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AME reduz fila, mas 29 mil ainda esperam as consultas e exames

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

Um ano e quatro meses depois de ser inaugurado, o Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Bauru ainda não deu conta de atender uma demanda reprimida de 28.855 consultas e exames solicitados pela rede básica de saúde da cidade. Deste total, mais de 21 mil vagas são aguardadas somente para consultas. Por conta da dificuldade em absorver a demanda excessiva, os pacientes podem demorar até um ano e meio para conseguir realizar um exame, por exemplo.

Ainda que tenha sido um importante instrumento para reduzir o tempo de espera na fila por atendimento de média complexidade, a unidade mantida pela Secretaria de Estado da Saúde ainda está longe de cumprir o papel a que se propôs quando foi inaugurada. Antes de o AME existir, a demanda apenas por consultas era de 39 mil em Bauru, conforme aponta a Secretaria Municipal de Saúde.

A capacidade máxima de prestação de serviço do AME, ainda não atingida, é de 15,3 mil consultas e 35,4 mil exames mensais aos 18 municípios da região. Outra meta é o ambulatório e os municípios, responsáveis pela distribuição das vagas, alinharem oferta/demanda de consultas e exames. "Acredito que este seja o maior problema enfrentado hoje para que o AME atenda nossas necessidades. Por oferecer mais vagas do que a rede de saúde necessita em algumas especialidades e menos em outras, acaba havendo um desperdício de um lado, e uma lacuna do outro", aponta o secretário municipal de Saúde, Fernando Casquel Monti.

De fato, a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde argumentou, por meio de nota, que o município não aproveitou todas as cotas ofertadas para consultas em janeiro de 2011, destacando que a pasta desconhece qualquer informação sobre demanda reprimida na cidade. Segundo a secretaria, no primeiro mês do ano foram disponibilizadas 2.225 vagas para consultas e somente 1.870 foram utilizadas.

Monti argumenta que esta "sobra" é uma constante, exatamente por não haver um entendimento da esfera estadual sobre as reais necessidades do município. "Foram liberadas 500 vagas para otorrinolaringologia, por exemplo, mas só precisamos de 170 em janeiro. Já em neuropediatria ou cirurgia vascular, o tempo de espera é grande, porque as vagas são insuficientes", pontua. Se funcionasse em capacidade máxima, o AME deveria oferecer, somente para Bauru, 4 mil cotas para consultas todos os meses.


Risco


A dificuldade descrita pelo secretário pode ser ilustrada pela peregrinação vivida pela dona de casa Eliana Cristina de Oliveira, 29 anos. Ainda que afirme estar recebendo um bom atendimento no AME, ela busca, desde dezembro, dar início ao tratamento adequado para sua filha Denise, de 7 anos, que começou a sofrer desmaios no final do ano passado e ainda não recebeu diagnóstico.

"O médico disse que não pode dar nenhum remédio enquanto não descobrir o que ela tem. Tem mais um ecocardiograma para fazer e marquei retorno para o dia 29 de março. Espero que, até lá, ela possa começar a ser tratada", comenta. São três meses de incertezas e de risco para a vida da menina.

Ainda que o diagnóstico de Denise esteja demorando, conforme números da própria Secretaria de Estado, que coincidem com os do órgão municipal, o tempo de espera para uma simples consulta ou exame pode ser muito maior. Como o ambulatório, em janeiro, ofereceu 2.230 consultas e 349 exames para Bauru e a demanda reprimida esteja em 21.648 consultas e 7.207 exames, estima-se que o tempo médio de espera para cada tipo de atendimento seja, respectivamente, de nove meses e um ano e meio.

"É claro que, nesta conta, estamos considerando somente a demanda reprimida até janeiro de 2011. Não estamos contando as novas demandas que serão criadas com o passar do tempo e que se acumularão até esses nove meses ou um ano e meio passarem. Não seria uma surpresa saber de algum paciente que esteja aguardando há dois anos para realizar um exame", aponta Monti.

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde informou que o Departamento Regional de Saúde de Bauru (DRS-6) desconhece a demanda reprimida de consultas e exames em Bauru. Afirmou ainda que o órgão solicitou ao município a relação de pacientes à espera de atendimento, mas não obteve resposta.

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"Sobras"


O funcionamento do sistema de regulação e oferta de vagas do Ambulatório Médico de Especialidades (AME) aos municípios não é racional e não encontrou uma forma de se alinhar às necessidades de cada um deles. Tanto é que, em todos os meses, a rede de saúde de cada cidade tem de recorrer à abertura de "sobras" para completar a demanda, fato, no mínimo, curioso para uma fila de espera de meses ou anos em diferentes especialidades.

Conforme apurou o JC, no dia 15 de cada mês, as cotas de consultas de especialidades para o mês seguinte são liberadas para os municípios. Uma semana depois dessa liberação, as vagas não preenchidas para a primeira semana do mês em questão já são colocadas no bolsão, e assim sucessivamente.

Neste lógica, a vaga ficaria garantida durante uma semana. Com isso, muitas consultas podem estar sendo colocadas no bolsão em razão do prazo exíguo para a formalização dos agendamentos. "Às vezes as vagas sobram, mas não dá tempo de encaixar o paciente. A operação deste sistema ainda tem várias complicações", pontua o secretário municipal Fernando Monti.

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Listas manuais


Outro ponto que também figura como uma dificuldade para tornar o sistema eficaz é o fato de as unidades básicas municipais não disporem de sistema informatizado e rede interligada que facilitem a distribuição das vagas destinadas ao município. Desta forma, ficam à mercê de intermináveis listagens manuais das secretarias municipais para marcarem os atendimentos.

Conforme o secretário municipal de saúde, Fernando Monti, o investimento na compra de equipamentos para agilizar o processo já está em andamento. O desafio de informatização, entretanto, está em discussão desde 2005.

"Neste ano, de qualquer maneira, teremos o sistema informatizado na secretaria. Com isso, poderemos melhorar alguns detalhes do ponto de vista da gestão e regulação de vagas, mas não creio que seria suficiente para desafogar o atendimento sem o aumento do número dessas vagas", garante.

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Bauru e mais 17 municípios


O Ambulatório Médico de Especialidades (AME) atende Bauru e mais 17 municípios da região. Neles, a demanda reprimida também costuma ser bastante superior às vagas que são disponibilizadas mensalmente pela Secretaria de Estado da Saúde.

No município de Pederneiras, por exemplo, o número de pacientes aguardando atendimento é de 242 para consultas e 233 para exames. Em janeiro, foram ofertadas 235 cotas para o primeiro grupo e 41 para o segundo. Na cidade de Arealva, onde existe uma demanda reprimida de 612 consultas e 175 exames, foram agendadas 61 consultas e exames em janeiro.

Já em Pirajuí, a demanda reprimida é de 100 a 150 exames por mês, com ênfase na necessidade de ultrassonografias. Em consulta, o gargalo de atendimento está na área de clínica médica.

Na cidade de Lençóis Paulista, foram agendadas 362 consultas e 81 exames em janeiro. Em Presidente Alves, foram ofertadas 89 consultas e 12 exames e, em Duartina, 88 consultas e 29 exames.

Em Agudos, 219 consultas e 40 exames, mas o município ainda possui demanda nas especialidades de cirurgia vascular, dermatologia, gastroclínica, neurologia, neuropediatria, reumatologia e urologia.

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Índice de pacientes que faltam
ao agendamento chega a 20%


O índice de desistência de pacientes com consultas e exames agendados no Ambulatório Médico de Especialidades (AME) também é um problema para que a fila de espera seja reduzida. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a quantidade de usuários que não comparecem aos agendamentos chega a 20%, número que pode não diferir muito do atendimento privado de saúde, mas ainda assim alto se considerados os gastos públicos envolvidos.

Uma das explicações para o índice alto em Bauru pode ser justamente a demora em se marcar consulta com o especialista. Apreensivas, algumas pessoas conseguem uma forma de recorrer à rede particular ou às unidades de urgência e emergência. Quando chegam o dia de sua consulta no AME, já não precisam mais passar pelo médico. "Fica evidente que, quanto maior for o tempo entre o dia em que se agendou e a realização do exame ou consulta, maiores as chances de desistência", aponta o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti. Outra hipótese é dificuldade de deslocamento, já que muitos dos atendidos em Bauru são da região e podem não ter conseguido o meio de transporte para chegar ao AME.

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