Internacional

Egito dá reajuste para ter apoio de servidor


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Cairo - Pressionado por uma revolta popular que já dura duas semanas e deixou 300 mortos, o governo do ditador do Egito, Hosni Mubarak, anunciou o reajuste de 15% no salário de todos os funcionários públicos. Segundo Samir Radwan, ministro das Finanças, a medida vai vigorar em abril e contemplará 6 milhões de servidores do país de população de 84 milhões. Presume-se que forças policiais e militares também se beneficiem da medida, anunciada ontem após a primeira reunião do novo gabinete de Mubarak. Radwan disse que o governo alocará o equivalente a R$ 1,6 bilhão para pôr em prática o aumento. Servidores tradicionalmente formam uma das mais sólidas bases de apoio ao regime, mas a inflação persistente, gerada em grande parte pela alta no preço dos alimentos, forçou o governo a conceder vários aumentos de salário nos últimos anos. A medida é vista como mais uma tentativa do regime de acalmar os ânimos e acelerar a normalização da economia, que tenta se reerguer após ser seriamente abalada pela atual crise. As principais cidades do Egito voltaram a ter ares de normalidade, com comércio e bancos abertos, mas analistas avaliam que levará tempo até comércio e indústria ressuscitarem. O aumento dos salários sucede a promessa, reiterada ontem pelo vice-presidente Omar Suleiman em inéditas conversas entre governo e oposição, de permitir mais liberdades políticas. Autoridades também anunciaram a criação de um comitê para refletir sobre mudanças constitucionais. Uma primeira proposta será feita em março, segundo a TV estatal Al Masria. Todos os acenos giram em torno da ideia de que Mubarak, no poder desde 1981, ficará no cargo até setembro, quando haverá eleições presidenciais. O ditador anunciou na semana passada que não concorrerá a mais um mandato.
Mudanças
Reunidos em torno de seis grupos, os cerca de 50 líderes antigoverno que participaram das conversas com Suleiman ontem foram unânimes em qualificar as propostas de insuficientes. A oposição, representada nas conversas por religiosos, seculares e lideranças juvenis, exige a saída imediata de Mubarak e quer incluir três mudanças centrais na Constituição: limite de dois mandatos presidenciais, diminuição das prerrogativas e poderes do presidente e mais facilidade para a pluralidade de candidaturas em eleições. Os anti-Mubarak também querem a punição das autoridades responsáveis pelas mortes de manifestantes. A cobrança mais forte ao governo veio da Irmandade Muçulmana, grupo político e social oficialmente banido mas tolerado na prática e que participa pela primeira vez na história de conversas com o regime de Mubarak. A Irmandade, única verdadeira força antigoverno, disse hoje cogitar abandonar as conversas se Mubarak não fizer mais concessões. Parece não haver consenso aparente nas fileiras oposicionistas sobre se o ditador deve sair do cargo imediatamente ou ficar até setembro. Os líderes que conversam com o governo também estão fragilizados pelo fato de não serem reconhecidos como interlocutores legítimos dos manifestantes que exigem nas ruas a saída imediata de Mubarak. O sentimento dominante na Praça Tahrir, epicentro da revolta que hoje completou 14 dias, é de que políticos oportunistas estão tentando se fortalecer graças à revolta nas ruas.

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