à mudança que os manifestantes antigoverno têm demandado nos últimos 13 dias, pedindo pela saída do poder do ditador egípcio, Hosni Mubarak. "O processo é opaco. Ninguém sabe quem está falando com quem nesse estágio", disse ElBaradei ao programa "Meet the Press" da emissora americana NBC. Ontem, Suleiman reuniu-se com grupos de oposição, incluindo a oficialmente banida Irmandade Muçulmana. No dia anterior, o vice-presidente - ex-chefe da inteligência egípcia - conversara com figuras opositoras para discutir opções para uma transição de poder."Isso (a negociação) foi dirigido pelo vice-presidente Suleiman", afirmou o Nobel da Paz. "É tudo dirigido pelos militares que são parte do problema." "Não fui convidado para participar das negociações ou diálogo, mas tenho acompanhado o que está acontecendo", completou. No entanto, um representando do grupo de ElBaradei, a Associação Nacional por Mudança, se reuniu com Suleiman ontem e descreveu as conversas como um positivo primeiro passo. ElBaradei disse que ainda há uma "grande falta de confiança" entre o governo e manifestantes e que há temor de que o governo recue e volte ao poder. "Se você realmente deseja construir confiança, você precisa engajar o resto do povo egípcio - os civis."Negociações Suleiman e representantes da oposição fecharam acordo para fazer reformas na Constituição e encerrar a Lei de Emergência, vigente no país desde 1981, informou a televisão estatal do país. Segundo o comunicado, em uma reunião realizada ontem, as duas partes acordaram com uma reforma para os artigos 76 e 77 do texto constitucional, que estipulam os requisitos para a candidatura presidencial e o número de mandatos que pode permanecer no poder. O porta-voz do governo, Magdi Radi, informou que as reformas devem ser implementadas antes da primeira semana de março. Segundo ele, houve um "consenso sobre a formação de um comitê, que contará com o poder judiciário e um certo número de representantes políticos, para estudar e propor as emendas constitucionais e legislativas que se fizerem necessárias". Radi afirmou também que os participantes da reunião concordaram com uma "transição pacífica do poder, baseada na Constituição". No encontro, o governo se comprometeu a criar um órgão para receber queixas sobre prisioneiros políticos, respeitar a liberdade de imprensa e não ferir os manifestantes que pedem a saída de Mubarak.
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